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Big Love, o Amor vezes Três

“Declaro-vos Marido e Mulher” é uma frase de sonho para qualquer casal apaixonado, que deseje viver em conjunto para o resto da sua vida. Então e se esta frase fosse repetida mais duas vezes? Tenho a certeza de que muitos homens, se fossem completamente sinceros com as suas companheiras, já tiveram a fantasia de ter mais do que uma esposa, ou, pelo menos, de ter múltiplas amantes. Porém, as fantasias continuam a ser fantasias, enquanto não se tornarem em actos realizados abertamente perante a sociedade. A realidade substitui a fantasia, quando o homem com o seu harém se apercebe do difícil que é conseguir dar resposta às despesas que três mulheres podem fazer, incluindo as que os filhos possam exigir. Para além disso, existem as quezílias de ciúmes entre as várias esposas, já que as mulheres gostam tanto de partilhar o seu homem, tanto como os homens gosta de partilhar a sua mulher… e o carro. Vamos ser sinceros: a sociedade não vai ser nada simpática para nenhuma família que vá contra a corrente moralista que a sustenta, independentemente de ser uma acção correcta, ou não.

É neste contexto que, em 2006, pela mão do canal por cabo norte-americano HBO, surgiu a série Big Love, que ofereceu uma janela aberta para uma subcultura muito pouco explorada na televisão, com a excepção, claro está, para as reportagens que são feitas a centros religiosos, ou de fanatismos culturais que permitem as famílias poligâmicas. No centro desta série está Bill, um homem de negócios moderadamente bem-sucedido, com um QI acima da média e comprometido com os seus valores e com a sua família – uma família que é constituída pelas suas mulheres Barb, Nicki e Margene, para além dos seus sete filhos. O homem central deste enredo é uma personagem comunicativa, confiante e que coloca a sua família sempre em primeiro plano, enquanto tenta lutar contra os demónios do seu passado, que normalmente tomam a forma de Roman Grant, o líder da United Effort Brotherhood (UEB), um complexo de fundamentalistas Mormons, onde Bill foi criado. Roman é uma personagem sombria, que recorre à sua posição de auto-intitulado profeta e à sua riqueza para influenciar todos aqueles que moram no complexo fundamentalista e que pretende ter sempre Bill sobre a sua esfera de influência. Este conflito é central para esta série, adicionando-lhe um elemento de suspense para algo que é, na sua essência, um drama familiar nada tradicional.

Por detrás do tema da poligamia, Big Love é, sobretudo, uma série sobre a família, já que grande parte das linhas narrativas são desenvolvidas à volta das três casas da família Henrickson, que estão construídas umas ao lado das outras em Salt lake City, partilhando um jardim, que as une. A dinâmica entre estas personagens é fascinante. Por um lado, o modo como Bill se multiplica para poder dar resposta às necessidades das suas três mulheres e como o seu ego, por vezes, faz estragos nas suas relações matrimoniais. Por outro, a forma como as mulheres se vislumbram como concorrentes num concurso em que o prémio é a atenção e o afecto de Bill e, simultaneamente, constroem uma relação de amizade e de irmandade (afinal de contas, elas também estão casadas umas com as outras e não só com Bill). Barb é a matriarca do clã, gerindo as várias casas como se de um regimento se tratasse e recorrendo à sua posição de “Eva Original” e de única mulher a estar casada legalmente com Bill para ser a mediadora das quezilas que vão surgindo. Nicki, a filha de Roman Grant, que cresceu no complexo da UEB, é a segunda mulher de Bill que está constantemente a desafiar Barb, referindo-se a ela como a “Boss Lady”, e a implicar com Margene, através da sua atitude mais ácida para com os que estão à sua volta. Margene, a terceira e mais jovem esposa, está sempre a tentar descobrir o seu lugar nesta família tão cheia, enquanto tenta criar os seus dois filhos Aaron e Lester.

Quem assiste à série sente-se a gravitar naturalmente para Barb, que, originalmente, era a única mulher na vida de Bill, tendo com ele um casamento monogâmico, que incluía Sarah, Ben e Tancy, os filhos de ambos. Foi só, após ter sido diagnosticada com cancro nos ovários, que os dois acabaram por recorrer à fé original de Bill e decidiram casar com Nicki. Aos olhos da audiência, Barb é a verdadeira esposa, a mártir que fez imensos sacrifícios para que o seu marido tivesse mais mulheres e, consequentemente, mais filhos. Tripplehorn desempenha de forma magnífica o papel da esposa primogénita, a vestir confortavelmente os sinais de envelhecimento que esta situação lhe causou e a roubar, com facilidade, todas as cenas em que entra, em especial nos confrontos com Nicki. Contudo, à medida que a série foi evoluindo, a santidade de Barb começou a demonstrar as suas fraquezas e falhas, apesar de manter a sua natureza simpática, enquanto que Nicki, mesmo mantendo a sua personalidade peculiar, demonstra ter mais camadas na sua personalidade, do que inicialmente demonstrou ter, tornando-a mais tolerável aos nossos olhos.

Apesar de todas as curvas dramáticas que esta série teve ao longo de cinco temporadas, na sua base esteve sempre as relações pessoais entre os personagens principais, especialmente a interacção intensa e nada fácil entre homens e mulheres, numa sociedade que considera o sexo masculino o dominante. Tal como outras séries da HBO, esta colocou um novo olhar sobre conflitos tão familiares ao ser humano, de um modo que nos leva a questionar a nossa própria essência. Tal como sempre defendi no que toca às relações entre as pessoas – o que se passa numa relação só diz respeito a quem está nela, mas ao mesmo tempo influencia e é influenciada por todos os que se encontram à sua volta. A relação entre Bill, Barb, Nicki e Margene é uma representação metafórica deste pensamento, mas, ao mesmo tempo, consegue ser apenas uma relação única e singular. Big Love recriou os elementos que fazem parte de uma relação monogâmica, dividi-os em pequenas características identitárias e distribui-as pelas suas quatro maiores personagens. A cena final da série, em que Margene, decidida a seguir o seu sonho de fazer voluntariado pelo mundo, vai em direcção à porta para se ir embora e se vira para dar um último abraço às mulheres da sua vida, enquanto que o espírito de Bill observa sentado na mesa este momento (numa presença que sempre foi constante em todo os momentos da vida destas mulheres), é a cereja em cima do bolo de uma série tão marcante e única como esta.

Big Love conseguiu revigorar uma premissa gasta, como é o das séries familiares, com a dose certa de suspense, emoção, humor e um pathos incomparável. Ganhou a atenção do público por causa do tabu da sua premissa, mas depressa começou a desenvolver-se em torno dela, para demonstrar que estas pessoas não têm nenhum problema e que são apenas isso… Pessoas. É isto o que faz com que nos liguemos tão facilmente a estas personagens, enquanto que nos lembramos constantemente da realidade especial em que todas elas vivem. O que a HBO fez com esta família composta de três esposas e um marido foi criar uma história que retratou de forma exímia o significado de família.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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