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Capitão América: Guerra Civil

Chegou finalmente às salas de cinema Capitão América: Guerra Civil e mesmo sem ser algo de extraordinário, é no mínimo interessante.  

A última vez que ouvimos falar de super-heróis foi há cerca de um mês com Batman V Superman: O Despertar da Justiça, realizado por Zack Snyder, com Ben Affleck e Henry Cavill nos respectivos papéis. Filme sobre os efeitos da interferência de um deus na Terra e das tentativas fracassadas de um arrogante multi-milionário em lhe fazer frente. Para além disso, dividiu opiniões (mais que todos os outros, provavelmente) e atingiu ainda os patamares mais exagerados, quer a nível visual, quer a nível sonoro (ainda se lembra da desnecessária acumulação de explosões?), daquilo que normalmente pediríamos a um filme do género, sem jamais esquecer o argumento preocupado e um quanto desesperado em reunir os mais emblemáticos dos heróis da DC Comics.

Capitão América: Guerra Civil

Agora e como já esperávamos, chegou a vez de comentar Capitão América: Guerra Civil, que, mesmo sem ser idêntico ao exemplo anterior, incorpora o mesmo mote de intriga, a rivalidade entre super-heróis. Super-heróis que, como parece ser moda, estão mais virados para lutar contra os seus supostos ‘amigos’ do que contra um maléfico e talvez desfigurado vilão. Apesar disso, não é a rivalidade aquilo que vemos de imediato.

Neste filme, terceiro título de uma trilogia composta pelos aborrecidos Capitão América: O Primeiro Vingador (2011) e Capitão América: O Soldado de Inverno (2014) somos enviados numa viagem até ao ano de 1991, quando o Soldado de Inverno (Sebastian Stan), Bucky para os amigos, se tornou na poderosa arma mortífera que é. Esse momento passado, que se mantém presente, cedo nos reenvia para tópicos fundamentais e interessantes, como traumas ou os comuns dramas familiares e relacionais, no sentido de justificar as várias crise de identidade que vão surgindo ao longo do filme.

Tudo resulta do facto do grupo dos Vingadores ter sido acusado pela morte de inúmeros civis inocentes em todas as suas batalhas, dimensão que ainda não tinha sido explorada no universo Marvel. Enquanto que Tony Stark (Robert Downey Jr) mantêm-se politicamente correcto e decide assinar uns certos acordos com o apoio de Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), James Rhodes (Don Cheadle), Vision (Paul Bettany) e Black Panther (Chadwick Boseman, curiosamente o primeiro herói afro-americano a aparecer neste universo cinematográfico), a personagem de Evans emerge como o menino rebelde e chico-esperto que prefere fazer justiça pelas próprias mãos, junto de Falcon (Anthony Mackie) e Wanda (Elizabeth Olsen).

Capitão América: Guerra Civil

Por sua vez, é a tensão entre essas facções que respeita um domínio ético-moral e que conduzirá a uma prolongada batalha num aeroporto (como vemos no trailer), dos quais surgem outras tantas personagens como Hawkeye (Jeremy Renner), Homem-Formiga (Paul Rudd) e até o Homem-Aranha (Tom Holland), marcando o regresso de Peter Parker ao grande ecrã. Claro que são justas adições, sobretudo, as duas últimas que incorporam em si uma maior empatia para com o público, pois estão responsáveis pelos momentos mais cómicos e divertidos, ao aumentarem e diminuírem de tamanho, ou a realizarem umas proezas com teias, graças à astuta direcção de fotografia de Trent Opaloch.

Na verdade, é mesmo Tom Holland quem mais se safa neste registo, sendo refresh de uma personagem que parecia deambular sem futuro. O ponto mais forte do argumento decorre aí, quando não está preocupado em revitalizar as suas origens com surgimento ou referência ao tio Ben ou a uma tia May mais velha, mas valer-se sim da presença de uma bombástica e sexy Marisa Tomei, próxima do desempenho que teve em Amor, Estúpido e Louco, e já a deixar os espectadores ansiosos por Spider-Man: Homecoming. Mesmo assim, em contrapartida, são personagens que surgem apenas para acrescentar sal a uma salada russa, próxima ao nome dos realizadores, conclusão que tiramos lamentavelmente no final. Além disso, nesse instante, é convocada uma questão pertinente, nomeadamente do porquê de mais e mais filmes sobre super-heróis.

Sabemos que é uma questão que diz respeito a todos os estúdios e embora umas sequelas funcionem (X:Men – Dias de um Futuro Esquecido é o mais recente e eloquente exemplo), outras nem tanto (Os Vingadores: Era de Ultron é mero fracasso), mas independentemente da sua opinião é certo que estamos diante de uma fórmula gasta, que só sabe reciclar em vez de inovar. Será que há necessidade de estender algumas histórias por razões orçamentais? Será que os vários actores não deveriam romper com essa matriz, para não ficarem presos a um certo tipo de interpretação?

Capitão América: Guerra Civil

Para encontrar elementos que justifiquem este ponto basta observar, em primeiro lugar o caso paradigmático do ‘protagonista’ desta história, Chris Evans. O actor americano de 34 anos, a quem falta uma dimensão dramática na sua carreira, já veio a público confirmar que está interessado em renovar o contrato para mais filmes, apesar de perceber o limite das suas capacidades representativas e o impacto que tem enquanto actor advém, sobretudo, deste seu Capitão América. Ou o caso de Scarlett Johansson, que nunca mais teve uma interpretação no mínimo marcante – à excepção de Under the Skin ou de Her – surgindo muitas vezes muito bem penteada e caracterizada depois de uma sequência de acção perigosaestatuto de estrela que o estúdio não consegue anular. Em segundo lugar, temos igualmente Robert Downey Jr., com o  tom sarcástico dos outros filmes de Homem de Ferro, mas que parece cansado e o próprio argumento precisa de ser alterado para ‘lhe dar tempo de antena’, como acontece num previsível fim do relacionamento com Pepper Potts (Gwyneth Paltrow).

Capitão América: Guerra Civil

Não gostaríamos de terminar sem falar do vilão, que existe, mas mais humano que todos os outros. Daniel Bruhl, um actor em ascensão que sabe aproveitar a dimensão mais realista da sua personagem – para muitos Bruhl parece acrescentar o que mostrou em Rush: Duelo de Rivais, onde desempenhava o papel de Nikki Lauda -, interpreta Zemo, um homem misterioso, que mais parece uma personagem saída da série James Bond ou da série Bourne e que nunca desaponta. Já as participações de Martin Freeman e Emily VanCamp nada mais fazem do que preencher algumas lacunas do argumento e prolongar o filme até duas horas e meia, sendo a primeira parte mais aborrecida que a segunda.

Capitão América: Guerra Civil talvez satisfaça os fãs, mas de um ponto de vista cinematográfico apenas nos deixa na dúvida se este é um género em colapso ou se ainda conseguirá sobreviver. Bem, sabemos pelo menos que este é o início de uma nova fase da série, algo assegurado pelo facto de que daqui a dois anos chega The Avengers: Infinity War, dividida em duas partes e que poderá dar aso a outras sequelas. Paradoxo por paradoxo, este é um dos eventos do ano, por querer seguir em frente e em frente, sem preconizar um término.

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o 'viciado em filmes' porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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