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Bruno Martins: A paixão de um trajeto pela Música

Bruno Sílvio Martins é um músico, compositor, guitarrista e vocalista. Tem 36 anos e é natural de Lisboa. Transporta a ideologia nos braços, sob a forma de tatuagens, e é um vegetariano convicto. Teve várias bandas ao longo do seu caminho pela música, sendo que apenas duas delas se revelaram verdadeiramente sérias. A mais actual, que lhe faz transbordar na voz o entusiasmo de quem está prestes a lançar um EP, chama-se Medusa.

O Bruno espera, a curto prazo, realizar o sonho de tocar nos grandes palcos. Gentilmente, concedeu-nos esta entrevista, não só para podermos dar a conhecer o seu trabalho, mas também para absorver um pouco da sua vida e da sua paixão pela 1ª Arte.

Fala-nos da tua paixão pela música. Como é que tudo começou?

Bruno Martins (BM): Começou quando eu era mesmo muito miúdo. Sempre vivi rodeado de música, o meu pai era músico, e eu cresci a ver os ensaios dele e a ouvir o que ele ouvia. A partir daí foi uma progressão normal. Tinha as guitarras dele em casa, entretanto fui aprendendo a tocar sozinho, embora, claro, sempre com uma ajuda dele. Na escola juntei-me a mais pessoal que tocava, as bandas começaram a surgir e fazíamos covers de tudo o que ouvíamos na altura (risos). Mais tarde pensei que, se calhar, queria mesmo levar a música a sério. Decidi tentar compor e, como ler também sempre foi uma grande paixão minha, rapidamente decidi aprofundar a parte da escrita. Tentava apanhar tudo o que gostava das minhas bandas para ir melhorando e passei alguns anos nisto. Só com os Common Fluid é que tive o meu primeiro “click” em banda, porque não se sente aquela química com todas as pessoas com quem se vai tocando ao longo do percurso. Foi a primeira experiência a sério que eu tive. Com quatro elementos conseguimos criar algo que achamos bom o suficiente para gravar. Até agora tenho estado rodeado das mesmas pessoas, porque essa química é fundamental, tanto a nível musical, como pessoal. Tem de haver o “click” que te faça querer fazer melhor e, desde aí, ainda não parei (risos). Nem faço tensões de parar!

Sabemos que o teu avô e o teu pai foram músicos. Até que ponto sentes o peso de ser um prolongamento do talento deles?

BM: Penso nisso muitas vezes. Tanto o meu pai como o meu avô foram inspirações muito grandes na minha vida, mas nenhum deles teve realmente sucesso. O meu avô era maestro e professor de educação musical na Madeira. Depois teve de vir para o continente, porque a educação musical deixou de ser obrigatória nas escolas de lá e ele perdeu o emprego. Mas cá não se safou muito bem.

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O meu pai também teve de abandonar o seu estado criativo: naquela altura, anos 70, as bandas não davam muito dinheiro e ele teve de optar. Ou assentava, porque ia ter um filho – que era eu (risos) – e arranjava um emprego em que fizesse dinheiro, ou, então, continuava naquilo, sem qualquer tipo de certezas. Não se via futuro, por isso acabou por abandonar. Obviamente que isto me faz pensar. Dentro deste legado, eu quero mesmo conseguir vencer. Sinto essa responsabilidade de dar sucesso ao meu legado.

Os teus projectos têm sido sempre no plural. O que te fascina no mundo das bandas, enquanto músico e performer?

BM: Alimento-me imenso da química que se gera numa banda. Gosto de compor, sempre sozinho, e adoro o processo criativo da coisa. Gosto tanto do processo criativo e de gravar, como de tocar ao vivo. Tudo isso me alimenta a criatividade. Mas é em banda que eu me alimento verdadeiramente. A minha personalidade criativa absorve muito dos músicos que trabalham comigo. É uma bola de neve: quando há vários contribuidores, os pormenores do baixo, da voz, da guitarra e até da bateria acabam por ser um resultado de muitas mais pessoas e visões de composição. É isso que eu gosto imenso numa banda e que não encontraria sozinho. Gera-se uma magia criativa, principalmente se já tocares com as mesmas pessoas há algum tempo.

Então, não pensas em lançar-te a solo?

BM: É uma coisa diferente. Tornas-te o ditador do teu projecto. Quando és só tu, a única produção criativa que existe é de ti, sai sempre de ti. Em banda recebes mais dos outros e, por isso, a ideia de um trabalho a solo não me cativa.

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Sentes que o teu trabalho tem o sucesso que merece?

BM: Em Common Fluid não teve. Tive pena, na altura, mas não sou pessoa de ficar presa no passado e estou muito orgulhoso do trabalho que fizemos no Tremor. Não funcionou, andei para a frente. Em Medusa, espero que tenha, pelo menos dentro de um nicho de mercado, mais underground. Isto falando-te apenas dos dois projectos em que estive envolvido que considero verdadeiramente sérios.

Pergunto-te, agora em específico, sobre os teus projectos: para quem conhece o álbum dos Common Fluid, Tremor, o que é que continua em ti desse projecto e passou para os Medusa

BM: O João, baterista (risos).

Significa que há muita coisa que mudou?

BM: Tento ser muito ecléctico naquilo que faço. Portanto, quando decidi criar os Medusa, já sentia que os Common Fluid estavam perto do fim. Já não conseguia dar escape criativo dentro daquela banda. Até porque queria começar a escrever em português e passar a criar, musicalmente, de uma outra forma. Quis sair do padrão blues/grunge e criar algo mais pesado e, simultaneamente, mais emocional. Talvez escrever na minha língua seja automaticamente sinónimo disso.

O som, em Medusa, é mais áspero, não é tão polido e a voz também é mais bruta. Acho que Common Fluid é muito mais audível.

João e Nuno
João (bateria) e Nuno (baixo), restantes membros dos Medusa

Fala-nos do teu processo criativo e lírico: como foi escrever para o Monstrologia, sendo que, contrariamente ao trabalho da tua banda anterior, a intenção era lançar algo em português?

BM: Pensei que escrever em português ia ser muito mais complicado para mim. Mas eu sempre escrevi poemas em português, tal como em inglês. A minha principal preocupação era saber como musicar as palavras em português, que têm sempre uma carga emocional diferente do inglês e uma sonoridade muito forte. Curiosamente, a primeira música que escrevi para Medusa, que foi a “Queima”, surgiu-me de forma quase automática. Não estava à espera. Estava a escrever, a tocar o riff e a cantar por cima, e surgiu tudo ao mesmo tempo, praticamente. Percebi que conseguia fazê-lo e achei que até o fazia bem. Tudo o resto foi o aprofundar disso. Quanto mais escreves e compões, melhor te tornas a fazê-lo. E a composição para Medusa foi muito assim, até porque a estrutura esteve sempre a evoluir. Na “Menino Cão”, por exemplo, a parte instrumental foi das últimas coisas a surgir e, no próprio dia da gravação, tornou-se numa música bem diferente do que era.

Quais foram as tuas principais inspirações para as letras?

BM: Posso dizer-te que estas são as letras mais pessoais que já escrevi. Não te digo que são todas autobiográficas, mas são quase todas bastante pessoais. Ao escrevê-las exteriorizei alguns demónios, coisa que não me acontecia ao escrever e ao cantar em inglês. Na “Clandestinos”, por exemplo, e mesmo preferindo que as pessoas cheguem às suas próprias conclusões sobre os significados das minhas canções, falo sobre o meu amor pela Arte, pelo processo criativo e pela química que tens com as pessoas com quem trabalhas. É uma espécie de Ode ao Artista. A “Menino Cão”, por outro lado, já é mais uma crítica social, de certa forma inspirada numa música do Sérgio Godinho de que gosto muito, a “Etelvina”.

Depois há músicas mais pessoais. A “Queima” e a “Monstro de Sete Cabeças” falam ambas sobre os demónios do que é ter uma visão deturpada de ti mesmo. Sinto-me muito exposto a cantá-las, porque mesmo que as pessoas não saibam do que se trata, eu sei. E além disso, as pessoas que me são realmente próximas sabem ao que me refiro e sentem o mesmo desconforto que eu sinto com essas letras.

E quais são as expectativas da banda em relação a este EP?

BM: Acho que sou o mais entusiasta da banda e levo as coisas de uma forma mais leve. Talvez eles sejam mais reticentes. Essa sempre foi a nossa postura. Contudo, tanto eu, como o João e o Nuno demos o litro pelo projecto. O processo foi demorado e duro, mas chegamos ao fim e percebemos que o EP soava muito bem. As pessoas do meio diziam-nos a mesma coisa e, por isso, obviamente que ficámos empolgados. Falando por eles, a ideia geral é de que isto tem pernas para andar e um bom futuro pela frente. Sentimos que é o melhor trabalho que qualquer um de nós já fez e, pessoalmente, estamos super realizados.

Para terminar, e para quem quiser ouvir e ver o trabalho dos Medusa, qual é a próxima coisa pela qual podem e devem ansiar?

BM: Para começar, estivemos a filmar o vídeo do nosso primeiro single, que é a “Clandestinos”. Antes do final de Agosto, vai estar cá fora. Acho que o vídeo vai ser muito bom. Vai ser de animação e os desenhos são da Sandrine Bringel, que também é a autora de todo o nosso artwork. Além disso, ficam já a saber, e em exclusivo, a data de lançamento do EP, que é a 4 de Setembro. O lançamento será apenas em versão digital, porque, por mais que nos tenha custado, chegamos à conclusão que a versão física seria um investimento demasiado grande da nossa parte. A boa notícia é que vamos lançar um site com a saída do EP, uma vez que neste momento os Medusa só têm Facebook e Instagram. Quanto a concertos, os ensaios estão a correr bem, mas só depois do lançamento é que teremos datas.

medusa logo

Visitem as páginas dos Medusa aqui:

https://www.facebook.com/medusa.musica

https://instagram.com/medusa_musica/

Foto de destaque: Tiago Pereira

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Liana Rego

Licenciada em Jornalismo. Estudante de Mestrado na Universidade do Porto. Feminista convicta. Vegana. Apaixonada: por música, por cinema, pela Arte de revolucionar.

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