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As mil e uma odisseias: do liceu ao mercado de trabalho

Andamos uma vida inteira a ser incutidos pelos nossos progenitores para apostarmos num futuro melhor, possivelmente aquele que lhes foi privado e que tantas vezes acabam por ser os seus próprios sonhos que nos são projectados, na esperança que sejamos nós a vivê-los. Até ao secundário, a coisa é feita com relativa ligeireza e animo leve, mas é quando se chega ao final do 12º ano que começa o martírio. Naquele momento, temos que decidir o que queremos ser, quando formos grandes.

Existem aquelas pessoas que sempre souberam aquilo que queriam fazer das suas vidas. Depois existem os mais confusos, os indecisos, que não sabiam o que escolher. Eu era uma confusa. Para esta classe estudantil, havia (e há) a opção de serem feitos testes psicotécnicos, na busca da iluminação que motive a escolha (ou que a justifique). Por norma (e mais uma vez dou o meu exemplo), tinha aptidão para as duas áreas entre as quais me sentia dividida. Como fiquei exactamente na mesma, elevaram-se as vozes: “a área X tem mais saída e olha que na Y não há emprego. Depois, vais fazer o quê?”. Todo um linchamento de cabeça, que não nos deixa pensar por nós. Na dúvida, caímos na influência. Naquela altura, somos ainda muito novos para decidir aquilo que queremos verdadeiramente fazer.

A escolha acaba por ser feita. Durante os primeiros anos pode residir a dúvida, existir aquela voz do “e se?”, mas começamos a integrarmo-nos na nova universidade e na nova turma e, de repente, estamos acomodados, na nossa zona de conforto. Afinal, se também tínhamos aptidão para aquela área, mal não há-de correr.  Com o passar dos anos e das borgas académicas, começamos a ganhar juízo e a pensar que a média contará um dia para o mercado de trabalho. Esta tomada de consciência traduz-se em melhores notas, num crescimento pessoal que se apelida de maturidade.

Optamos por um mestrado, de uma forma mais consciente do que a escolha da licenciatura, porque, para além de nos conhecermos melhor, já percebemos aquilo que queremos. De qualquer forma, já não temos opção, se queremos exercer a profissão, que remédio temos senão seguir para mestrado. Fomos apanhados em Bolonha e que em nada se relaciona com pastas italianas, que até mesmo essas já foram ocidentalizadas.

As mil e uma odisseias do liceu ao mercado de trabalho_3Findos os 5 anos de estudo, ou 6, ou 7, dependendo das vidas de cada um, ou mesmo de um estatuto trabalhador-estudante, arregaçamos mangas e vamos à procura do trabalho que escolhemos um dia, quando pensámos no que queríamos ser quando fossemos grandes, agora que efectivamente o somos. O antigo jornal foi substituído pelos motores de busca e neles vivem, diariamente, os milhares de formados de todas as áreas, que neles depositam as suas forças em busca de uma oportunidade. É aqui que começa a saga, um misto de drama, comédia e um pouco de terror, mas, sem dúvida, uma sequela sem fim.

Oportunidades de estágios curriculares, ou seja, não remunerados, são ao pontapé. Contudo, é do interesse micro (individual) e macro (sociedade) que a malta saia de casa e tenha condições para pensar em ter filhos, com vista ao aumento da taxa de natalidade deste país, que é cada vez mais envelhecido. Excluídos os curriculares, até porque esses em muitos dos casos são obrigatórios no mestrado, surgem os profissionais com ajudas de custo, qualquer coisa entre os 150 e os 200 euros. Arrisco a dizer que esta bolsa, se assim se pode chamar, é para pagar a deslocação e o almoço, quando o novo posto de trabalho não permite a marmita. Temos também a opção do almoço baguete, para aumentar a taxa de obesidade, nunca me tinha ocorrido, mas quem sabe poderá ser uma opção a considerar.

Em busca de um bocadinho mais, lá vamos nós para as filas do Centro de (des)Emprego, para termos um cartãozinho com um numerozinho que nos habilita a estágio profissional, ao abrigo do IEFP. Porém, até este foi afectado pela crise. No chamado “tempo das vacas gordas”, era estágio para equivaler a dois ordenados mínimos nacionais. Hoje, feitos os descontos, anda na casa dos 600 euros e, como se ouve dizer, “já vais com sorte”.

De repente pensamos: “bolas, tenho competências para mais, para um trabalho remunerado e com direito a contrato sem termo, era mesmo bom” e vai de procurar. Eles existem, mas a maioria pretende pessoas entre os 25 e os 30 anos, com a respectiva formação para a área da vaga e entre 2 a 5 anos de experiência na função. Ora, façamos contas: alguém que comece a faculdade com 18 anos e, sem falhar um ano, acaba-a com 23. Se tiver uma grande sorte, ou um grande tacho, pode começar logo a trabalhar e poder dar-se ao luxo de ficar nessa empresa tempo suficiente que lhe confira tais anos de experiência. Contudo, a realidade não é essa. Muitos dos estudantes universitários são trabalhadores-estudantes, porque ou os pais não podem pagar as propinas, ou não querem subcarregá-los com essa despesa, ou simplesmente querem, de algum modo, a sua independência financeira. Estes jovens são exactamente os mesmos que também têm direito a viver a sua juventude, a vida académica, o pacote inteiro da experiência e não devem ser crucificados caso o término da faculdade não seja em 5, mas em 6. Faz parte de viver-se a vida, por muito que aos empregadores possa parecer estranho.

Na análise de certos pedidos de recrutamento, o que mais aborrece já nem passa pela experiência, mas pelos requisitos que vão desde ser-se o mais poliglota possível, requisito que é tantas vezes solicitado a tom preferencial, mas em jeito de “já foste, se não és”. O domínio de todo o tipo de ferramentas específicas, algumas delas nunca antes estudadas em contexto universitário, nem tão pouco já se ouviram falar. A viatura própria, disponível ao serviço da empresa, como factor eliminatório (juro que já vi isto em anúncio para estágio curricular). Isto resume-se a um ponto bastante simples e crucial: se nenhuma empresa der uma oportunidade de trabalho, jamais teremos 2, ou 5 anos de experiência. Mesmo com os estágios, sejam eles de carácter curricular, ou profissional, a sua duração ronda os 12 meses, se a crise ainda não cortou nenhum, 12 meses ainda são um ano. Um ano não são 2 nem 5, portanto, durante quanto tempo vamos andar a fazer estágios até ter as ditas competências, consideradas ideais e eliminatórias para integrar, verdadeiramente, uma empresa? Vivemos mesmo todos na mesma realidade? Das duas uma, ou para estes anúncios já o/a têm fisgada, ou procuram constantemente pessoas sobredotadas e QI’s acima da média.

Por fim, temos os jovens que estudaram e trabalharam e que tiveram a sorte de conseguir um contrato efectivo, na empresa com aAs mil e uma odisseias do liceu ao mercado de trabalho_1 qual conciliaram os seus estudos, mas onde também investiram, colocando-a muitas vezes como prioridade, quem sabe não fosse uma oportunidade de futuro. Os anos passaram e a posição é a mesma, senão inferior. Sobe-se na categoria, nem por isso no ordenado. A rotatividade de postos é feita entre chefias e não dá oportunidade aos colaboradores que são tão, ou mais capazes e são eles que fazem a empresa funcionar. Com mentalidades fechadas, estagna-se o crescimento. Mentes novas geram ideias novas, sejam elas académicas, ou não. As empresas não são negócios de família e os tachos são utensílios de cozinha. A solução? Ou ficamos em casa dos pais até aos 30 (ou mais), ou deixamos Portugal envelhecer e vamos ser reconhecidos para outra freguesia.

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Sara Pereira

O que me define não é a formação académica ou estudos complementares.
Sou isto: nem mais nem menos que alguém, mas ninguém é igual a mim. Sou única, com os meus defeitos e virtudes.
Sou complexa e simples ao mesmo tempo. Por vezes complexa nas alturas em que deveria ser simples, nunca ocorre no tempo certo ou na medida exacta. Sou descomedida na medida do equilibrado. Sinto muito mas esqueço depressa. Apaixono-me constantemente pela paixão e sofro desilusões assolapadas. Cada dia, mais que em qualquer outro tempo, tento equacionar que não é nem será a ultima vez que as sofro e assim aprendo a senti-las menos.
Sou sonhadora e vivo a sonhar com um mundo que seja um lugar melhor para nós. Gosto de viver alienada desta dita realidade que me rodeia, para não sabotar quem sou. Sou uma alma em constante desconstrução para que me possa continuar a construir. Tenho eternas perguntas que nunca serão respondidas.
Gosto de escrever. O que me falta na comunicação verbal, compenso na escrita. Gosto da fluidez das palavras, do peso que podem adquirir, da maneira como podem tocar, do significado escondido que podem ter. Para além do que dizes ser óbvio há sempre mais, se escolheres ler-me. E quando verdadeiramente me lês, sou isto: nem mais nem menos, mas feliz por ser assim.

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