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Brexit, após Referendo

Se o Referendo sobre o Brexit nos pareceu, a muitos, algo estranho, talvez pensado, mas nunca verdadeiramente aceite como possível, já as reacções após o mesmo serão quase todas as que se podiam antecipar. Não surpreende a mais relevante delas, o anúncio da decisão de demissão de Cameron. Embora esteja subjacente o cariz paradoxal de vir de quem lutou, com a arma da promessa do referendo, para obter uma maioria que pensava escapar-lhe e, agora, não suporta a decisão democrática, ou duas aliás: a de governar de acordo com um mandato conferido pelos votos de 2015 e a de governar com o processo de saída da União Europeia, contrário ao que defendeu, mas vindo do mesmo povo eleitor.

São aliás estas atitudes que conferem a face de fraqueza a um suposto líder e fazem com que se duvide da sua capacidade de liderança. É absolutamente legítimo que um político não queira seguir a sua função com uma aparente nova realidade, aparentemente contra o que pensa e defendeu. Porém, é, sem simultâneo, uma desconcertante desconsideração democrática.

O Brexit, no entanto, começa a ser muito menos de Cameron e será cada vez mais dos defensores do processo, como será da Escócia, da Irlanda do Norte e de toda a Europa. E é, desde sempre, de uma Europa que, mesmo após o Referendo britânico, parece querer manter tudo igual. Parece haver uma espécie de regra não escrita que define que nunca se deve mudar nada, que tudo está bem e que o que mal estiver, estará nos outros. Sempre nos outros. Uma regra muito germânica, que tem medo de mudanças, de tudo o que não tiver sido antecipada e demoradamente previsto e programado.

Contudo, ainda temos de fazer um outro exercício, talvez meramente intelectual e de projecção pura, mas não propriamente divinatório. Um dia, o exercício, agora com sabor de utopia, parecer-nos-á a evidência que sempre nos esteve perante os olhos, mas no geral não a vimos. Merkel, Cameron e tantos outros líderes europeus actuais, aos que podemos juntar os actuais britânicos, contra ou a favor da União, irão surgir-nos como quase irrelevantes. Se se tratasse de um Helmut Khol, ainda assim desconhecido dos mais jovens hoje activos na política, o cenário bem podia ser outro. Porém, o que neste triste processo mais contará será a insensatez, se confirmada, caso contrário pode um dia ser vista como visionarismo, dos que agora põem em causa uma União Europeia como a conhecemos, e os líderes que nunca souberam gerir um processo irreversível e custoso. Irresponsável, faça-se a análise que se pretender.

Sejamos, então, mais claros. A Europa é um projecto de civilização avançado e democrático. Pouco importará, no tal dia num futuro não longínquo, os disparates e falta de visão dos líderes actuais, mas já serão responsabilizados pela sua manifesta incapacidade. A Europa, assim sendo, ou assim tido sido sonhada, é um projecto que não interessa a anti-democratas. No entanto, a mesma Europa que se mantém ainda, combalida, mas viva, como projecto de mudança e de cilivilização, mais do que um projecto nacional isolado, sofre de mediocridades gritantes.

Uma das mediocridades é decidir-se um Referendo, com base num pressuposto e depois ter-se uma fraqueza de tal ordem que o melhor é pôr-se em debandada. Outra mediocridade, é proveniente de um discurso redondo, igual a tudo o que sabemos, ouvimos vezes demais e estamos cansados de ter de ouvir. Merkel declara-se a cada discurso e a cada passo, como a antítese de Kohl e não a líder que alguns pretendem que seja. Frases feitas e redondas não ante-vêem futuro promissor, nem evitarão mais processos plebiscitários e de eventual cisão. Pode seguir-se a Escócia, como a Suécia, a Irlanda do Norte e a Holanda. E não sabemos, após essas consultas tão populares como populistas, como se sentirão os demais países em equilíbrio instável e em dúvida sobre a democraticidade desta Europa. Muitos dissemos que a Europa estava doente. Após um Referendo que o demonstra, num país com uma Democracia inquestionável, vem uma pseudo e auto-intitulada líder de todo este grande espaço comum dizer que nada ameaça nada, que tudo segue como dantes, que quem se seguir se cuide, pois nunca nada se desintegrará. E de “grande discurso” em “grande discurso”, um dia a grande líder há-de chorar o momento em que se tornou política, por se rever como enorme responsável pela destruição do Projecto.

A Grã-Bretanha entrará em crise política, numa antevisão que os cegos pela vertente económica, que tudo vêem por esse redutor prisma, nunca irão entender. Tudo afinal, segundo alguns desses arautos da vida dependente apenas das finanças alemães, se manterá, desde que haja dinheiro. E nunca entenderão. Pois, mas o primeiro sinal de que sensatamente ou com loucura em demasia, a economia não explica outras forças e vontades, ansiedades e sonhos de muitos povos. Importante que é, a economia na Grã-Bretanha há-de salvar-se e seguir o seu caminho e, ou me engano muito, a Ilha ainda irá gritar bem alto um sucesso económico que antes não vislumbrava, mas não chega. Outros valores nas vidas dos britânicos verificar-se-ão bem mais fundamentais. Deixarão de fazer parte de algo maior do que eles, no que eles seriam essenciais. Pela grande civilização que orgulhosamente obraram, pela língua maior do Mundo, pela sua atitude inegociável de democratas e tantas outras vertentes. A Europa não seria mais inglesa, mas não será mais alemã, agora. E não será mais rigorosa e eficiente. Será igual, deste ponto de vista, ou muito pior, pelo monolitismo germânico. Um sinal já foi dado: a primeira reunião da Chanceler foi reunir-se com o Presidente mais frouxo e desprovido de visão política de toda a União, apenas por ser do país ao lado, um grande país, ou apenas e cada dia mais, apenas um país grande.

Entretanto, os disparates sobre a emigração e os outros disparates sobre o mesmo assunto, vindos do lado de lá do Canal da Mancha e do lado de cá, no centro da Europa, continuarão a deixar marcas. É impossível pensar-se que é possível um país europeu a admitir tantos emigrantes que possa transfigurar-se socialmente. Como o é, pensar-se que um país envelhecido pode avançar sem emigrantes que fazem parte, boa parte mesmo, da construção física, no mínimo, dele. A razoabilidade abandonou a política, na mesma proporção da desistência da inteligência na vida das decisões ditas de alto nível.

Os episódios agora, pós-Referendo, ou pós-Brexit seguir-se-ão e quase que me meteria a adivinhar que a sensatez não estará presente e a mediocridade irá persistir. Será o forçar o Reino Unido a sair mais cedo do que os previstos dois anos. Serão os britânicos mais populistas a afirmar que tinham razão pelo que os europeus lhes votarão de fel e antipatia. Serão os subsequentes episódios migratórios. E pouca sensatez iremos ver. Durante alguns anos ainda.

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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