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Capas (artísticas) de álbuns

Quando se fala de capas de álbuns artísticas é seguro que se questione o que é Arte. Será um termo tão objectivo como muitos fazem crer? Afinal, o que é uma obra de arte?

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que a Arte é mais subjectiva do que objectiva e a explicação é simples: cada pessoa tem os seus interesses e gostos e cada uma aprecia diferentes obras. O que é uma grandiosa obra de arte para mim, pode não o ser para outro indivíduo e vice-versa.

Assim sendo, o que é uma capa artística? Com a certeza de que vejo Arte onde muitos não conseguirão ver, escolhi algumas capas de álbuns que, a meu ver, têm Arte, a começar pelo facto de serem originais, factor relevante no tema.

Nirvana – Nevermind

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Esta imagem é, sem dúvida, original. Não é toda a gente que imagina um bebé a nadar na direcção de uma nota. Esta ideia surgiu do vocalista, Kurt Cobain, depois de este ver um documentário sobre partos na água. Uma vez que um nascimento pressupõe imagens passíveis de ferir susceptibilidades, a banda optou por um bebé a nadar. A mensagem aqui representada (bebé e dinheiro) estará relacionada com o facto de cada vez mais cedo nos deixarmos controlar pelo dinheiro e pelo capitalismo. Outro facto interessante é o facto de uma banda de Rock se fazer representar por um bebé, quando o Rock faz parte da “música pesada” e o bebé é a condição mais vulnerável do ser humano. Este antagonismo desperta imediatamente o nosso interesse.

Imagine Dragons – Smoke and Mirrors

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Os Imagine Dragons captam a atenção dos mais distraídos, a começar pelo nome da banda, que é um anagrama. Smoke And Mirrors, o seu segundo álbum, não deixou os fãs desiludidos. A banda aliou-se ao pintor surrealista Tim Cantor e a capa do álbum é fruto da fusão desse surrealismo com o estilo dramático e alternativo das suas músicas. E tal como ninguém, além do quarteto, sabe a origem do anagrama, a simbologia desta capa também pode deixar muitos na ignorância. Enigmáticos, os Imagine Dragons (e Tim Cantor) apresentam um nome (de álbum) e uma capa onde claramente paira o mistério. As duas mãos estão abertas, como que a libertar o pássaro que parece gritar, porém, os pulsos estão atados. Tal como no álbum dos Nirvana, existe aqui um antagonismo. E é nesse registo que a banda de Las Vegas conquistou olhares e ouvidos por todo o mundo. A arte, nesta capa, começa pelo nome da banda, desenrola-se até ao nome do álbum e termina com a imagem de Tim Cantor.

AC/DC – Black in Black

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Como é que uma capa que é – apenas e só – um fundo preto pode ser artística? Confesso que não seleccionaria esta capa, se não soubesse o nome do álbum. Por outro lado, a história aqui por detrás também ajuda a perceber a minha escolha. Primeiramente, esta capa ganha pela sua simplicidade e objectividade. Poucas capas de álbuns se relacionarão tão perfeitamente com o nome do álbum como esta. Já historicamente, o álbum é uma homenagem ao ex-vocalista da banda (falecido no ano de lançamento – 1980) e surge numa altura em que os fãs de AC/DC se questionavam sobre o fim da banda. A arte é fascinante pela sua complexidade, muitas vezes convertida em simplicidade.  Uma coisa é certa: esta capa pode não ser uma grandiosa obra de arte para muitos, porém, não há como negar que é uma capa diferente. E a arte também promove a diferença.

Carlão – Quarenta

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Fiz questão, antes ainda da escolha das capas para este artigo, de incluir um álbum português. Lembrei-me deste, por vários motivos. Olhando para a imagem, surgem-me vários pensamentos e até emoções: a efemeridade da vida, o olhar para o passado, as marcas que o tempo deixou, as preocupações sociais de Carlão (retratas nas suas músicas). A capa de Quarenta é reflexo do álbum e do seu autor. No ano em que completou 40 anos, Carlão lançou o seu primeiro álbum a solo, cuja capa deixa inevitavelmente transparecer, ainda que talvez parcialmente, a ideia de “biografia”. O termo Arte ganha aqui uma dimensão peculiar (e igualmente objectiva), já que, quando questionado, pode relacionar-se com a “bio”. Afinal de contas, a vida é uma arte para quem se diz artista.

Muse – Drones 

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A banda de Matew Bellamy continua a não dispensar as mensagens de carácter apocalíptico e civilizacional. A capa do seu último álbum alerta para a problemática dos drones. Na foto, uma mão gigante aparece a controlar um ser humano sem cabeça (a ideia de que, por vezes, agimos sem pensar e somos fáceis de controlar pelas tecnologias – drones – como se pensássemos que somos nós que as controlamos, mas na realidade são as tecnologias que nos controlam). Esta capa é, mais do que uma metáfora moderna sobre a perda de esperança e a subjugação humana, uma visão apocalíptica na qual paira o fantasma de uma terceira guerra mundial. Uma incontestável obra de arte, portanto.

Em jeito de conclusão, claramente que muitas capas artísticas ficaram por partilhar. Até porque a Arte parte da definição que cada dicionário lhe atribuí. E artisticamente falando, todos nós podemos ser dicionários.

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Cátia Cardoso

Cresci junto às margens do rio Paiva. A natureza sempre me inspirou e a inspiração sempre me impeliu para a escrita. Aparte isso, acredito que nasci com uma missão: comunicar. E a estudar Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra, descobri ainda a paixão pelo cinema que veio juntar-se à paixão pelo teatro. O mundo e as pessoas levam-me a pensar e construir pontos de vista e opiniões, que não receio expor.

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