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As palavras perdidas na memória

Ouvi-o a chegar. Por um momento pensei em fingir-me adormecida, talvez ele se fosse embora. Mas sentia tanta falta dele, gostava tanto da sua presença, que me obriguei a não o fazer, a esquecer a humilhação. Obriguei-me a recebê-lo, a aproveitar a presença dele.

“Olhe quem chegou, Laura” anunciou-me a minha enfermeira, abrindo a porta da sala.

“Olá, mãe!” disse ele, ao entrar. Beijou-me a testa.

Eu sorri-lhe, aquele sorriso que era agora uma sombra do meu sorriso anterior. De outra vida. De antes.

“Trouxe a Madalena, para a conheceres” explicou ele. Eu conseguia ver nos olhos dele a incerteza, o medo. Medo da minha reacção? Ou medo da reacção dela? E será que conseguia ver pena e vergonha, também, nos olhos dele?

A enfermeia piscou-me o olho e saiu. Uma rapariga de cabelo preto, curto, entrou na sala. Notava-se que estava envergonhada e tímida. Eu sorri, ou tentei sorrir.

“Boa tarde” a rapariga cumprimentou com uma voz doce, e baixa. “Sou uma grande fã dos seus livros…” acrescentou timidamente, como se não soubesse se eu gostaria de ouvir aquele elogio.

Sorri, quis que ela percebesse que eu tinha gostado. “B’tad” tentei dizer.

Não, não dizer… dizer não é a palavra certa, não é a palavra que eu usaria. Qual era a palavra, quando queremos dizer algo mas só nos saem uns sons, umas meias palavras incertas e gagas?

Senti-me humilhada. Tinha vivido das palavras, e agora nem “boa tarde” conseguia dizer. Porque é que o AVC tinha apagado as palavras exactas e bonitas da minha memória? As palavras, que eram a minha vida? Porque não as memórias, aquelas memórias que já não me serviam de nada?

Olhei para eles tristemente. Naquele momento quis ficar sozinha, sozinha com a minha falta de memória e as minhas ideias simples, as minhas palavras básicas, com as quais eu nunca voltaria a escrever livros. Mas eles sentaram-se os dois no sofá, com cara de quem estava decidido a fazer-me companhia. Os joelhos dela tocavam na perna dele, em busca de conforto e apoio, e ele tinha o braço nas costas dela.

As palavras perdidas na memoria“Como tem corrido a fisioterapia?” perguntou-me ele, animado. Os olhos muito abertos, mostrando alegria e vivacidade. Mas eu via tristeza. Via pena. Via pena? Ou a pena era a minha?

Encolhi os ombros, ambiguamente. A dizer que estava tudo bem. A dizer que não queria falar sobre isso.

“O pai disse-me que tens estado bem, falei com ele ontem. E quando a enfermeira Lurdes me abriu a porta também lhe perguntei, eles estão muito contentes com a tua evolução, mãe! Dizem que em dois meses melhoraste muito, é só… pronto, é continuar. Já se sabe como são os AVCs, não é? É lutar…”

Sorriu-me. Sorri-lhe de volta.

Evolução? Que evolução, se havia tantas palavras de que não me lembrava? Se já não conseguia falar, nem escrever, e estava o dia todo presa àquilo que não conseguia fazer? Ou pior, estava presa com milhões de palavras que não me tinham fugido da memória, que continuavam lá, sempre. AVC. AVC. AVC. Sim, estava tão presa ao que não me conseguia lembrar como estava ao que conseguia.

Não partilhei com ele os meus pensamentos. Disse (outra vez, não é esta a palavra!) um breve “po’s…”, como querendo dizer que sabia que a luta continuava. Queria chorar, mas contive-me.

Eles olharam um para o outro. Sabiam que se calhar o melhor era irem embora. O meu filho conseguia entender que eu hoje não estava bem. Ou que há dois meses que não estava bem. Talvez notasse os meus olhos vermelhos, chorosos e cansados. Eu sabia que ele sabia que eu era uma sombra do que tinha sido.

“Tens que manter uma atitude positiva. Estás viva, e vais recuperar” disse-me ao ouvido, quando se despediu.

Saíram e fecharam a porta da sala. Continuei a ver televisão, a ver umas imagens que passavam, sem prestar atenção ao que eram, ao que diziam ou faziam.

“A tua mãe não me parece tão mal…” ouvi a rapariga dizer no corredor, um tom com pena, talvez para o animar a ele, para o manter positivo a ele.

Pausa. E eu à escuta.

“Acho que ela se sente infeliz por não conseguir falar, sabes? Vai balbuciando umas palavritas aqui e ali, mas… não é suficiente, não para ela” ouvi o meu filho a responder, com dor na voz.

Balbuciar. Balbuciar. Era essa a palavra que eu queria.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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