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ContosCultura

As palavras perdidas

Os baloiços vazios abanam com o vento. No céu, pássaros fazem círculos em pânico, sem norte, perdidos. Atrás de mim, talvez esteja a solidão. Não me viro. Não sei. Não sei se ela corre para me alcançar ou se ficou escondida nalgum beco, à espera do momento em que eu pare, em que me canse, e lhe seja mais fácil voltar a dar-me a mão.

Num mundo de sonhos falhados, eu era das que dançava na rua sem música, sem razão, sem vergonha. Sorria como quem não conhece a desilusão. Conhecia-a, claro; eu também carregava no peito amores desfeitos, e tinha nas mãos cinzas de cartas de amor queimadas, e despia roupas que fediam a desgosto.

E no entanto. No entanto… No entanto havia mais.

Depois deixou de haver.

Tenho os bolsos cheios de palavras. Já não estão mais na minha cabeça. Um dia, esqueci-me delas ou perdi-as à saída de um túnel e elas nunca mais voltaram. Creio que estava num avião e elas explodiram ali, mergulhando no abismo. Não me lembro. Acordei na incompreensão. Vivi algum tempo num silêncio ignorante e surdo.

Silêncio.

As palavras não voltavam.

Silêncio surdo.

As palavras nunca mais voltaram. Tive de as apanhar quando as outras pessoas as soltavam; apanhava-as com as mãos, com os olhos, com a boca, com redes para caçar borboletas, com canas de pesca, com alguidares e baldes. Saltava, ou mergulhava, ou elas caíam-me no colo e na pele. Dependia de onde elas estavam, para onde voavam, quem as soltava. Tive de as apanhar todas todinhas; tive de as tocar e de as abraçar até as conhecer; tive de as passear entre a língua, de as imaginar nuas, de as usar para poder voltar a ouvir a minha voz. Algumas uso mal, ainda não as senti o suficiente. Outras ainda não as encontrei. Imagino que existam palavras que ainda ninguém me disse. Não as conheço, só as fantasio. Fiquei com os bolsos cheios, a abarrotar de palavras. Ameaçavam romper-se e empurrar-me para dentro do silêncio. Comecei a pensar se não seria melhor. Tinha os bolsos cheios de palavras mas dentro de mim o vazio era insuportável.

Porque eu era das que dançava na rua sem música, mas não reconheci o meu marido quando ele me deu a mão. Eu era das que dava gargalhadas sinceras, mas não me conseguia lembrar da areia entre os dedos dos pés. O passado tinha sido expulso de mim juntamente com as palavras: as memórias tinham-se entrelaçado às letras e agora só existia o oco e o desconhecimento. Não foi difícil para a solidão seduzir-me. Comecei por lhe dar a mão, ou ela é que a estendeu para mim. Um flirt cruel e tóxico. Acabei na cama com ela, em pecados irrepetíveis, num amor-ódio que me fez acabar com o meu lar e a minha vida. Até que a empurrei para fora do meu corpo. Empurrei-a, continuo a empurrar porque ela encontra-me, eu cheiro a ela, ela conhece-me bem.

Hoje consegui fugir, mesmo que por um instante. Agora estou parada, a olhar para os baloiços vazios que abanam, abanam, parece que ouvimos risos de crianças ao longe. Estou parada e ela pode agarrar-me a qualquer segundo.

Sinto uns dedos a tocar nos meus e viro a cara. O meu marido sorri-me. Hoje a solidão não virá e eu tenho esperança de, pouco a pouco, voltar a dançar sem razão, sem música, sem vergonha. No olhar dele encontro palavras que não conhecia e que me percorrem o sangue, que se instalam comodamente na minha alma. Todos os dias palavras quentes e novas que me sabem a abraços. Acaricio-as. Acaricio-as para as conhecer melhor e nunca me esquecer delas. O meu marido toca-me na barriga com carinho, beija-me nos lábios e eu percebo que afinal já as sei de cor.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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