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Beleza escondida

Cabelo dourado, feições alegres, olhar claro. Espalhava beleza por onde passava. No entanto a sua vivência era toldada por uma personalidade enclausurada em si própria. Timidez. E tamanha e pérfida era que lhe conspurcava os sonhos sentidos e o que as ambições deviam ser.

Lançava-se em longos banhos de água morna usando exfoliantes em forma de sabão perfumado. Esfregava-se retirando finas camadas introvertidas de pele. Secava-se e olhava-se ao espelho. Ele mentia e ela não percebia que por detrás do seu negativismo, escondia-se a enorme beleza com que fora criada.

Na rua escondia-se de olhares ao invés de se deixar sentir conquistada pelo sol a projectar a sua cúpula de luz dourada na sua pele macia que queimava, tentando incinerar as fraquezas pelas quais se escondia. Aqui e ali o sol triunfava, altivo na sua teimosia. Na luta entre sol e ela, os despojos eram a beleza que os deuses reconheciam como sua, entregue àquele ser para testemunhar na terra o trabalho que incentivavam. Agora viam-se contrariados. Livre arbítrio do ser humano, logo naquela pessoa. Tanta beleza a ser escamoteada, os deuses fintados.

Sendo aqueles deuses incapazes de ignorar o desuso de toda aquela beleza, um dia fizeram-na pontapear uma pedra na rua. Pequena para não a magoar mas de tamanho suficiente para que se sentisse. Pontapeou-a e rolou ruidosamente na sua frente ecoando ritmo compassado e regular que se fixou na memória dela. Mais tarde, já em casa, os deuses fizeram um rouxinol pousar no parapeito de uma janela que haviam deixado aberta. Logo o rouxinol iniciou-se num cantarolar viciante de bela e fácil harmonia. Depressa a rapariga a absorveu e sem se aperceber já a assobiava até se sentir vibrante e surpreendentemente vigorosa. Ficou a ouvir a melodia que ela própria produzia e lançou-se para distantes memórias esquecidas.

Deu um salto brusco do sofá e apressou-se. Abriu um velho armário e quase se perdeu no fundo procurando a sua adorada guitarra adormecida pela inércia da vontade da uma rapariga que agora a segurava. Num sopro levantou o pó das cordas. Um dedo na madeira e o som do interior como que fazendo ressuscitar um objecto. A guitarra chorou no abandono, agora lacrimejava ao acordar. Voltou à sala tendo-se num acaso prostrado em frente ao espelho. Viu-se alegre, a sorrir maior realidade.

Em pouco tempo passado, foram os deuses encontrá-la num bar. Estava sentada num banco alto com a guitarra ao colo e o cabelo dourado a esconder o rosto mas não o sorriso. Ela tocou. Cantou. Encantou. O público aplaudiu e sorriu. Os deuses foram também público. Igualmente sorriram. Acertaram no dom que entregaram àquela rapariga. Como seria de esperar, ela sem se aperceber usou-o para vencer a sua timidez e assim permitir que a sua beleza não mais ficasse escondida aos olhares do mundo. O mundo esse, ficou também mais belo.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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