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Bons velhos tempos, o tanas!

As fotografias a preto e branco têm um feitiço, sublinham sentimentos, ou avivam-nos. A cor não deixa, mesmo que um tom falso denuncie época. Por assumido narcisismo, antes de nascer o mundo e a vida era a preto e branco.Essa magia enfeitiça muita gente, talvez toda. Oiço mais vezes louvar a arte numa impressão a preto e branco do que num exemplar colorido. Com esta ressalva mergulho – mergulho-nos – numa época onde a vida cristalizava nessa banda de cinzentos.

Nem sei se sou velho e novo não sou. Começo a sofrer da doença dos braços compridos… para conseguir ler. Tenho 45 anos e aos 10, ou 11 já brincava com computador – sou novo? Nessa altura, na década de 80, ainda havia tabernas – sou velho?Ao longe, as tabernas têm um charme, uma nostalgia, qualquer coisa de vagamente qualquer coisa. A verdade é tudo menos bonita. As tabernas eram horrorosas e tudo o que de pior há no vinho ali se guardava.

A vida dura, duríssima felizmente pretérita alimentava e alimentava-se a vinho – noutros países com outros álcoois. Desde as célebres sopas de cavalo cansado – vinho onde se embebia pão, como se fosse caldo – resistentes até, pelo menos, ao final da década de 70 e às portas de Lisboa, às litradas ingeridas por trabalhadores braçais, camponeses, ou operários, ou mesmo agentes da autoridade.

Não querendo entrar pela política e assinalar as décadas de atraso provinciano do regime da ditadura – a Segunda República que alguns dizem não ter existido – medrosa que a industrialização e consequente aumento de trabalhadores operários pudesse alimentar forças de ordem contrária, comunistas – para ser rigoroso.Não me compete, nem este é o lugar, para analisar história contemporânea. Fico pelos factos que importam. Portugal foi até muito tarde um país rural e um país pobre. Quando se diz pobreza, não se pronuncia o mesmo significado de hoje.

Até à década de 40 – talvez 50, ou até 60 – muitos viviam descalços, nomeadamente crianças. Infâncias duras de trabalho, de abandono prematuro da escola, ou de grandes caminhadas para aprender a ler e a escrever. Quilómetros feitos descalços, ao frio, à chuva ao calor abrasador.

Essa pobreza apenas soube muito tarde, conversando com camaradas de profissão – no jornalismo não há colegas, tal como na tropa. Em casa, ouvira falar no racionamento alimentar, durante o período da Segunda Grande Guerra, nada mais. Crescido, disseram-me que, até bem mais tarde, uma sardinha era comida por dois e um frango repartido por sete. O homem, o chefe da família, comia primeiro, era o principal angariador de rendimento.

É verdade que nesses tempos havia trabalho, mas faltava muito mais. O vinho, na província ou na cidade, alimentava, aquecia, refrescava, lembrava e ajudava a esquecer. O regime do Estado Novo está fixado no cumprimento do objectivo da auto-suficiência alimentar.

JB_bonsvelhostemposotanas_4As várias campanhas do trigo permitiram abastecimento de cereais, embora fossem economicamente estúpidas. Lavraram-se terrenos inclinados, ou impróprios para essa finalidade. Abateram-se florestas, nomeadamente montados – tenhamos em conta que a receita florestal representa hoje cerca de 3% do Produto Interno Bruto. Seria preferível exportar madeira e cortiça do que lavrar searas. É passado.

Por razões muito antigas – literalmente dos tempos dos Afonsinhos – o Norte foi sempre mais populoso do que o Sul. Razões variadas e adiante. Por isso, se constituiu a Junta de Colonização Interna, cujo objectivo era o de aproveitar áreas improdutivas, ao mesmo tempo que se aliviava a carestia inerente da sobrepopulação doutras regiões.

Em Pegões, no Concelho do Montijo – um aparte, é uma circunscrição não contínua, separada pelo Concelho de Palmela – fixou o Governo uma colónia. Construíram-se uma cooperativa para venda das sobras da agricultura, uma igreja para alimentar a fé, uma escola para ensinar letras e números e uma aldeia. A cada aldeão se entregaram quatro hectares: um para horta, outro para olival, outro para cereais e um para vinha. Hoje resta esse povoado e a Adega Cooperativa de Santo Isidro de Pegões, que produz abundantemente e com qualidade garantida e preço acessível – o enólogo Jaime Quendera é o responsável pelo resultado final e merece ser referido.

O vinho não era vício e o vício era coisa corriqueira. “Todos” bebiam vinho e desses “quase todos” abundantemente para os padrões actuais. Seria uma época dourada para o vinho? Não. De todo!O objectivo era produzir muito, para alimentar de calorias os corpos do povo paupérrimo. Não apenas no campo. O meu pai, hoje com 90 anos, conta que, quando o seu avô paterno, que foi dos primeiros a possuir automóvel em Lisboa, o levava, mais aos irmãos, a passear de popó, as crianças, de Belém, ou do Estoril, corriam atrás, em festa alegre. Não podiam andar de carro, mas gozavam por poderem perseguir um.

Do obscurantismo pobre de séculos nasceu uma triste anedota:

Mãe, pão com queijo é tão bom?

Comeste?

Não, mas vi comer.

Para não ir para longe de Lisboa e continuar em Pegões. Não havia onde deixar as crianças em idade pré-escolar. Os camponeses, os autóctones, não enquadrados no programa de colonização, iam amanhar a terra. Para que as crianças não fugissem, cavavam um buraco e erguiam uma sombra, onde as deixavam segurando uma fralda embebida em bagaço e mel, que o açúcar era para os ricos.

O vício tolerado, porque comum, não significava que não houvesse críticas, nomeadamente em casa. Os homens bebiam o bagaço e comiam um figo antes do trabalho e depois da jorna emborcavam até quererem. Em casa, podia estar uma mulher cansada do trabalho braçal, do cuidado dos filhos e da casa. Censuravam-nos, não há dúvida. Gastavam em vinho parte da economia do lar. Egoísmo? Sim, mas, sobretudo, miséria.

Alguém anónimo e sábio descobriu as virtudes da folha de loureiro para disfarçar o hálito vínico. Tem o seu quê de ingénuo, pois o corpo, a sua postura e a fala desmentiriam o que se escondera. As tabernas tinham à porta ramos de loureiro, para que se mascassem antes dos clientes irem para casa. O cancioneiro popular conta esse facto, nomeadamente na “Procissão de Santa Bebiana”. Deixo a parte que importa, mas, no final, ficam os versos todos:

À porta do Santo António

Está um ramo de loureiro

É uma pouca-vergonha

Fazer do Santo tasqueiro.

Voltando às tabernas… as tabernas tinham um cheiro característico, uma mistura de madeira velha molhada (de vinho), sarro, fritos e serradura. As aparas de madeira serviam para absorver os vomitados e facilitarem a “limpeza”. Muitas tabernas eram também carvoarias, pelo que se acrescenta o odor “metálico”, sujo, e a poeira.

Dizia-me um sábio que há quatro tipos de bêbados: o macaco, que faz parvoíces e causa riso, o porco, que se vomita, a galinha, que canta cacarejando, e o leão, que quer bater em todos. Este zoo vivia nas tabernas.

Não fui cliente de tabernas, aliás odiava aquela tristeza de misérias. Fazia, por vezes, escala para beber um café manhoso, numa na fronteira triangular entre a Graça, Alfama e Mouraria. Aí vi voar uma cadeira. Não era um óvni, era uma cadeira.

O hálito da taberna, de vinho, fritos e imundice espalhava-se na rua. Evitava passar por elas. Uma vez, numa aldeia, fui com uns amigos comprar umas águas onde se vendiam. A taberna era o comércio do sítio. Por nada, por nada, começou um desatino comigo e os amigos. Os leões rosnaram e queriam saltar para nos comer. O taberneiro, sabedor do feitio dos animais, aviou-nos depressa e com gestos rápidos mandou-nos desandar. Foi por pouco que umas seis feras avinhadas não esfrangalharam três, ou quatro adolescentes citadinos.

Os taberneiros viviam da venda de vinho, muitos também comida. Petingas, jaquinzinhos de escabeche, pescadinhas-de-rabo-na-boca, ovos-verdes e muito mais. O bacalhau era barato e nas tabernas podia-se comer sem ser cozinhados, lascas de sal e peixe.

Os galegos foram, durante séculos, mão-de-obra para as tarefas duras, suplemento à escassez de portugueses. Os galegos fizeram patamares nas montanhas do Douro, carregavam mercadorias pesadas e, com o que amealhavam, estabeleciam-se como taberneiros.Com as tabernas e carvoarias aforravam, por nada gastarem. O Bairro Alto, em Lisboa, tinha muitas tabernas e tantas, talvez a maioria, de galegos. Com a renda dos bêbados compraram prédios, tornaram-se senhorios. Atenção, isto não foi exclusivo de galegos, mas marcou a comunidade.

Conta-se que eram supimpas as bifanas das tascas galegas, que ficavam em lume brando por tempo indefinido, até serem chamadas para matar a fome a um cliente. As frigideiras não se lavavam, acumulavam um sarro que temperava a comida.

De quando em vez, o galego, ou o português rural que viera para a cidade, viajava até à “terra”. O tasco não fechava, um empregado de confiança tomava conta do negócio. Confiança, confiança… mas quem vem de baixo e a vida lhe foi dura nunca se tranquiliza. Era, então, que se lavavam e areavam as frigideiras, tachos e panelas. Para que o “homem de confiança” não fosse roubar os segredos do ofício.

Os taberneiros trabalhavam muito. Desde cedo para servirem vinho do pequeno-almoço até altas horas para alimentar barrinhas de fome e sede alcoólica. As bifanas e os coiratos – e mais – estavam prontos e um caldinho fazia-se num instante.De que era feito esse caldo, de que há registos de iguaria. Não se sabe bem… era um repositório de gorduras várias, acumuladas algures, que não estavam nas sertãs da carne. Uma bola de sebo pendurada ao tecto, onde moscas pousavam e punham ovos, onde baratas e carochas passeavam e se alimentavam…

Vai um caldinho para aquecer a noite fria, depois dum dia laborioso. Despejava-se a água fervente – coisa permanente, tal como as bifanas – numa malga e levantava-se para mergulhar (em posição invertida), umas quantas vezes, a bola de sebo.

Nada tem só defeitos, ou só virtudes – exceptuando o Diabo e Deus, respectivamente. Um dos petiscos para puxar a pinga é o agora (talvez)“gourmet” (expressão horrorosa e que a banalização esvaziou de significado), das cascas de batata. Coisa simples e boa. Descascam-se com alguma “carne” agarrada e fritam-se. A casca da batata é saborosa, tal como as batatas fritas. Juntem-se as duas e obtém-se uma soma de valor acima da simples adição: 1+1=6.

JB_bonsvelhostemposotanas_7Um homem – um dos grandes homens do vinho em Portugal – pensou que se podia beber vinho em locais agradáveis e, sobretudo, asseados. Abel Pereira da Fonseca, um dos magnatas do sector do início do século XX, criou uma rede de tabernas “finas”.As tabernas Val do Rio(sem E) tinham um aspecto cuidado, moderno, muito limpas, empregados civilizados. O escriturário da Baixa podia tomar o seu copo sem se “sujar” na taberna. Um deles é célebre.Fernando Pessoa, pessoa reservada a quem os colegas não conheciam amigos, à tarde punha o chapéu e saía, dizendo:

Vou ter com o meu amigo Abel.

O amigo Abel era o Val do Rio. Todas as tardes fazia a pausa e saciava-se. Um dia foi fotografado bebendo. Assinou, ou deu-lhe nome, a fotografia:

Apanhado em flagrante delitro.

A fotografia original – julgo – está na posse dos descendentes de Abel Pereira da Fonseca. Já que se fala neste homem há que contar que se fartou da vida urbana e foi viver para a Quinta do Sanguinhal, no Bombarral. Lamentavelmente, para ele e descendentes, não acautelou a posse da designação comercial com o seu nome.

Abel Pereira da Fonseca abastecia-se na margem Sul do Tejo. No Poço do Bispo, mandou construir o armazém central. Nas traseiras aportavam as fragatas, pequenos veleiros de carga, carregados de vinho. A cidade comeu essa parte de muralha de trabalho e em seu lugar está hoje uma avenida larga e infra-estruturas portuária.A parte da frente dava – dá, porque ainda existe – para um largo simpático e pouco lisboeta. Hoje, essa parte da Freguesia de Marvila, está totalmente integrada na cidade, mas, na época, era um subúrbio industrial, onde a mais célebre oficina era a Fábrica de Braço de Prata, pertença do Exército, que produzia munições de artilharia.

JB_bonsvelhostemposotanas_1O Poço do Bispo não está em nenhuma rota turística. Sugiro a visita a alguém que venha com regularidade a Lisboa e seja batido nos monumentos célebres e queira saber além delas e também a alfacinhas.Os armazéns da firma Abel Pereira da Fonseca merecem ser vistos – aliás, a fachada. O edifício tem o traço do arquitecto Manuel Norte Júnior, vencedor de prémios Valmor. A sua escolha para criar um armazém e uma fachada atesta a importância da firma e o que queria transmitir.De resto, a Praça David Leandro da Silva é agradável e nela se situa a sede de um clube histórico da capital – o proletário Clube Oriental de Lisboa, que jogou oito anos na Primeira Divisão.

JB_bonsvelhostemposotanas_2Seja lugar-comum, mas é incontornável. Os copos de três – copdtrês, na fala rápida que caracteriza os lisboetas. O copo de três decilitros, a medida mítica servida nas tabernas. Copos sempre cheios até acima, bordejando o topo, levados com perícia à boca. Cheios e, assim, com saber ou acaso, se ocultavam cheiros desagradáveis que pudesse ter a bebida.

Os copdtrês tinham algumas variantes de feitio, mas todos facilmente identificáveis. São praticamente impossíveis de encontrar. Há quem tente de tudo, mexendo cordelinhos, chamando o “senhor Cunha” para conseguir exemplares. Diz pagar bem e a pronto, mas não há quem venda.

Esqueço propositadamente o fado, as prostitutas, os poetas, os meninos-bem arruinando-se em perdição, os fidalgos boémios apaixonados por mulheres-da-vida e até Reis. Em contrapartida, deixo os versos da música “Procissão de Santa Bebiana”. Os Trovante cantaram-na, talvez exista registo no Youtube – não me apeteceu procurar.

Procissão de Santa Bebiana

Já comi e já bebi
Já molhei minha garganta
Eu sou como o rouxinol
Quando bebe logo canta

Rapazes quando eu morrer
Levai-me devagarinho
Na campa deitai-me água
Por cima deitai-me vinho

Um e um são dois –quem tem vacas espera bois
Dois e um são três – ainda cá volto outra vez

À porta do Santo António
Está um ramo de loureiro
É uma pouca-vergonha
Fazer do santo tasqueiro

Hei-de morrer numa adega
Um tonel ser meu caixão
Hei-de levar de mortalha
Um copo cheio na mão

Dois e dois são quatro – bela carne tem o pato
Três e dois são cinco – vai do branco se não há tinto

O vinho é coisa boa
Nascido da cepa torta
A uns faz perder o tino
Outros faz perder a porta

Se um dia perder a porta
Seja com tal desatino
Que vá dar a um lugar
Onde se venda bom vinho

Três e três são seis – posto Natal vêm os Reis

Quatro e três são sete – quem não pode não promete

O vinho mata tristezas
A água cria lombrigas
Quando vejo vinho puro
Peço a Deus sete barrigas

Minha avó quando morreu
Levou palma e capela
Deixou-me as chaves da adega
O vinho bebeu-a ela

Quatro e quatro são oito – não há bolo como o biscoito
Quatro e cinco são nove – canta o rico chora o pobre
Cinco e cinco são dez – descansam as mãos trabalham os pés.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa. Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais. Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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