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As mães

Todas as mulheres querem, numa dada altura da sua vida, ser mães. Não é necessariamente verdade. O instinto maternal e cuidador pode desenvolver-se de várias maneiras diferentes, mas nunca descurando a ideia de que o ser, pequenino, necessita de quem o ampare. Mãe não é só aquela que gera a criança, que a tem no seu interior, que a projecta nos seus planos futuros, mãe é quem cria, quem cuida, quem prevê o necessário e o essencial para o rebento. Mãe é amor puro, mostrado de modo tão diferente, mas sempre com intensidade. No entanto, serão as mães todas iguais? É óbvio que não e vamos olhar para alguns tipos de progenitoras para melhor entender a prática da maternidade.

A mãe clássica

Desde menina que começa a fazer planos para a maternidade. Quando for grande quero ser mãe. Tem uma enorme colecção de bonecas que resistiram à passagem dos anos, onde praticou a actividade que lhe dava tanto prazer. Tinha decidido ter 3 filhos e o mais velho seria um rapaz. No Natal pedia sempre uma boneca e cada vez mais realista. Um dia, na adolescência, conhece o tal rapaz e começam a namorar. Fazem planos de futuro e depois de acabarem os cursos, casam-se e no ano seguinte têm o 1º filho. Ele concorda desde que ela fique em casa a cuidar dele. Combinado. É uma boa aluna, mas não quer seguir a profissão, pelo menos no início. Quer ser mãe cedo para depois ser uma avó ainda com muito bom aspecto.

Noiva durante anos e os planos de casamento são levados até ao expoente máximo. Nada pode falhar: a igreja, a música, a decoração, o copo de água e o vestido que é logo desenhado na adolescência. O dia do casamento é memorável e na lua de mel fica logo grávida “por acidente”. Passa a gravidez a falar com o menino e a dar-lhe instruções. Ele isto, ele aquilo e tudo vai correr bem. Vomita imenso nos primeiros meses, mas não se importa. É o preço a pagar pela felicidade. Sofre horrores durante o parto, mas sente-se recompensada, porque o menino nasceu perfeitinho e lindo.

Ao menor espirro vai a correr ao hospital ou telefona ao pediatra. O menino é de cristal e pode partir-se. Quase não dorme para ter a certeza que o bebé está a respirar. O mundo é o seu bebé. Tem a roupa suja de leite e nódoas de sopa, mas não se importa. A sala é um labirinto de brinquedos, mas está contente. Depois chegam os outros filhos e torna-se menos dramática e mais ponderada. Tem um ar um pouco apatetado de tanto benefício que retira da actividade que exerce: mãe a tempo inteiro. Gosta da barriga grande e pensa que encontrou a sua vocação.

Um dia acorda e percebe que os filhos, os 3, cresceram e que já não precisam dela como antes. Fica desorientada e decide ir procurar trabalho. Não consegue, porque não tem experiência, só idade. Torna-se ama e prolonga a maternidade até muito tarde. Mais tarde, fica com os netos e veste-lhes as roupas dos pais, que guarda, amorosamente, no baú do sótão. Trata o marido por Pai e são os dois muito felizes assim.

A mãe moderna

É uma rapariga desempoeirada que se apaixona pelo rapaz mais bonito da rua. Namoram, mas não dá certo. Ela é muito avançada para ele.  Separam-se, mas fica-lhe a mágoa. Mais tarde encontra alguém que a acompanha nos seus voos e casam. Querem ter filhos, mas não ainda. Gostam muito um do outro, mas têm profissões exigentes. Vai ao ginásio e cuida de si. Faz uma alimentação saudável para se manter em forma e na perfeição. A casa é muito minimal e gosta de receber os amigos. Tem por hábito sair com as amigas e beber sem restrições. Deixou de fumar, porque se sente enjoada e ainda está um pouco enervada com a atitude. Parece presa por arames.

Sem dar conta, ela e o marido, vão-se afastando e chegam à conclusão que o melhor é separarem-se. Mais tarde divorciam-se. Ela fica com a casa, porque ele é um cavalheiro e a vida continua. Um dia encontra a paixão antiga, o rapaz que não desenvolvia. Agora é um homem e também acabou de se divorciar. Vão jantar os dois e a chama reacende-se. Ao fim de pouco tempo, não passam um sem o outro. Ela engravida e ficam os dois muito felizes. Desenham corações na barriga, tiram imensa fotos, enchem o Facebook de mensagens amorosas e vivem numa nuvem de felicidade.

O bebé nasce e repartem as tarefas. Ele é um pai presente, muda as fraldas, dá banho e o biberão. Ela volta para o ginásio e quer ficar em forma muito rápido. Não dá de mamar, porque não tem leite, mas não se sente diminuída por isso. No fim da licença de parto, vai trabalhar e deixa a criança no infantário. No primeiro dia, sente-se culpada e telefona de hora a hora, mas depois aceita a condição e segue em frente. No regresso a casa mima muito a criança que vai crescer forte, porque ela não cede nem a birras nem a caprichos. Ela faz o jantar e ele dá banho ou vice-versa.

É adepta da escola pública e no 1º ciclo deixa o miúdo entregue a si próprio. Pergunta-lhe o que aprendeu e confere os trabalhos de casa. Continua a vestir-se como jovem que é e, mais tarde, o rapaz tem vergonha, quando vai com ela na rua e sente os olhares dos homens. A mãe é atraente. Não interfere nas escolhas, mas orienta-o. O pai quase que chora ao perceber como o tempo passou.

Um dia chegam a casa e o rapaz está no quarto com a namorada. Ao jantar a mãe oferece preservativos ao filho e fala abertamente com ele. Têm uma relação adulta e sincera. No dia em que vai para a sua casa, os dois suspiram de alívio e voltam a ter a casa só para eles. Passam a andar nus e o sexo é a toda a hora. Esqueceram-se de que ele ainda tinha uma chave de casa e um dia são apanhados em flagrante. Divertem-se imenso.

A mãe motard

Aos 12 anos troca o triciclo pela mota do irmão mais velho. Anda sempre à pendura e quando tem idade tira a carta com a maior das facilidades. As duas rodas são o seu vício. Participa em todas as concentrações e, por fim, torna-se da organização. A última vez que usou um vestido foi no casamento do irmão e porque a obrigaram. Nunca larga os blusões de cabedal e as calças. Tem um andar característico. É livre e descontraída.

Um dia fica grávida e contente. O puto vai ser a sua companhia. Já visualizou tudo. Entretanto lembra-se de dar a notícia ao pai e ele fica radiante. Passa a gravidez a andar de um lado para o outro para a miúda se ir habituando. Quando nasce, de cesariana, porque estava sentada e não dava a volta, as visitas levam-lhe prendas – casaco, calças e capacete infantis. Já tem a sina lida: vai ser como os pais! E a rapariga cresce saudável, viajada e cheia de tios e tias, entre blusões, coletes, capacetes, botas e pulseiras com tachas. Vai para a escola vestida de maneira diferente dos outros e a primeira palavra que diz é mota e fazendo o movimento completo. É destemida e não tem medo de nada. A mãe é descontraída, mas atenta.

Como a habituou aos saltos, a menina dorme sempre muito bem. No infantário ensina os outros a andar e no 1º ciclo domina o Estudo do Meio, porque já conhece vários países. A mãe tem a secreta esperança de um dia casar e ser a pequena a levar as alianças. Teria de ser num dia de sol, mas com nuvens, numa moto com sidecar e a miúda ia numa moto acoplada, com uma coroa de flores e um blusão bordado. O dia acontece e todos vão vestidos a rigor, de uniforme motard, mas com um lenço especial, tem os 3 bordados na ponta. É o delírio!

No 2º ciclo ela é craque em Inglês, língua que todos os amigos dos pais falam e no 3º ciclo sabe mais de Geografia que os professores. Também tem grandes discussões com os professores de Físico-Química e de Ciências. É uma entendida.

A mãe nunca mudou a indumentária, mas fala sempre com a filha abertamente e deixa-a à vontade para explorar o mundo. O pai anda com ela às cavalitas quase até aos 15 anos, altura em que percebe que ela cresceu e que conduz muito bem. Também repara que é uma mulher atraente e que tem de vigiar a garota. Cresceu que se fartou e é mais alta do que os pais, mas isso é motivo de orgulho. A mãe só não quer que ela faça alguma coisa que se arrependa e, todas as noites, sem ninguém perceber, chora desalmadamente. Então, não é que a rapariga teve o desplante de crescer num instante?

A culpa foi da moto e das viagens, que ficou tudo mais rápido e sem retorno. Duas vezes por ano vem a casa, no Natal e nos anos, sempre com um namorado ou uma namorada diferente. Ela não quer prisões. É piloto profissional e vive, habitualmente, na Suíça.

A mãe ansiosa

É aquela menina que vive debaixo da saia da mãe e das tias. Parece velha, quando ainda é nova, porque só faz o que lhe dizem e não sabe usar a cabeça. Raramente sai a não ser que seja necessário. Na escola tenta passar despercebida, mas é estudiosa, porque é a sua obrigação. Veste-se sempre com cores neutras, saias rabonas e camisolas sem graçinha nenhuma.

O pai tem um casal amigo, com o filho da idade dela, que se visitam frequentemente. O rapaz é um caniço desengonçado, borbulhento, mas craque naquelas coisas que ninguém percebe. Ela sorri para ele e começa a sonhar com um casamento de vestido branco, numa charrete, cavalos lindíssimos e outros delírios relacionados com o tema. Tudo isto sem tomar alguma substância ilícita. Em estado natural. Depois de acabar a escola vai trabalhar para o escritório do amigo do pai e o filho dele vai para a Universidade. Ficam noivos. O namoro e o noivado passam-se do mesmo modo, em casa, com todos presentes e eles a suspirarem um pelo outro.

Depois do noivado ele dá-lhe a mão e ela sente o coração a bater muito. Querem manter a virgindade e só a consumarem no casamento. Tudo é tratado pela família e a casa deles é uma cópia das casas dos pais. O casamento é celebrado e dura até de madrugada. Eles partem de lua de mel, oferecida pelos pais, para a Madeira. Ficam sozinhos pela primeira vez e a noite de núpcias é um desastre. Ficam envergonhados e tentam no dia seguinte. Só ao quarto dia é que o casamento é consumado e fertilizado, porque ela não percebe nada do assunto e aquele era o período fértil.

Todos satisfeitos passam a gravidez a falar baixinho, em surdina e com pezinhos de lã. Nunca mais têm contacto físico com medo de magoar o bebé. A mãe passa horrores, indisposições e vómitos e tem imensos pesadelos. Chora sem motivo, mas as hormonas são mesmo assim. Um dia confidencia à mãe que estava muito triste, porque iria perder o menino. “Perder? Mas como? Ele ainda nem nasceu! Sim, mãe, mas um dia ele cresce e vem uma sujeita qualquer, uma malandra e fica com ele.” E não pára de chorar. Sofre por antecipação. O bebé nasce, de parto normal, com imensas complicações, porque a mãe é uma atadinha e não queria fazer força com medo de se bufar. A partir daquele momento nunca mais dormiu em condições, com receio que o menino deixasse de respirar ou sofresse de morte súbita.

Fica cadavérica e desleixada, não se volta a arranjar a menos que tenha que ir com o menino ao médico, que são muitas vezes. No hospital já nem lhe ligam nenhuma. É Verão e o menino usa 3 camisolas, gorro e um casaco. Não quer voltar a trabalhar para acompanhar o filho, mas o marido tira-lhe a ideia. O filho fica na casa dos avós e telefona de hora a hora. Ao fim do 1º mês entra em profunda depressão e considera-se a pior mãe do mundo, não se acha capaz de cuidar dele e odeia-se. O marido, impelido pela falta da utilização da líbido dela (e dele, claro), procura outras paragens e tem de “fazer serão”.

A mãe, agora medicada, engorda e torna-se irreconhecível. O rapaz já tem 6 anos e é tratado como se fosse um atrasado mental, não dá um passo sozinho e ainda não sabe usar nem os talheres e muito menos a casa de banho. Passa a maior parte do tempo sentado no bacio. O primeiro dia de aulas é um tormento para os dois. A mãe não aguenta e sai do escritório para ver se está tudo bem com ele. Leva-o mais cedo. Chorou o tempo todo. Amanhã também é dia. Isto prolonga-se até ao 2º ciclo, quando o pai decide intervir. “Homem, ele ainda é tão pequenino. Não o forces! Tem de crescer!” E toca de o encher de comida até ser totalmente obeso, gozado pelos outros e intolerado.

O menino nunca se vai desenvolver completamente. Aos 15 anos ainda usa calções e tem medo de andar sozinho. Aos 40 anos ainda vive com os pais e a mãe fala sempre dele como um exemplo, um excelente filho. O pai, entretanto, arranjou umas amigas coloridas que o deixam mais bem-disposto e já não quer saber de nada.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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