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CinemaCultura

Capitão Falcão

Chamou, Sr. Presidente” afirma heroicamente Capitão Falcão, dirigindo ao seu soberano, Presidente António Oliveira de Salazar, demonstrando prontidão para iniciar uma nova missão. Acompanhado pelo seu “caladosidekick, o Puto Perdiz, Capitão Falcão segue na sua demanda em defesa do regime, lutando contra os mais temíveis dos inimigos dos “bons costumes portugueses” – comunistas, feministas e outros defensores da liberdade e igualdade.

Com Capitão Falcão [filme] é possível evidenciar uma distorção dos maniqueísmos, porém, essa conversão tem um importante propósito, satirizar os “tempos negros” que se viviam em Portugal em grande parte do século XX e, de uma vez por todas, “despir” o simbolismo que o salazarismo parece ainda ostentar nos dias de hoje. De forma a tornar essas décadas obsoletas e trocistas, era necessário recorrer a um tão incompreendido utensílio, felizmente a maior das suas armas – a comédia. Inicialmente programado como uma série televisiva de oito episódios, o Capitão Falcão opera como um dos projectos mais arriscados e criativos do cinema português actual, ao mesmo tempo que se assume como um desafio à inteligência dos ditos espectadores portugueses, estes, habituados à comédia barata das nossas propostas nacionais de sitcoms, tende à sua mercê a primeira oferenda real de sátira.

Gonçalo Waddington e David Chan são os protagonistas deste Portugal emergido em estilo “camp”, digno de um Batman de Adam West. Eles são os heróis improváveis, munidos de piadas suspensas por segundas intenções e um leque delicioso de referências e cameos, entre os quais de um herói tão português, porém, esquecido entre nós. Neste tremendo jogo de “bullying” à História, o assalto às memórias e “papões” portugueses, Capitão Falcão resulta como um divertido exorcismo, que eleva os valores dignamente fascistas, convertendo-os em alvos de troça, uma feira de bizarrias sob olhar atento ao público.

Até o Capitão Falcão tem que operar nas "sombras" para defender a sua pátria e o seu amado Presidente.
Até o Capitão Falcão tem que operar nas “sombras” para defender a sua pátria e o seu amado Presidente.

Ao mesmo tempo, o filme de João Leitão resolve-se assumir como o mais genuíno produto de acção, ostentando as melhores sequências do género vistas até à data no nosso panorama cinematográfico. Infelizmente, todos estes elogios incumbidos ao Capitão Falcão parece-se revelar numa atitude inferiorizante da minha parte para com o nosso país, em comparação ao Mundo, neste caso, despido os atributos e defeitos do filme a fim de este se encaixar na nossa ainda modesta indústria cinematográfica. A partir desse aspecto, que nos é revelado a maior das fraquezas do Capitão Falcão, a sua “kriptonite”, assim por dizer. Trata-se de uma obra demasiado limitada ao registo nacional, apelando de forma dependente a memória do espectador luso. Julgo também, que dificilmente conseguirá resistir ao tempo e às próximas gerações.

Outro lacrimejo deste projecto erguido com esforço e dedicação é a forma como vacila nas proximidades do desfecho, incutindo inúmeras vezes salientar a verdadeira natureza de Capitão Falcão e a sua tremenda luta como forma de advertir o espectador que tudo não passa de uma “brincadeirinha de faz-de-conta” e que as ideologias do homónimo “anti-heroi” não devem ser confundidas com o idealismo do filme e de todo os seus envolvidos. Contudo, tirando isso, estamos perante num dos genuínos divertimentos “tugas” e, se o sucesso concretizar, poderemos esperar atentamente pela sequela, visto que a última sequência faz-nos salivar por mais. Por isso: “Vamos a isto, Camaradas”.

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Hugo Gomes

Jornalista freelancer e crítico de cinema registado na Online Film Critics Society, dos EUA. Começou o seu percurso ao escrever no blog "Cinematograficamente Falando", acabando por colaborar nos sites C7nema, Kerodicas e Repórter Sombra, e ainda na Nisimazine, a publicação oficial da NISI MASA - European Network of Young Cinema. Nesse âmbito ainda frequentou o workshop de crítica de cinema em San Sebastian, também cedido pela NISI Masa, e completou o curso livre de "Ensaio Audiovisual e a Crítica de Cinema como Prática Criativa" da Faculdade de Ciências Sociais e Humana das Universidade Nova de Lisboa. Foi um dos programadores da edição de 2015 do FEST: Festival de Novos Realizadores de Espinho, e actualmente cobre uma vasta gama de festivais, quer nacionais, quer internacionais (Cannes, San Sebastian).

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