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Autismo – viver num mundo só seu

É difícil compreender e lidar com o desconhecido, especialmente, quando se trata dos mistérios relacionados com o cérebro humano e, desses mistérios, o Autismo é ainda um dos que mais nos intriga e que mais desafia a nossa compreensão.

Derivada do vocábulo grego “autos”, que significa “de si mesmo”, a palavra Autismo foi usada pela primeira vez pelo psiquiatra Eugene Bleuler, em 1912, no American Journal of Insanity, para descrever a dificuldade dos esquizofrénicos em se relacionarem com outras pessoas. Contudo, foi apenas na década de 40 que a palavra foi utilizada para descrever um distúrbio de desenvolvimento que, hoje sabemos, afecta milhares de crianças em todo o mundo. Curiosamente, o termo foi aplicado, em simultâneo, por dois médicos em diferentes estudos e em diferentes partes do globo. Leo Kanner, psiquiatra da Universidade John Hopkins, usou-o para descrever o comportamento introvertido de diversas crianças que participavam no seu estudo, enquanto que, ao mesmo tempo, Hans Asperger, pediatra austríaco, identificava uma condição semelhante que, actualmente, é designada como Síndrome de Asperger.

Esta foi, sem dúvida, uma escolha acertada por parte de ambos os investigadores, pois leva em consideração o traço mais marcante desta desordem, o isolamento do mundo exterior. Porém, hoje, não se fala apenas em Autismo, mas sim em Perturbações do Espectro do Autismo (PEA), designação que inclui cinco tipos de Autismo. De acordo com um artigo da Harvard Medical School, os três principais tipos são o Autismo clássico, o Síndrome de Asperger e a Perturbação Global do Desenvolvimento sem outra especificação. Existem ainda duas perturbações raras de Autismo, o Síndrome de Rett (afecta principalmente raparigas) e a Perturbação Desintegrativa da Segunda Infância (tipo grave de autismo).

Por regra, os sinais das PEA são observadas, pela primeira vez, antes dos três anos, apesar das suas causas continuarem desconhecidas. Há estudos que sugerem que o Autismo pode ser “hereditário, causado por uma infecção, ou secundário aos efeitos de uma toxina no meio ambiente, resultado de uma lesão cerebral, ou de uma anomalia que ocorra no útero, ou numa fase inicial da infância, ou mesmo resultado de níveis anormais de mensageiros químicos no cérebro”, como se pode ler no artigo “Perturbações do espectro do autismo” publicado no site do Programa Harvard Medical School Portugal.

De acordo com o psiquiatra Carlos Filipe, o Autismo caracteriza-se, na sua generalidade, pelo isolamento, a insistência na semelhança e na repetição, as alterações na linguagem, na idade precoce do aparecimento dos sintomas. Durante um seminário sobre as PEA, o especialista alertou que cada caso é um caso e que não existem terapêuticas universais para lidar com esta doença. Esta ideia é partilhada pela American Psychiatric Association, que define as PEA como “uma variedade de complexos distúrbios de desenvolvimento que podem causar problemas a nível do pensamento, sentimentos, linguagem e a capacidade de se relacionar com os outros. São distúrbios neurológicos, o que significa que afectam o funcionamento do cérebro. Como o Autismo afecta uma pessoa e a severidade dos sintomas é diferente em cada caso”. Deste modo, o diagnóstico precoce é fundamental para que se possa intervir o mais cedo possível, mas sempre de uma forma pensada para cada caso.

Segundo a pedagoga Maria Eloisa D´Antino, do Programa de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, as pessoas com Autismo têm características muito próprias. “Eles apresentam uma tríade de comprometimentos que incide nas habilidades de interacção social, nas habilidades de comunicação e na presença de estereotipias de comportamento. Mas, dentro do espectro, cada criança vai-se expressar de um jeito. Não é possível pensar em um único tipo de atendimento, como se todos os autistas fossem iguais”. Sabe-se, no entanto, que os sintomas podem melhorar, através de um tratamento intenso.

“O tratamento geralmente inclui a educação, uma abordagem comportamental e medicamentos”, lê-se no artigo publicado pelo Programa Harvard Medical School Portugal.

A possibilidade de existir uma cura para o Autismo é um tópico polémico no seio da comunidade médica e científica. Contudo, um recente estudo publicado no Journal of Child Psychology and Psychiatry confirma que é possível reverter completamente os sintomas do transtorno neurológico que afecta a comunicação, sociabilidade e comportamento. A equipa da Universidade de Connecticut recrutou 34 pessoas diagnosticadas com Autismo antes dos cinco anos, com sintomas desde moderados a graves, que posteriormente os reverteram. “Mas tenho que salientar aos pais que é uma minoria de crianças que é capaz disto e ninguém deve pensar que perdeu a viagem, se não conseguir este resultado”, comentou Deborah Fein, autora do estudo, em entrevista ao New York Times.

Alysson Renato Muotri, professor de medicina na Universidade da Califórnia, concorda com esta hipótese e afirma que, há mais de dez anos, se sabe que entre 1% a 5% dos autistas conseguem a reversão dos sintomas, através de terapia intensa. “O Autismo pode ser reversível. Acho que o próximo passo é entender porque alguns pacientes conseguem isso e outros não”, defendeu Muotri.

Polémicas à parte, é reconhecido que intervenções apropriadas iniciadas, precocemente, permitem a alguns indivíduos melhorar drasticamente os seus sintomas, basta não perder a esperança e a força de lutar.

A história de Carly Fleischmann, uma menina diagnosticada com Autismo severo e incapaz de comunicar com outras pessoas inclusive a sua família, é o perfeito exemplo da importância da família nunca perder a esperança que os seus filhos podem melhorar os sintomas. Apesar do devastador diagnóstico, os pais de Carly Fleischman investiram em terapia intensiva e contínua e, em casa, tentaram sempre estimular a filha. Os resultados eram lentos e frustrantes, mas, entretanto, algo inesperado aconteceu.

Aos 11 anos, Carly, num momento de dor, conseguiu escrever no computador um pedido de ajuda. Impressionados, pais e terapeutas aguardaram que Carly voltasse a escrever no computador, mas a situação não se repetiu, o que levou os pais da menina a adoptar uma estratégia. Se Carly quisesse algo, teria de escrever no computador para conseguir o que pretendia. Meses depois, ela voltou a escrever e, desde esse momento, tem escrito sobre os seus sentimentos, as suas frustrações e o, mais impressionante, sobre o que origina a maior parte do seu comportamento.

Aos dois anos, Jacob Barnett foi outro caso diagnosticado com um moderado a severo Autismo e os médicos informaram os pais que o menino nunca seria capaz de falar, ou escrever. Porém, aos 14 anos, este jovem está próximo de concluir o seu Mestrado em Física Quântica e é considerado um forte candidato ao prémio Nobel da Física.

Apesar do diagnóstico inicial, a mãe de Jacob sempre se empenhou em ajudar o filho, estimulando o desenvolvimento da sua capacidade de aprendizagem, através de música e terapia, mas sem nunca esperar que aos 11 anos o seu filho entrasse para a universidade. De acordo com uma notícia da TVI24, a mãe de Jacob publicou um livro a contar a história do seu filho, para de mostrar que o “diagnóstico de Autismo não é o fim do mundo, mas o princípio de outro, que pode nem sempre ser fácil, mas que compensa”.

Um outro exemplo de integração de pessoas com Autismo na sociedade é o recente caso da SAP, empresa alemã de software, que estabeleceu uma parceria com a empresa dinamarquesa de recrutamento, Specialisterne, para recrutar pessoas com Autismo para as áreas de programação e testes de novos produtos. Steen Thygesen, director executivo da Specialisterne e pai de um jovem de 14 anos com Síndrome de Asperger, comentou que “pessoas com Autismo têm habilidades únicas para se concentrarem nas suas tarefas e manterem-se focados durante longos períodos de tempo”. Tal como confirma a Britain’s National Autistic Society, que refere que as crianças com Síndrome de Asperger tendem a preferir matemática e outras disciplinas relacionadas com lógica e sistemas.

Estas são histórias únicas e cada caso de Autismo é um caso singular, mas a principal mensagem transmitida por médicos, familiares e amigos de pessoas diagnosticadas é de que o importante é nunca desistir.

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Adélia Abreu

Licenciada em Comunicação Social na Universidade do Minho, tenho trabalhado nos últimos anos como produtora de conteúdos.
A curiosidade e a vontade de querer aprender algo novo todos os dias, tem me levado a envolver-me em novos projectos como a CulturDoc e, agora, no Réporter Sombra.

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