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As Palavras

Numa mesa de espaço de refeição, num espaço comercial, uma pessoa desabafava com outras três acerca de uma situação, pareceu-me, familiar. Ainda que não tenha noção das palavras em concreto, pois não estava atento à conversa, nem isso faz parte da minha maneira de ser, mesmo que fosse audível por muitas pessoas nesse mesmo espaço, na minha memória ficaram os sentimentos que aquela pessoa mostrava através do que dizia, que revelavam dor, tristeza, revolta, mágoa e injustiça.

Esquecemo-nos, tantas vezes, que as palavras não são apenas palavras, que quando as exprimimos, quando as pronunciamos, não estamos apenas a dizer coisas, mas sim a criar algo. As palavras são energia e ficam guardadas e registadas na nossa memória, ainda que não nos lembremos, como foi o caso, do que foi dito, ou até mesmo escrito, o que foi sentido ficou marcado. Esquecemo-nos e pronunciamos palavras sem nos apercebermos do impacto que elas têm sobre nós e sobre os outros, sem compreendermos que elas moldam e criam a nossa própria realidade.

Uma substancial parte dos nossos mitos de criação do mundo apoiam-se em palavras, pensamentos e intenções, em linguagem, no fundo. Ainda que haja criação física, é pela conceptualização que a palavra representa que ela se move e se dimensiona. Mesmo que não tivéssemos em conta esta dimensão da nossa existência, bastaria parar um pouco para compreender que as palavras, assim como os pensamentos, deixam em nós algo, tocam-nos e transformam a nossa vida.

À nossa volta, o mundo está impregnado de palavras e pensamentos de dúvida e medo, de mágoa, ódio, rancor e sofrimento. Nós próprios estamos habituados a viver nesse registo, através das nossas crenças e conceitos. Chamamo-nos de estúpidos, dizemos que não conseguimos, não acreditamos em nós mesmos, assumimos que não temos um valor tão elevado assim ou que não somos merecedores de algo melhor. Submetemo-nos às palavras dos outros, aos seus comandos, à sua política de medo e esquecemo-nos que o maior poder que pode existir nas nossas vidas é o que está dentro de nós, que se manifesta pelo alimento que lhe damos.

É verdade que é tão perigoso para qualquer um de nós viver numa manifestação constantemente negativa, mas, também o é apenas dizendo e pensando coisas bonitas, luminosas e “cor-de-rosa”. As palavras têm poder, é verdade, e muitas vezes é preciso que as palavras mais duras, mais cruas e sofridas, expressões de mágoas e sofrimento, venham ao de cima, saiam da sombra e encontrem a luz, de forma a que as possamos encarar, ultrapassar e, dessa forma, curar a nossa vida.

Tal como estamos impregnados de palavras de medo, separação e ódio, também vivemos na crença que não devemos exprimir determinadas coisas, que não as devemos pronunciar, sob pena de elas se tornarem reais. No entanto, esquecemo-nos que, ainda que não as pronunciemos, ainda que não as libertemos, elas estão vivas e moldam a nossa vida a cada instante, tiram-nos saúde e alento, envenenam-nos a alma, empurram-nos para baixo, mantêm abertas as nossas feridas. Então, é preciso também entendermos que as palavras devem ser ditas, sim, e até podem-no ser numa mesa de um espaço de refeição, desabafando para uns amigos, mas a tal de nada serve se elas depois não forem dirigidas, da forma correcta e directa, a quem se referem, ou até mesmo a nós mesmos, com a humildade, a determinação e a força necessárias para que possam ser curadoras e potenciadoras de uma nova consciência.

A palavra é criadora, em todos os sentidos e direcções, e, por norma, pronunciamos aquelas que realmente reflectem o que somos naquele momento, ainda que muito pensadas e estruturadas. Por isso, em vez de falarmos apenas pela mente, se falarmos mais com o coração, o que será expresso será mais real, verdadeiro e concreto, pois de falsidade e máscaras o mundo está repleto e não necessita de mais. Acredito, sinceramente, que se cada um de nós conseguir fazer um pouco desta mudança em cada dia nas suas vidas, seremos como sementes que se vão espalhando e, talvez, aquela magia que se vê nos filmes e nos livros, se torne realidade no mundo em que vivemos.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d’Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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