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ContosCultura

Caí aqui dentro

O meu coração abrandou. “Tum”. Espera. “Tum”. Espera. Não me consegui mexer. Senti-o a bater por última vez, devagar. “Tum”.

E fim. O meu coração parou.

Silêncio. Imóvel. A cabeça vazia. Silêncio denso, como quem está debaixo de água.

Toquei na minha cara. Sentia-a. Estaria morta? Se estivesse morta, poderia sentir a minha cara?

Levantei-me da cama. O chão frio. Escuridão. Um caminho de escuridão, como se o chão fosse feito de nevoeiro negro. Os meus pés pálidos, nus, cuidadosos. De cada lado do caminho escuro, lamparinas ténues guiavam-me em curvas, rectas, caracóis de caminho que aumentava infinitamente à minha frente. A sua luz amarela era quase da cor do fogo, mas não iluminava nada. Não aquecia. A escuridão era fria.

Senti um ruído nos meus ouvidos. Vento ténue, um mosquito numa noite de Verão. Olhei para os lados, para a profundidade dentro do escuro. As lamparinas marcavam espelhos que me reflectiam. Distorciam-me. À direita e à esquerda, acompanhavam o meu passo milhares de eus perdidos. Ora de cores, ora luminosos, ora feitos de carne ou de ferro. Os espelhos mostravam-me como um puzzle de sonhos, de realidades, de fumos. Forte, com garras. Fraca, pequena. A rir às gargalhadas, a chorar mares, a gritar fogo, a desintegrar-me e a completar-me. A arrancar pedaços de mim e a coser outros novos. Era eu, feita de estrelas e de Universos e, também, de buracos negros. Todos os meus eus. Uma miríade de borboletas brancas voavam ao contrário, como num filme de David Lynch. Quase que me tocavam, de tão perto que eu as conseguia ver e sentir. Pequenos pontos de esperança. Voavam para trás como um aviso. Eu olhei-as, mas deixei-as ir sozinhas. Continuei para dentro da negritude.

Tropecei. No meio do nevoeiro negro e denso, consegui perceber uma gaveta aberta. Não consegui abrir mais, nem fechar. Espreitei. Lá dentro, os olhos assustados de um segredo. Ignorei-o – não conseguia enfrentá-lo. Várias gavetas a abrir e a fechar, como num jogo de whac-a-mole. Expulsavam risos, traças, pó. Pequenas memórias bem guardadas. Mais à frente, um armário trancado. As minhas mãos agora eram chaves gigantes. As portas do armário estavam vivas. Chamavam-me, diziam o reverso do meu nome e mexiam-se, para fora e para dentro, num esforço por se escancarar. Não abri. Fugi a correr. Bati contra a invisibilidade de uma porta aberta. Uma casa gigante. Lá dentro, folhas de papel voavam. Corujas e mochos com cores de fénix dormiam. Relógios partidos no chão em vidros pisados que marcavam os segundos anteriores. Palavras escritas à mão que enchiam todas as paredes. Olhos e bigodes de gatos em cada esquina, árvores com corvos a crescer de cima para baixo, dentro de lagos iluminados por um sol invisível. Sempre ao contrário. Tudo ao contrário.

Entrei pela porta.

As minhas asas começaram a bater e eu vi os meus sonhos lá ao fundo do caminho, bem depois da casa. Não havia telhado, só estrelas. Alguns dos sonhos estavam estilhaçados no chão. Outros corriam, luminosos e hiperactivos. O passado comia os pedaços dos sonhos rotos, um gigante feito de história com uma fome infinita. Aos meus pés, as correntes repletas de segredos pesavam-me. Eu tinha uns olhos gigantes.

Um lugar onde ninguém me podia alcançar. Um lugar de contrários.

As asas recolheram-se em braços e os meus pés tocaram na relva fresca. Num jardim, todos os meus eus andavam para trás, e falavam ao contrário, e olhavam-me em reverso. Sentei-me num banco vazio. Havia luz e nuvens, gargalhadas e contentamento. Algumas bolas de sabão que explodiam quando me tocavam. Fiquei reconfortada por encontrar dentro de mim aquele lugar de felicidade. Os olhos fugiram-me para o céu, para o horizonte, para o mais longe possível. De dentro da minha alma, olhava para fora. Ali dentro ninguém chegava. Só eu. Ninguém me via. Eu, lá dentro, observava-me no espelho através dos meus olhos. A expressão mudada. A boca descaída, as rugas acentuadas. Quem me olhasse, veria que era fácil perceber, até pela forma abandonada como fumava, que havia muita história esmagada naquele espírito. Eu era como alguém que espera eternamente.

De repente, um batimento alto. E outro. O coração voltou a bater. Arrítmico. As asas encolheram-se em braços e eu caí para cima da cama. Tossi e coloquei a mão sobre o coração desnorteado para acertar o compasso. As marcas das correntes nos tornozelos ardiam-me, vermelhas. Arranquei algumas penas das costas. Sangrei. E levantei-me para ir tomar um duche – hoje é dia de trabalho.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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