PolíticaPortugal

Autárquicas: Apostar para Ganhar

Sobrevivemos a mais um périplo eleitoral! Satisfeitos com os resultados? Perderam tempo de lazer do vosso fim de semana para exercer o direito de voto ou ficaram por casa a comentar o estado das coisas?

Para estarem a ler este artigo e, uma vez que a abstenção diminuiu, certamente que votaram no vosso candidato ou partido de eleição.

As eleições não se ganham, perdem-se. As derrotas de uns abrem espaço para a vitória de outros. É para este ciclo de renovação que somos chamados para votar ou para nos apresentarmos como alternativa.

Esta máxima continua a não ser entendida por boa parte do país. Passos Coelho foi a mais recente vítima deste processo eleitoral. Preso no resultado das eleições anteriores, não foi capaz de mobilizar o partido para a importância do diálogo com os cidadão, para a importância de ouvi-los e dar uma resposta às suas preocupações.

Tal como no que diz respeito ao Festival da Canção, os hábitos das pessoas mudaram. Se antes as famílias se juntavam de volta da televisão para assistir ao espetáculo musical, agora seguem pelas redes sociais e apoiam os artistas nas mais variadas plataformas.

O mesmo acontece com as eleições de hoje. Os candidatos não podem simplesmente apresentar as suas intenções e esperar que o eleitorado confie neles. Têm de sair. Têm de integrar todas as plataformas, ouvir as preocupações das suas bases eleitorais e responder perante estas.

Claramente, um partido soube fazer isto. Desde o início da sua actividade em Portugal que o Partido Socialista reconhece a importância da comunicação para com o eleitorado. Mário Soares recebeu formação da família política socialista europeia mesmo antes das primeiras eleições a que se submete.

E hoje em dia o princípio mantém-se. O governo de António Costa demarca-se pela simplicidade na comunicação. Existe um acompanhamento dos novos meios para fazer com que a mensagem chegue até ao número máximo de pessoas. Muda-se a forma, adapta-se o conteúdo, mas chega-se às pessoas.

E nas autárquicas não foi diferente. Atenção que o Partido Socialista começou a sua expressão com alguns telhados de vidro: apesar das obras apresentadas pela Câmara de Lisboa, Fernando Medina não tinha sido eleito e o Primeiro-Ministro teve de lhe dar espaço suficiente para que se pudesse afirmar localmente; Ana Catarina Mendes lança a infeliz confusão na Câmara do Porto com o apoio do PS a Rui Moreira.

A seu favor sopravam os ventos da prosperidade. Falamos numa prosperidade por comparação aos tempos da crise económica, como é óbvio. Mas a popularidade do governo socialista, que acaba por deixar pouco espaço para oposição, será um fator determinante para os resultados apresentados.

Se Fernando Medina e António Costa levam o ouro para casa, Assunção Cristas leva a prata. O partido democrata-cristão não teve uma especial afirmação a nível nacional – até porque não é tradição do partido tê-la. O que Cristas conseguiu alcançar foi um espaço de afirmação no maior centro de urbano do país.

Há dois fatores importantes aqui: o primeiro, como é que o conseguiu, e, o segundo, qual o seu significado. Para mim, a estratégia de Cristas foi semelhante à do Partido Socialista: apostar na comunicação. Para a líder do CDS-PP, a comunicação passou por estar no número máximo de sítios, conviver com o maior número de pessoas, integra-las na sua campanha e transformá-las em multiplicadores.

Assunção Cristas entra na corrida cedo, na intenção de encontrar apoio do Partido Social Democrata. A teimosia de Passos Coelho, que agora terá o seu preço, não o fez seguir este apoio. Antes de todos os candidatos se apresentarem, já Cristas enviava uma carta a todos os moradores de Lisboa, mostrando-se disponível a ouvir e a apresentar as suas ideias.

A candidata entrava pela televisão na casa de todos, depois pela ranhura do correio e chegou aos nossos trabalhos e quotidianos pelas redes sociais.

Para Cristas, a vitória significa mais do que a exposição na grande capital ou um assento na Câmara. Foi um movimento ousado de exposição política, mas agora, a vitória histórica permite afirmar-se no seu partido. Sem entrar em conflito com anteriores líderes, marca a sua posição e, por infortúnio de outros, declara-se líder da oposição.

Esta situação contribui para encerrar a estadia de Pedro Passos Coelho no PSD. Mas ainda falta mais história. É do norte, na Câmara do Porto, que vem mais um ataque ao partido. Se há candidato com capacidade de afirmação individual é Rui Moreira.

O seu movimento independente e a ação arriscada de rejeição do apoio do partido socialista não o impediram de chegar à vitória. Quando a alcançou, fez questão de vincar a sua independência, salientando a sua amizade com o rival socialista.

Reafirma que o Porto não é espaço de primárias para o maior partido de oposição ao governo e nomeia alguns outros perdedores da noite: Paulo Rangel, Rui Rio. E termina o seu discurso com uma citação de Sá Carneiro, como que deixando uma verdadeira interpretação dos valores iniciais do partido, que não se encontram no PSD de hoje.

O partido histórico que sempre se encontrou no clube da defesa dos princípios democráticos até isso consegue colocar em causa com estas eleições. Uma vez mais, não aceitando a importância de ouvir o eleitorado, quer fazer-se ouvir e apoia a André Ventura para a Câmara de Loures.

Ainda que Portugal contrarie a tendência europeia do populismo nacionalista, é o PSD que reforça a entrada deste na vida política portuguesa. O limitado sucesso do candidato é mais um prego no caixão de Pedro.

Como não poderia deixar de ser, é importante referir o regresso de Isaltino Morais. A popularidade deste candidato pelo seu anterior percurso na Câmara de Oeiras, chama a atenção para esta vitória.

O candidato mostrou a sua humildade, soube sair às ruas e soube chegar às gerações mais novas que votam, mas têm uma recordação limitada do seu passado. Soube apanhar a carruagem das redes sociais e o seu sucesso deveu-se a isso.

O Bloco de Esquerda seguiu também a orientação de chegar às camadas mais jovens. Ao rosto jovem de Mariana Mortágua do mesmo partido, junta-se Ricardo Robles como candidato à Câmara de Lisboa. Com um extraordinário aproveitamento da boa aparência do candidato, cartazes foram espalhados por toda a cidade, captando a atenção para um partido habitualmente mais popular nos campos nacional e europeu.

Fora de Lisboa, no entanto, o Bloco de Esquerda confunde-se com o Partido Comunista Português na mensagem que passa: candidatos pouco expressivos, mensagens repetitivas e sem grande espaço para inovação.

O PCP saiu como perdedor silencioso, ainda que visível por todos. A perda de dez câmaras municipais, incluindo a de Almada para o PS, poderá gerar alguma tensão junto da coligação de apoio. Enfraquece o partido e, caso não fosse o PCP, poderia gerar algum debate sobre a sua liderança.

Estas eleições autárquicas poderiam ter sido passadas em 2013. O resultado do PSD até nem diferiu muito deste período. O principal partido da oposição continua preso a uma narrativa que ninguém quer mais ouvir, o que demonstra uma incapacidade de representação daqueles que os elegeram.

Os que saem vencedores são os que estiveram atentos a como se faz política nos dias de hoje, mas ainda há muito mar para conquistar. Os slogans da “renovação” com os rostos que todos conhecem são encarados como mentiras que já não são toleráveis e passam a ocupar lugar como “tesourinho das autárquicas”.

As questões, dúvidas e mesmo provações devem ser dirigidas aos representantes, numa era em que a maioria dos cidadãos comuns tem acesso a megafones virtuais.

Já não precisamos de esperar mais quatro anos para sermos ouvidos.

Tags
Show More

Pedro Moniz

Pedro, 22 anos, europeísta. Ser pensante em full-time, com muitas perguntas em cima da mesa. Com valores e ideais bem definidos, a apaixonar-se por novas ideias.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: