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Batman V Superman: O Despertar da Justiça

Batman V Superman: O Despertar da Justiça é um confronto com muitos estragos e que ninguém quererá (ou deverá) ver…

Quando surgiram rumores anunciando que o próximo capítulo de Homem de Aço (Man of Steel, 2013) poderia abrir portas para a Liga da Justiça, a reunião mais aguardada de sempre pelos fãs da DC Comics, tudo parecia ser apenas uma decisão de marketing, no sentido de rivalizar com a Marvel com terreno muito bem assente nas receitas de bilheteira e, de uma forma ou outra, nas críticas especializadas. Depois, quando descobrimos que Batman se iria juntar e que não seria interpretado por Christian Bale mas sim por Ben Affleck, uma chuva de comentários pejorativos surgiram contra o ator, afinal era muito cedo para trazer a personagem de volta ao grande ecrã e ainda mais pela pele do ator de Gigli. E tínhamos toda a razão…

Batman V Superman

É preciso esclarecer que qualquer indivíduo que se assume cinéfilo nos dias que correm deverá ter, no seu vasto repertório, pelo menos um filme de super-heróis, nem que seja para compreender como funcionam as produtoras de Hollywood. De facto, quem não o faz tende a atribuir um comentário negativo à generalidade, sobretudo porque olha de lado para aquele objeto fílmico cuja característica máxima são os seus exuberantes e desnecessários efeitos visuais. Não sendo isso que acontece em tantos casos, lamentamos, que tal aconteça ao ver Batman V Superman: O Despertar da Justiça.

No cinema, como bem o sabemos, Batman já teve outra oportunidades para brilhar (de não esquecer as aventuras realizadas por Tim Burton), nomeadamente aquela que é provavelmente a melhor trilogia de super-heróis, Batman Begins, The Dark Knight e The Dark Knight Rises, do génio Christopher Nolan. Nesta, toda a complexidade dramática e mais humana das personagens é estudada, longe do efeito de entretenimento que os filmes da Marvel têm (e para breve está marcada a estreia de Capitão América: Guerra Civil). Nesse projeto, Christian Bale reunia-se com estrelas muito interessantes entre as quais Liam Neeson, Katie Holmes, Cillian Murphy, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhaal, Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman, entre outros. A vantagem é que estes nomes apareciam em filmes diferentes e não todos ao mesmo tempo, sendo exatamente a excessividade de atores o principal problema de Batman V Superman: O Despertar da Justiça (para não falarmos do seu título, é claro).

Batman V Superman

Temos Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot. À partida parecem poucos, contudo são todos nomes de peso, entre alguns existem nomeados ou vencedores de Óscares, que só nos fazem ficar desapontados porque não têm qualquer tempo para brilhar. Em primeiro lugar, o desempenho de Ben Affleck deixa-nos sem saber o que dizer, não é a escolha perfeita, mas percebemos o esforço que o ator faz, nem que seja nas suas exaustivas idas ao ginásio para ter um corpo bastante musculoso, capaz de enfrentar o Super Homem, pior ainda é que Affleck entra num mundo que já não é o dele. Quando interpretou o Demolidor (num filme muito mau) teria sido preferível se não tivesse aderido a mais nenhuma moda de super-heróis e continuasse o seu percurso atrás das câmaras. Aliás, que fique claro, Ben Affleck é muito melhor realizador do que ator (excepção de Em Parte Incerta, dirigido por David Fincher) e só consegue ser bom ator quando é realizador (exemplo de A Cidade e de Argo). Se Ben Affleck realizasse este Batman certamente o resultado seria outro. Em segundo lugar, Henry Cavill. A escolha de Cavill é aposta certeira, o ator tem o carisma de Christopher Reeve e o de Brandon Routh (para os mais esquecidos Superman Returns foi o melhor filme do Super Homem alguma vez feito), mas peca por querer manter o estatuto de Deus na Terra, por ser mais que os outros em vez de ser mais terrestre, no mundo que ironicamente é o dele, pois foi onde cresceu. Tudo orienta-se nessa direção, desde logo a estátua em Metrópolis a mistificá-lo herói que é. Ora, nesse jogo de “God versus Man” – que o irritante Lex Luthor Junior de Jesse Eisenberg tanto afirma – , que Batman V Superman constrói a sua tão pobre intriga.

Batman V Superman
Doomsday é o vilão criado por CGI

Há uma falta de fio narrativo próprio, marcada pelas interrupções constantes onde valem as sequências mais ou menos oníricas, mais ou menos surreais ao estilo de Sucker Punch ou de Watchmen, também eles realizados por Zack Snyder. O pior de tudo é o enfadonho e demasiado cliché, argumento de Chris Terrio e David S. Goyer. Não dá para perceber como nomes tão sonantes entre os melhores argumentistas da atualidade conseguem criar algo tão chato. Neste filme existem uma série de sequências no deserto e provavelmente foi nesse local que os autores deixaram as suas cabeças. Não funciona saltar de Super Homem para Batman (o filme começa com aquela história do costume da perda dos pais, com as consequências que já o sabemos) ou ainda mais, juntar Lex Luthor, Doomsday, Mulher Maravilha, Alfred, blá blá blá, tanta gente que já perceberam. Uma montagem ao ritmo frenético é aquilo que o espera e se fosse para comparar Batman V Super Homem a outro filme seria às comédias românticas Dia dos Namorados e Ano Novo, Vida Nova, ambas com um elenco all-star, como se fosse apenas dos atores que se fizesse um filme.

Portanto, instaura-se uma questão pertinente. ‘Porque dar contratar atores tão reconhecidos para posteriormente, em pós-produção, substituí-los por efeitos visuais?’ É um verdadeiro paradoxo, chamam-se nomes como aqueles já citados e o resultado é uma aderência em massa para a sala de cinema, quando até parece que a montagem grita, constituindo-se como mero artefacto, mera técnica e instrumento, e fazer cinema hoje em dia é cada vez mais isto. De grosso modo, diríamos que o contacto eminente com a imagem, tê exigido uma reeducação do olhar e uma necessidade do espetador estar mais atento a projetos como Quarto ou Boyhood, Carol ou O Caso Spotlight para perceber que fazer cinema é muito mais que destruição, boom e mais boom. 

Falar de Batman V Super Homem: O Despertar da Justiça pode ser um quanto confuso, mas provavelmente a sua cabeça fica em papa que nem sequer sabe como descreve-lo e que bem pode começar a pensar que esta é provavelmente a sua última ida ao cinema para assistir a um filme de super heróis, sobretudo para aqueles que já viram suficiente.

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o 'viciado em filmes' porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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