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ContosCultura

Até ser olvido

Um dia morri.

Ria. No minuto seguinte, estava morta. Deitada no chão, sem respirar, de coração parado.

Enquanto morria, incrédula, pensava: como é possível?

E antes de morrer, em pânico, pensei: e agora?

E agora, quem iria avisar a minha mãe, o meu namorado, os meus amigos? E agora, quem iria abraçá-los? E agora, quem iria apagar este dia das suas vidas?

Mas quando morri, o pânico também acabou.

Quando morri, deitada no chão, sem respirar, de coração parado, nada mais podia fazer. Não podia mais escrever. Não podia contar que tive medo, tanto medo, que desejei morrer rápido. Não podia resguardar os meus da dor, não podia deixar de estar morta e evitar que eles sofressem. Não podia voltar atrás e dizer «nem sabem, mas hoje ia morrendo!»

Já nem ouvi a chamada a avisar que havia algo de errado.

(Este telefonema poderia ter sido tão diferente. Todos os dias aqueles dois números se ligavam e este telefonema deveria ter sido diferente.)

Os olhos das pessoas em choque por cima do que costumava ser eu. Talvez não haja nada mais íntimo do que ver alguém morrer.

Mesmo morrendo no meio de outros, continua a ser solitário. Solitário e indigno e irreal.

(Agora, só um dos números liga para o outro.)

A cama continua no mesmo lugar, os livros continuam com o seu cheiro tão bom, os sapatos estão desarrumados como quando os descalcei, à toa, com os atacadores ainda atados, como quem precisa de uma liberdade súbita.

(Do outro lado não respondem. Mesmo assim, todos os dias aquele número liga para o outro à espera que alguém atenda.)

Todos os dias volto a não acordar. Todos os dias continuo morta. Todos os dias continuam a suceder-se.

Nas paredes da memória alheia, sorrio muito. Acabamos por ser lembrados como os outros querem.

(Do outro lado continuam sem atender.)

Até sermos esquecidos. De mim já só restam retratos nos móveis dos outros. E um dia, nem isso. E um dia, deixarei de ser um retrato para me tornar olvido.

(Do outro lado continuam sem atender.)

Afinal o dia de hoje foi o mais importante da minha vida – justamente quando acabou. Há anos que passava por este dia e não imaginava que seria este dia deste mês que ficaria no meu túmulo, que ficaria para sempre colado a mim.

(Até que o número desiste de ligar para outro.)

Todos os dias sei que eles acordam e reaprendem que morri, como se a noite pudesse fazer milagres e trazer-me de volta.

Não, não traz.

(Anos depois, o número volta a tentar. Atende outra voz. O outro número de telefone foi dado a outra pessoa.)

*

«Tou, sim? Epá, nem sabem! É que hoje ia morrendo!»

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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