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Basta!

Ana, Joana, Maria, Catarina, Filipa, Mónica, Sofia, Beatriz, Olga, Natália, Carolina, Marta, Ema, Julia, Irene, Isabel, Margarida, Susana, Raquel, Tânia, Sónia, Rosa, Verónica, Mariana

24! São 24 nomes de mulher. São estes 24 mas podiam ser outros quaisquer. No ano 2018, até Novembro, 24 mulheres já tinham sido assassinadas em Portugal, a grande maioria por maridos, namorados, ex-namorados.

O que leva a que um homem mate uma mulher, uma amiga, uma esposa, uma companheira?

Para tentarmos compreender melhor esta questão temos de embarcar numa viagem no tempo: a violência contra as mulheres advém da desigualdade de poder que sempre existiu entre homens e mulheres. Sejamos realistas, desde sempre que a desigualdade entre os sexos existe e é até “aceite” tanto na esfera pública como na privada.

Sempre existiram diferenças no que toca à distribuição do poder, nas próprias regras culturais e económicas: a mulher, um ser fraco e inocente não pode(ia) desempenhar cargos importantes, o seu papel é(ra) ficar em casa e cuidar dos filhos enquanto o homem cuida(va) dela. Estas diferenças levaram a que fossem negados às mulheres direitos fundamentais, como tomar decisões sobre a própria vida, e, em caso de insurgência da parte delas, tornaram se numa espécie de gatilho para a violência.

Basicamente, os homens passaram a servir-se da violência como forma de controlo, quer das ações quer da própria sexualidade das mulheres, pois afinal “é para isso que elas servem”, defendiam, para perpetuar a espécie.

Esta visão machista do mundo levou a que a violência passasse a ser um recurso.

Um recurso para resolver conflitos, para impor ideias, para regular a vida privada e a própria sociedade e, em pleno século XXI, infelizmente é um cenário real nalgumas culturas em geral, e em todas em particular.

Não podemos culpar apenas determinada cultura, determinado país ou aquela comunidade específica. Não podemos apontar um dedo a um nicho, nem reduzir a violência para com as mulheres a um grupo delimitado de indivíduos. [1]

A violência é uma realidade.

Aqui, no nosso Portugal, há um ditado muito antigo que diz que  “entre marido e mulher não se mete a colher”. Talvez por isso, quando no prédio ecoavam os gritos da Maria, os berros do José, nunca ninguém se atreveu a ligar o 112, nunca ninguém quis meter a colher. A Maria aparecia de braço ao peito, tinha caído numas escadas, se tinha o olho negro foi porque bateu na esquina da porta. A Maria corria para casa do trabalho: as 20h00 em ponto o jantar tinha de estar na mesa, “o meu José gosta de jantar a horas”. Quando, depois de uma noite de discussão em casa da Maria e do José, a ambulância parou à porta do prédio, todos correram à janela. A Maria só voltaria duas semanas depois, na face as marcas de mais uma queda talvez, ninguém teve a coragem de perguntar.

A violência doméstica é crime. Um crime público. Quem sabe se mais vizinhos tivessem metido a colher entre alguns Josés e algumas Marias…

Deixem que vos conte outra história: o marido é, para muitas senhoras, o rei da casa! Dentro e fora dela. “O meu marido é o melhor, o mais trabalhador, o mais querido. Passeamos tanto no verão, compra me tantas peças de ouro, tantas coisas bonitas” – este era o discurso normal da D. Odete para as amigas, enquanto estas se queixavam da toalha molhada em cima da cama ou da louça na pia. O marido da Odete era simplesmente perfeito. Por isso, imaginem o choque que foi quando a Odete foi encontrada amordaçada na arrecadação, porque não concordou com o seu Mário. Imaginem como foi saber que a Odete tinha fraturas antigas e, por baixo da roupa bonita, um mapa de hematomas.

Ninguém, seja ele marido, pai, avô, irmão, amigo ou patrão, é dono de ninguém nem tem direito de privar o outro daquilo que são os direitos humanos básicos. E não pensemos que a violência é apenas física. Quando, no casal, os nomes “fofinhos” são substituídos por “parva”, “estúpida”, quando dizem “olha para ti, sua gorda, porque não és como a X?” isto não é amor, é violência! Seja uma relação de poucos meses, porque “ele vai mudar” ou uma relação de muitos anos porque “ele foi sempre assim”. Isto é violência e está na hora de procurar coragem lá no fundo e gritar BASTA!

As mulheres têm lutado com unhas e dentes pelos seus direitos. Esta tem sido uma luta ganha literalmente com sangue, suor, lágrimas, soutiens queimados. As mulheres mostram a sua força e perseverança todos os dias até na mais pequenas coisas.

A MULHER é capaz! A MULHER é forte! A MULHER é dona de si!

Não vamos deixar que a violência gratuita continue, se és a vítima ou suspeitas que a tua amiga/prima/vizinha/conhecida possa ser uma vítima procura ajuda, temos a APAV  ou a UMAR ou mesmo aquela amiga/o em quem confias. As denúncias podem ser anónimas, a segurança de todos é uma prioridade.

Fala com as amigas/os se és maltratada, não glorifiques o agressor, não penses que é “normal”, que “todos os casais têm os seus problemas”.

Se temes pela tua segurança procura ajuda, não deixes que o teu nome passe a ser o 25° da lista…

[1] https://www.unric.org/pt/mulheres/6786
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Andreia Mendes

Natural de Caldas da Rainha, 35 anos. Licenciada em Educação Social. Mulher, Mãe de dois. Com paixão pelas pessoas, pelas palavras, pelas acções, pelo teatro, pela música e claro pela escrita! Incapaz de compreender algumas injustiças por esse mundo fora, por esse tempo adentro.

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