Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!
Ciências e TecnologiaSaúde

As palavras difíceis

Existem palavras que nos custam a pronunciar. Elas foram criadas por quem sentiu a necessidade de expressar uma emoção, uma dor, uma doença, uma situação, um momento, algo com que as pessoas se pudessem identificar. Não é só uma questão de aprendizagem linguística, mas também social e emocional.

O poeta explica que “(…) há palavras que nos beijam (…)”, mas também “(…) outras um punhal (…)” e essas são complicadas. Não interessa falar na sua dimensão semântica, mas sim no seu lado prático e verdadeiro.

A palavra homicídio faz-nos arrepiar, transportando-nos para campos macabros de sangue, violência, armas, mutilações, crimes hediondos. Está sempre implícito um juízo de valor em cada comentário efectuado. Nada de bom sairá daqui. No entanto não há nenhum problema em a pronunciar, em dizê-la em voz alta. É uma palavra que entrou no vocabulário corrente e ninguém a contesta.

Uma outra que é complicada de dizer é cancro. É uma doença de que ninguém quer sofrer. Ainda há o estigma do “coitado”, quando se sabe que alguém foi diagnosticado com esta patologia. É a meta final, o suplício sem fim, mas já não o é. Com o avanço da medicina e detectado a tempo, tudo pode ser tratado e alterado. O fim continua em aberto, como convém. Os mais antigos nem a pronunciavam, era a doença má ou a doença ruim. Sei que é uma palavra que dói a soltar, sobretudo, quando toca a nós.

E agora vem aquela palavra que, além de polémica e complicada de dizer, é muito sofrida: aborto. Não se pense que é destituída de significado, nada disso. Antes pelo contrário. Tem um enorme significado. Em Portugal, as mulheres que o praticaram, ou tiveram que praticar, foram severamente punidas. Dava ideia que engravidavam sozinhas, não havia homens nesta relação. Nunca eram nem penalizados nem chamados à responsabilidade.

Como qualquer pessoa e, sobretudo, como mulher, tenho uma opinião muito pessoal, sobre o seu simbolismo. Esta palavra abala um mundo, várias vidas, muitos significados. Se ela existe é porque é possível que o seu valor simbólico seja concreto. E é. Nenhuma mulher aceita de bom grado tomar esta decisão. Os motivos podem ser vários, mas as consequências são sempre as mesmas: um enorme sentimento de culpa que nunca as abandona. Mesmo que digam o contrário, não é verdade. Sobrevivem a uma realidade que aconteceu, um dia, mas que ficou registada para sempre.

Tive acesso a ficheiros clínicos antigos e anónimos, onde ginecologistas e obstetras conseguiram verdadeiras confissões das suas pacientes. Grande parte fez mais do que um aborto, durante toda a sua vida fértil. E em que condições eram praticados! Sem higiene, sem conhecimentos técnicos adequados e sem anestesia. Era doloroso e perigoso. Muitas não sobreviveram outras ficaram “danificadas” para sempre. O lamentável era verificar que estas mulheres estiveram sozinhas nestes calvários, os seus homens nem sabiam que elas estavam grávidas!

Havia o grupo das mulheres casadas que já tinham filhos e que não tinham condições para ter mais. Era a solução imediata, sempre acompanhada de muitas incertezas e mãos a serem esfregadas continuamente. Alguns maridos sabiam, mas não havia lugar para mais crianças naqueles lares. Outros não faziam a menor ideia, porque as mulheres só tinham a função de os aliviar das tensões do quotidiano. Não olhavam para elas, não as viam, não sabiam porque as ignoravam.

Finalmente, surge o grupo das mulheres sós, as solteiras ou separadas que se apresentam em situação de desespero de causa. As chamadas “produções independentes ” não são fáceis e, naquela época, eram praticamente impossíveis de concretizar. A mulher ficava estigmatizada e marcada para o resto da vida. Apesar de ser uma situação que nenhuma queria, acabava por ser uma libertação e uma forma de prosseguir a sua vida.

O que mais sobressaía, neste estudo, era o tempo de gestação que apresentavam. O limite para “resolver” o assunto estava próximo. Todas elas tinham sido vítimas da sua própria situação e as hesitações eram frequentes. A maioria apresentava sinais evidentes de ansiedade e depressão. Nenhuma queria tomar a decisão, mas acabavam por ser forçadas a isso.

Tudo isto era relatado à porta fechada, em tom de segredo, de modo contrabandista. A lei não o permitia e a penalização era muito dura. Já não bastava a consciência a morder o tempo todo, quanto mais a vergonha do julgamento público e a prisão. Era muito para uma só pessoa aguentar. Tanta injustiça que foi cometida neste país.

A verdade é que confessar que se tinha feito um aborto era de uma grande coragem. Falava-se à boca muito pequena, do assunto, com medos, com os olhos quase fechados, com a consciência muito pesada. O corpo é da mulher e deve ser ela a decidir o que fazer, mas não era assim que se pensava na altura. Havia um rigoroso controlo sobre todas as pessoas e, sobretudo, sobre as mulheres, que acabavam por ficar ainda mais indefesas.

Felizmente que se evoluiu e o tema passou a ser debatido, às claras, à boca grande, levando a voz popular a expressar a sua opinião. Quem mais falava eram os homens, aqueles que nunca sentiram, nem poderão sentir o que se passa no corpo feminino. Alguns insultavam as mulheres, apelidando-as de criminosas, levando-as a ficarem do seu lado simplesmente para atenuar o conflito e a discussão pública. Outras expressaram abertamente a sua opinião, enfrentando tudo e todos. Como era de esperar as opiniões dividiram-se. Não foi fácil. Chegou-se a um referendo. Continuou a não ser fácil, mas é legal. Uma conquista.

Raras são as mulheres que confessam que praticaram um aborto. Não é só a vergonha que ainda é muita, algo de clandestino e muito incómodo, como também o medo do peso da consciência. Ele está sempre lá, nunca as abandona e persegue-as durante toda a vida, mesmo tendo passado muitos anos. É uma cicatriz grande, uma ferida que nunca sara, que está sempre pronta a abrir e a sangrar.

Por isso, esta palavra é daquelas que é difícil, não só de pronunciar como também de recordar. Está carregada de lembranças, de maus momentos, de decisões, de arrependimentos e, quem sabe, de saudade.

Parafraseando um grande homem: “Eu não acredito em bruxas, mas que as há, há “.

Tags

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Check Also

Close
Back to top button

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: