Desporto

Brasil 2014 – Até agora foi mais ou menos isto

Capitulo terceiro

Sim, está escrito terceiro. Leu bem. Porquê?! Porque me apetece, ora essa! Mas também porque ando a ver se não me lembro, pelo menos, do capitulo primeiro, onde se narra a história do implacável e impiedoso “exército” alemão que ataca de forma vil, bárbara e descabida, o que de resto foi imediatamente qualificado como uma crueldade sem precedentes, totalmente despropositada, ainda para mais por ter sido levada a efeito sobre uma “turma” de jovens (com pouco de jovens)  portugueses, “engraçados, divertidos, talentos e de bonitos penteados” mas sempre muito… cansados. Não estão lembrados?

Então, deixem-me tentar ajudar-vos. O Mundial começou a 17 de Junho. Não me aborreçam, por favor, porque o Mundial, neste texto, começa quando eu bem entender e, se eu entendo que foi no dia 17 de Junho, é simplesmente porque, no dia 16, não aconteceu absolutamente nada. Ai Jesus, que não foram nem um, nem dois, nem três. Não vou dizer outra vez, já custa o suficiente pensar que “levámos” quatro.

Dizia eu que o Mundial começou a 12/06 (pronto, também é preciso deixar a casmurrice de lado aqui e ali) e com escandaleira, com o Brasil a ganhar daquela forma assim meio… como hei-de dizer isto… batoteira. Depois veio a estreia da Espanha, a campeã, a favorita, os primos que falam alto, com o seu futebol dos livros e da precisão aritmética/geográfica cambaleante, tantas vezes delicioso, tantas vezes entediante e mesmo revoltante. Porém, desta vez apareceram sem alma. Sem nada. Começaram também com batota, mas acabaram com uma mais do que pesada derrota, vergados aos pés dos próprios primos dos países baixinhos, com água por todo o lado. Ai Jesus, que não foram nem um, nem dois, nem três, nem quatro. Foram cinco. Dos espanhóis nos rimos e troçámos e vejam bem como foi que acabámos…

Blá, blá, blá e por ali fora foram os dias caminhando, com uma leveza que roçou mesmo a suspensão, é sempre assim, durante esta competição.

Esperou-se, então, pelo próximo jogo, que demorou 6 dias a chegar. Tempo demais. Tempo suficiente para se poder especular. Sobretudo, foi tempo que deu para que se percebesse o que se estava a passar. Eles lá foram passando pelos dias, cheios de dores, lesões e outras confusões e, o tempo a correr devagar, devagarinho, como a bola que quer entrar, mas não… chega lá… e falta sempre só um bocadinho. O tempo, esse, esse é que não volta mais.

Nem sempre cais. Às vezes só tropeças. Levanta-te!

Mau. Já começas?

Não! Não começo coisa nenhuma. Não estou aqui para dizer mal. Não estou aqui para criticar as opções e as más, as muito más decisões, entre aqueles que escolhidos foram e não jogaram e aqueles que jogaram mas que parece que nunca lá chegaram. Os outros que cá ficaram, esses então… Este é um Mundial que não respeita o português de Portugal.

Já o Brasil não está nada mal. Nem o Brasil, nem a Argentina. Nem Messi, nem Neymar e nós, nós ficamos a ver tudo aquilo passar, uma e outra vez, no sonho que nos comanda a vida, um sonho que se escreve e que se vive sempre em português. Em nenhuma outra língua ela se assume tão fantástica e irreal. Se alguma vez poderia Portugal ser campeão mundial…

O Uruguai não começou nada bem e lá despertou diante da pobre coitada e esforçada Inglaterra, aos pés (curioso que tenha sido vítima da boca) daquele que mais força fez para, a ferros, trabalhando noite e dia depois de uma operação a um menisco, estar presente no Mundial, mas que, como tantas outras vezes tem feito, acabou por deixar (em lágrimas) os amigos a passar mal. Ficam lá Cavani, Forlán e companhia, mas que jeito dava ao Uruguai ter o “animal” prontinho e de boca fechada, é o Eric Cantona do séc. XXI. Foi suspenso e a FIFA nem um esforço fez para retirar peso à bofetada que lhe deu. Luís Suárez já disse muito, já fez pior ainda e agora, depois de tanto trabalho, tanta dedicação e dois golos notáveis, sai do Brasil à dentada. Glória adiada na carreira de um avançado, que continua a ter tudo e na cabeça, aparentemente, quase nada. Pediu desculpa é certo e Chiellini desculpou-o e desejou que a FIFA lhe reduzisse o castigo. Vamos ver o que diz o velhote atormentado.

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Voltemos lá a Portugal.

Depois de começar de forma hedionda, grotesca e de ter perdido de uma assentada 4 jogadores (3 aleijados e um que foi encostar a cabeça onde e em quem não devia), lá chegou o dia do capítulo segundo, desta vez, frente aos Estados Unidos da América. Deixem-me que vos diga (Deixam? Também não têm grande alternativa) que o presidente Obama percebe tanto de futebol e da realidade qualitativa do mesmo como eu de Gamão. Não deixa de ser curioso e até engraçado ouvi-lo dizer: “We still got the chance to win the World Cup”, porque, na verdade, Eles acham mesmo que podem ganhar tudo… já nós…

De novo de regresso ao capítulo segundo. Desta vez, lá conseguiram marcar cedo e a malta toda cá deste lado já a esfregar as mãos e a dizer “eh lá, que isto vai ser bonito! A começar assim vão levar poucos vão, estes atrasados destes americanos. Continuam a achar que sabem jogar à bola.” Contudo, pouco depois, chega o golo do empate e depois eles passam para a frente. Não há de facto compostura que aguente aquela gente.

Em Manaus. Esteve o tão anunciado calor e a estrela maior da noite daquele dia. De resto a sua chegada/presença foi soberba e incrivelmente anunciada. O efeito da sua influência não tem como não ser sentido. A fazer suar até os corpos de quem está quieto e sossegado. Causou inclusive alucinações em italiano e sensações virgens a um jogador português. Moutinho disse que nunca tinha jogado um jogo naquelas condições. A humidade esteve sempre presente e o resto… o resto foi novamente o sofrer em bom português.

Aos 94 minutos estávamos a perder por 2-1 e tínhamos o bilhete comprado e o check-in já feito, faltavam as malas no porão, os cintos apertados, os ouvidos tapados pelos auscultadores personalizados. Um minuto depois, apenas isso, percebe-se que Cristiano está zangado, está farto. O capitão português não esconde o quanto está frustrado e enraivecido. Sente-se sozinho. Pouco depois, recebe a bola de Nani (que marcara o primeiro, cedo) e corre com ela, durante uns metros, e vê, vê que Varela se está a desmarcar no meio dos deles e ordena à bola que vá para junto do seu pé de eleição, o direito, o que faz maravilhas, o que chuta daquela forma que os outros já imitam, o que finta, o que entrega, o que rasga e vai daí deu-lhe dois gritos e disse-lhe que fosse imediatamente ter com a cabeça do Varela. Ela obedeceu e lá foi para onde Ronaldo a mandou (bem mandada que vai, quando ele lhe diz como é), ao chegar lá, Varela espetou-lhe uma cabeçada e mandou-a para dentro da baliza. Nem se apercebeu que acabava de rasgar os 23 bilhetes para Lisboa. Mais os outros TODOS, daqueles que se alapam em redor destes que correm e se aleijam em grande (demasiado) número.

Ora, deste lado, lá vamos nós à gaveta para ir recuperar a velhinha aritmética nacional e lá começamos a esboçar todas as contas possíveis e imaginárias, enquanto lhes chamamos tudo. Paulo Bento, então, leva de pau em pipa, mas levam todos. Médicos. Fisioterapeutas. Treinadores. Adjuntos. Dirigentes. Jogadores. Tudo. Quem sofre é sempre quem cá fica. Depois, é claro, não esquecer que no meio de tudo isto, nos entretantos, lá ficam mais uns quantos, para somar ao grupo dos aleijados, dos afastados. Enfim, era agora preciso massacrar o Gana e esperar que a Alemanha não massacrasse os EUA (os alemães sabem bem que só são o que são nos dias que correm graças aos americanos e como tal até arranjaram maneira de lá pôr um alemão na selecção. Chamem-lhes burros, eu não).

Lá chegou o jogo com um Gana que aparecia em campo, depois de ter ameaçado não o fazer se não recebessem os prémios de participação em notas. Assim foi. No Brasil, viu-se algo impensável: Carros carregados de dinheiro, escoltados pela polícia, a caminho do centro de estágios da equipa ganesa. Assim há jogo – disseram. Não sem antes ter havido pancadaria, que terminou com a expulsão do estágio de Muntari e Kevin-Prince Boateng. E olhem, lá entrámos a ganhar outra vez, com um golo marcado por eles. E nós aqui a pensar, a acreditar, mas lá eles começam a tremer e tanto tremem, que o Gana empata… e a Alemanha marca. Agora, não pode ser, é impossível, faltam 4. Falta Ronaldo. Farta-se Ronaldo. Farta-se de falhar. Primeiro na trave. Uhhhhhhhhh, quase! Depois é de cabeça, daqueles que entram sempre, sempre, tanta baliza, acerta onde? No que a guarda. Parece impossível. Fica incrédulo. Desiste. Alheia-se. Isola-se. Está de rastos. Nem a 100%, nem a 80%, nem perto dos 60%. Não está lá. Não consegue e isso corrói-lhe a alma e deixa-o perante sensações que só experimenta na selecção nacional. Aquela continua a ser a única camisola com que, desde que se tornou quem é, não consegue ganhar coisa alguma, a não ser dinheiro, prestígio, internacionalizações e golos e isso mexe-lhe com o sistema nervoso. Tenho a certeza. Está habituado ao topo da montanha, onde o ar é mais raro, mais puro, mais fino. Está habituado a festejar, a ter taças na mão, medalhas, prémios, distinções e outras condecorações e Portugal teima em não o ajudar. Ele que já fez tanto pela bandeira e pelo futebol deste país.

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Disse o que sentia na altura em que não devia e isso não deve ter caído muito bem. Se bem que na verdade é sempre a verdade aquela que mais dói. A verdade é que ele volta a chegar a um Mundial, desta vez como o melhor do mundo, e volta a sair antes do tempo. Sai com apenas um golo marcado, ao Gana, a quem podia ter espetado três, ou quatro. Messi e Neymar levam (à data deste artigo) isso mesmo no saco (4). Isto, meus senhores e minhas senhoras, isto, para ele, conta. Sabemos que conta e muito.

Viemos embora. Foi como foi e só assim poderia ter sido. Embora vieram também a Inglaterra, a Espanha (campeã em título) e a Itália (tetra campeã mundial, eliminada na fase de grupos pela 2ª vez consecutiva). Serve-nos de consolação? Claro que não. Somos portugueses.

Aos oitavos chegaram os de sempre.

O Brasil teima em não entusiasmar. Não tem muito futebol mas tem Neymar e terá outras coisas se disso precisar. A Argentina tem tanto jogador, tanto jogador, mas tanto jogador que depois se dá ao luxo de ter aquele “infeliz” como seleccionador (Sabella que dela percebe pouco). Não tem muito futebol, mas tem Messi, e isso é mais do que têm os outros todos. Está nos “quartos” mas falta futebol.

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A Alemanha, sim, joga à bola. Como joga quase sempre. Perfeita. Ou quase. A Argélia deu-lhe mais trabalho do que seria suposto. É certo que é uma selecção que se renova ciclicamente mas, este Joachim Löw parece acrescentar uma pitada de… parvoíce a esta selecção.

É o futebol mais forte na Europa e da Europa. Tem isto tudo e tem, outra vez, Müller. Ah, já me esquecia que continua a ter Klose, a lenda. E tem Özil e Kroos e Götze. Credo.

A Holanda está fortíssima. Tem futebol para dar e vender. Para encantar o estádio até o encher. Tem ritmo. Tem brilhantismo. E depois tem Van Persie e Robben e joga que se farta.

Depois vem a magia envolvente da Colômbia. Sem Falcao. Sem Falcao. Sem Falcao. Ora, sem o Tigre, apareceu aquele que tinha de aparecer, que está destinado a ser grande, a ser dos maiores e dos melhores. James Rodríguez está a fazer um Mundial de sonho, o Bandido. De sonho foi também a estreia a titular de Jackson Martínez, com dois golos de pé esquerdo. Futebol puro. Alegria e amizade que transborda no que fazem estes meninos com a bola nos pés. Quintero e Guárin também lá andam.

O Uruguai sem Suárez não faz ninguém gritar. Tem Cavani. Tem futebol. Tem equipa. Tem espírito, mas não teve forma de segurar o endiabrado James Rodríguez que explodiu para meio mundo ver neste Brasil 2014. A França parece ser… não sei bem o quê. Depois de 1998, espera-se sempre muito da França, mas depois… não acontece nada, ou o que acontece é horrível como o foi todo o Mundial de 2010.

Havia ainda a espantosa e contagiante equipa do Chile, que se vestiu e pintou para a guerra em dia de jogo e que, sobretudo, tinha o mais simples, jogava que dava gosto ver. Caiu aos pés de quem joga em casa. Nos penáltis. Venceu o outrora Imperador (Adriano deixou de merecer essa alcunha) Júlio César.

A Costa Rica surpreendeu o mundo e já está nos “quartos” depois de mandar para casa a Grécia, uma gracinha que os portugueses nunca se esquecem de agradecer. Fernando Santos que me desculpe.

A Argélia essa (com Slimani – Sporting, Halliche – Académica e Ghilas – FC Porto) fez história e da grande. Obrigou a “senhora dona” Alemanha a ir prolongamento, imagine-se o atrevimento. A prolongamento. E só aí sucumbiram aos pés de Schurrle e Özil, sem se deixarem intimidar ainda conseguiram marcar. Foram recebidos como heróis em Argel. Pois pudera. Naquela terra o futebol ainda faz sorrir porque a vida, essa, tem outra cor.

A Bélgica joga devagar e só acelera no contra-ataque venenoso que castiga o adversário, mas tem muita, mas mesmo muita qualidade… técnica, que táctica não é coisa que Marc Wilmots domine. Contra os Estados Unidos houve uma avalanche de raides mal intencionados que só foi travada por um herói de… 36 anos. Tim Howard fez o jogo da vida e fez também 16 defesas!! só não conseguiu fazer da Bélgica um pedacinho de chocolate porque De Bruyne não estava para aí virado.

É assim. É este o espectáculo bipolar que faz contrastar a alegria de milhões com a tristeza de outros tantos, paspalhões que, como eu, como muitos de nós, não conseguem deixar de dizer cobras e lagartos, não conseguem deixar de estar fartos, mas que, ainda assim, de 2 em 2, ou de 4 em 4 anos, não deixam de colar os olhos no ecrã, de sentir arrepios na espinal medula, quando o hino ecoa lá longe, nas paragens que lhes calham. Não deixam de acreditar que um dia vamos ser nós, os portugueses, a chorar de alegria, a receber a equipa e a taça dourada dos homens que carregam o peso do mundo nos ombros, tudo isto nas ruas de Lisboa, um dia…

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É tudo isto e, para tantos, não é nada parecido com isto. Não gostam. Não se interessam. Não querem saber. Não faz mal. É futebol. O resto… deixe lá que também ninguém leva a mal.

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Martim Mariano

Leitor convulsivo e escritor compulsivo. Propenso às fúrias do pensamento e às interpretações do sentimento. Atento por opção.

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