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Até ao Próximo Ano Game of Thrones

Considera-te Avisado: Se ainda não viste o episódio 10 da quarta temporada de Game of Thrones, aconselho-te a parares aqui a tua leitura.

Amor e Morte. Morte e Amor. Estes são os principais ingredientes de um drama e, se pensarmos bem, da própria vida. Houve bastante destes dois ingredientes neste último episódio da quarta temporada, mas, como sempre, em Game of Thrones, a morte teve uma maior predominância.

O filho bastardo de um traidor assassinado. Os irmãos gémeos de um grande governante. Um rei nascido da sua união incestuosa. O corpo carbonizado da filha de um pastor. Os numerosos e mortíferos filhos de uma rainha no exílio. Os dois jovens psíquicos que sacrificaram corpo e alma para seguiram um chamamento místico. Os últimos sobreviventes de uma mítica raça. A feroz aprendiza de uma sucessão de assassinos. A morte do filho de um Talhante que despertou a ira há muito guardada. O filho indesejado que, finalmente, destrói a sua Casa. O último episódio de Game of Thrones foi baptizado de “The Children” e o que nasceu nele foi gigante e variado.

O episódio mais longo que esta série já teve até agora espalhou energia narrativa por todos os lados e isto não se reflectiu apenas nas normais viagens por vários cenários de Westeros, mas, principalmente, importantes desenvolvimentos em todas as histórias principais, com a excepção dos arcos dos Tyrells, dos Boltons, de Theon e de Sansa, que ficaram de fora deste episódio. Explicar neste artigo todos os acontecimentos que ocorreram iria ser demorado, por causa das constantes voltas e momentos de mudança apresentadas e que se sucederam uns atrás dos outros. Os selvagens foram derrotados. Stannis consegue chegar à Muralha. Os dragões são aprisionados. As Crianças da Floresta regressam. Bran torna-se num aprendiz de feiticeiro. Brienne derrota o The Hound. Tyrion e Varys encontram-se em fuga. Arya decide partir à aventura.

Por vezes, durante várias cenas do episódio, o que mais se destacava eram os elementos que ficavam de fora das cenas. As composições musicais de Ramin Djawadi, ou melhor, a quase ausência das mesmas arrebataram qualquer um, em momentos como o duelo entre Brienne e o The Hound, os pedidos para ser morto que ele fez a Arya, ou a morte de Shae às mãos de Tyrion. Enquanto a música era reduzida a momentos de quase silêncio, o lado visual da história ganhava novos contornos. A luz cinzenta do céu que transformou grande parte da luta entre Brienne e o The Hound em silhuetas, ou a forma como o terreno com neve sem fim no lado norte da Muralha conseguiu destacar as formas escuras do exército de Stannis de uma forma magistral, sendo que a falta de informação visual era como uma tela branca a ser pintada com largas pinceladas de vermelho sangue. Em todas estas situações, o silêncio tornou a brutalidade das cenas ainda mais desconfortável.

No lado oposto a esta estratégia, é nas ausências estruturais na narrativa e na variedade de personagens a que o título do episódio faz referência que o verdadeiro propósito de “The Children” se revela. Entre a intimidade e a grandiosidade, a empatia e a brutalidade, Game of Thrones não se limita a saltar entre estas linhas, já que é na sua fusão que nasce o seu espectáculo. Este final de temporada, realizado por Alex Graves, está repleto de cenas de acção bem filmadas, principalmente as que envolveram o ataque de Stannis e do seu exército, que derrotou os selvagens de uma vez por todas. Contudo, as cenas mais eficazes, como não podiam deixar de ser, foram as que envolveram Tyrion Lannister. Desde o seu abraço sentido ao seu irmão Jaime, ao assassinato da mulher que ama, Tyrion foi o motor emocional do enredo, mostrando todo o sofrimento que a personagem sentia, à medida que ia passando por vários momentos difíceis do episódio. A morte de Shae foi brilhante, claustrofóbica e devastadora, com uma memorável última cena de partilha de carinho entre ela e Tyrion, antes dele a estrangular até à morte com um colar de ouro. Os momentos finais do episódio foram frenéticos, com Arya a celebrar a sua nova vida, Qyburn a fazer loucas experiências num moribundo The Mountain e a perseguição de Bran, Meera, Jojen e Hodor por parte dos esqueletos de White Walkers, até serem descobertos pelas misteriosas Crianças da Floresta.

Game of Thrones tem também alguns dos melhores efeitos especiais da televisão. O exército gigante de Stannis Baratheon, os esqueletos que emergem das terras geladas do Norte, o desolador aprisionamento de dois dos três dragões de Daenerys, por causa do mau feitio de um deles, o fogo mágico das Crianças da Floresta, que terminou com o ataque dos esqueletos, e a forma como eles se transformaram em pó, depois de terem entrado no santuário destas novas personagens misteriosas. Todos estes momentos, que, noutra série, corriam o risco de parecerem mal feitos, em Game of Thrones ganham vida de uma forma impressionante.

A combinação entre a habilidade de um bom realizador, um argumento bem construído e excelentes efeitos especiais é uma combinação difícil de bater. O último episódio desta quarta temporada foi tenso, visualmente belo, com momentos de desolação, de celebração, violência e tragédia, sem nunca se sentir a preponderância de um elemento perante o outro. Houve tempo para uma montanha russa de emoções, saber como estão algumas personagens, preparar as linhas narrativas para a próxima temporada e dar um sinal aos fãs que a série está a desenvolver-se num bom sentido. Depois de uma temporada repleta de acção, não sei como é que Game of Thrones irá conseguir superar a expectativas que criou, mas tenho a certeza absoluta que a sua qualidade não irá diminuir.

A quinta temporada está só à distância de dez longos meses de espera…

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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