Ciências e TecnologiaSaúde

As novas “mulas”

Por mula entende-se um animal híbrido, um cruzamento de asno macho com égua ou asno fêmea com cavalo. São animais muito resistentes e espartanos. Durante séculos, foram usados como transportadores de cargas pesadas e como animais de combate. As viagens que se faziam, há muitos anos, eram com estes animais e não com cavalos, que não apresentam tanta força. Nuno Álvares Pereira combatia não a cavalo, mas sim com uma mula. Quando perdiam a sua utilidade, eram simplesmente descartados.

Mais recentemente esta nomenclatura passou a ser usada para quem se dispunha a ser um transportador de algo ilícito, como as drogas. As pessoas que aceitavam essa tarefa, pagas a valores elevados, arriscavam a sua vida para fazer chegar a mercadoria ao receptor. Recebem o montante e a vida continua. A maior parte das vezes corre bem, mas, às vezes, dão-se os acidentes e as mulas acabam por ser abatidas. Assim, friamente. Descartadas, porque deixaram de ser úteis.

Há um interesse de quem vende e de quem quer comprar. É um negócio que pode não ter os resultados que se pretendem. Acontece. O transportador é sempre o mais sensível e mais exposto. Por isso, algumas “mulas” morrem, quando os sacos de coca rebentam no seu corpo ou quando são apanhados/as e vomitam os nomes de quem os envolveu em tudo. Morrem depois em situações sempre muito estranhas. Justificadas, porque já não fazem falta.

Hoje em dia, encontramos outro tipo de “mula”, mais sofisticada e muito mais protegida, porque o comprador zela pelo seu interesse. Não pelo interesse da “mula”, mas sim pelo resultado final. São as chamadas barrigas de aluguer. Alugam o seu corpo e a sua vida, durante um determinado período de tempo, por um valor estipulado. Como se trata de corpo humano e de originar um outro ser, os montantes em questão serão, certamente, muito elevados. A diferença é que não são abatidas depois do serviço prestado.

O negócio, que é disto que se trata, normalmente inclui intermediários, mas é tudo feito no maior dos secretismos. Há sempre quem esteja disponível, acordam-se os termos e o passo seguinte é a concretização da obra final. Aqui é de um novo ser humano, uma criança, que se trata. Não há contacto físico entre os chamados “progenitores” e tudo se processa numa clínica, que funciona como um laboratório. Nada de emoções e muito menos de amor. Isso é para quem não se modernizou.

Pode não ficar bem à primeira. Quer isto dizer que nem sempre a experiência é positiva e o chamado embrião não se adaptar ao útero e desistir de viver. Coloco aqui um pinguinho de humanidade para não parecer tão frio como me está a soar. Nova tentativa e finalmente a concretização não de um sonho, mas sim de um capricho. Não é qualquer um que se pode chegar à frente para estas brincadeiras que são pagas a peso de ouro. Está legislado e não pode ser nem punido e muito menos penalizado. Muito menos se matam as “mães”.

Ao fim do tempo regulamentar, a dita criança está pronta a sair do “forno” e em condições de ser entregue a quem se dispôs a pagar a compra. Assim como se fosse uma peça de roupa ou um bolo que tem um aspecto delicioso. Onde está a ligação que é tão importante e que se apregoa constantemente, a relação privilegiada entre mãe e filho? O vil metal falou mais alto e isso é que é mesmo importante. O amor é coisa de pobres e os ricos jogam de uma outra maneira, mais sofisticada, que as relações são algo de ultrapassado.

Que mãe é esta que não o é? Que sentirá ao saber que aquele ser que cresce dentro de si não lhe é nada, porque o vendeu? Que pai é este que quer o produto final sem os inconvenientes dos entretantos? Que relação pode existir não havendo contacto? Estaremos a caminhar para robots? Esta mãe é uma espécie de “fábrica de parir” e não um ser humano. Não quer saber de sentimentos, porque esses atrapalham as transacções comerciais. Chega ao fim, entrega o produto e volta tudo ao normal. O que quer que isso seja. Normal. Ou recomeça.

Não sentirá remorsos pelo que fez? Foi paga, mas os filhos não são mercadorias. Ela foi somente o suporte, o recipiente onde a massa levedou. Como se um filho fosse algo que se faz por medida, com pesos certos e aferições a toda a hora. E o pai não tem interesse em acompanhar o desenvolvimento do seu filho? Pode tornar-se perigoso, porque pode criar laços e os sentimentos são para fracos. Tudo à distância como se fosse virtual. A diferença aqui é que é real.

Pode alegar-se que as mulheres que decidem ser mães independentes fazem o mesmo. Não é verdade. São elas que o carregam, que falam com ele, que sentem as suas mágoas e vivem as suas dores. Não o vão entregar por um punhado de dólares. Cuidam-no e asseguram-se de que não lhe falta nada. Uma mãe ou um pai quer sempre o melhor para o seu filho e esforça-se para o conseguir. As hormonas controlam o tempo, provocando um saudável descontrolo de tudo. No final, tudo compensa, porque a emoção e o amor que se sente é grandioso e único. As dores ficaram apagadas.

Que comprarão com esse dinheiro de sangue que as afasta de pedaços seus? Que satisfação poderão conseguir por inventar uma vida? Tantas mulheres que engravidam sem o quererem, tantas que não conseguem engravidar e algumas que fazem disso uma profissão, um negócio muito rentável que inclui anonimato. Porque será? Se fosse algo de muito bom, de humano, andariam de cabeça levantada, mas no seu íntimo sabem que são condenadas por si próprias. A pior das consequências e castigos. Quase como que um linchamento.

As novas mulas limitam-se a transportar as suas cargas, afastando-se dos olhares alheios e desconfiados, que podem ser incomodativos. De quem é o filho? Todos os juízos de valor podem ser feitos. Ao final do contrato, quando o produto está terminado é, então, entregue a quem soube negociar. O deleite e o usufruto será desse, tal como as drogas trarão bom dinheiro para os traficantes. Quem consome beneficia e o pai de compra exibirá o seu filho como um troféu conquistado sem o mínimo esforço. A mãe, essa, felizmente não é exterminada porque pode ainda voltar a ser necessária.

Tags
Show More

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: