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As mães não vivem para sempre

É cruel, mas a única certeza que conseguimos ter, mal nascemos, é que a vida um dia acaba. A minha. A tua. A deles. A de todos. Ninguém fica cá.

Desde cedo que a minha mãe me diz, entre outras coisas, que as mães não vivem para sempre. Quando era só filha, confesso que não dava muita importância à afirmação. Agora que sou mãe, repetidamente vejo-a de outro modo.

Não, não tenho medo de morrer – ou partir, para ficar mais bonito de ler, mas a verdade é crua e vou morrer – mas assola-me a possibilidade dos meus filhos não criarem memórias comigo.

Quero deixar-lhes um legado dos meus valores e a possibilidade de me recordarem nas coisas pequenas, para ter a certeza que, contrariando a lei da vida, eu viverei após morrer.

Bolachas. Amamos fazer bolachas fáceis e simples.

Juntamos manteiga, farinha e açúcar, formamos bolinhas e vão ao forno. Seria simples se fosse só isto, mas não é.

Cada bolacha é a criação de uma memória que os meus filhos poderão revisitar, quando quiserem. “Eu sei que mais ninguém faz as bolachas como tu, mãe. És a melhor cozinheira do mundo.”

Conforme vão crescendo, as bolachas que preparamos aos fins-de-semana, vão-nos acompanhando, assim como eu.

Eles não sabem, mas sentem sem que lhes diga, que a preparação que permite não haver mais nenhuma igual às que amassamos, criamos e moldamos só acontece, porque estamos juntos. Porque é, na verdade, um tanto de (mais) amor que lhes dou.

Porque nas alturas em que estamos todos na cozinha, as birras param – ainda que por poucos minutos – e brota-me um orgulho desmedido nos filhos que tenho. Choro, no meu âmago, dentro do limbo entre o êxtase de vê-los e o medo de partir sem lhes deixar memórias. Gravo cada ar sério, quase profissional, que colocam ao enrolar cada pedacinho de bolacha, enquanto a passam por açúcar. Admiro-os quase a dançar entre a colocação das bolachas no tabuleiro e o voltar a passar a seguinte por açúcar.

É felicidade quase plena.

Quando me perguntam (e perguntam muitas vezes) como é que tenho tempo para isto, eu respondo sempre: “É porque vou morrer.”

Não, não sei quando será nem como. Sei que vai acontecer e que a isso não consigo fugir.

Sei também que não é a escrita que me permitirá continuar eternamente na vida dos meus filhos. São as memórias. Preferencialmente as boas. Se forem açucaradas, como as bolachas, ainda melhor.

É tão simples que, depois de eu morrer, eles conseguirão replicar a receita. O ingrediente principal, acompanhá-los-á sempre: o Amor. Aquele que erguemos e construímos em conjunto.

No fim, saberão que não são eles que são meus. Sou eu que sou deles. Para sempre. A mãe.

Sofia Fonseca Costa

Nasceu numa quarta feira de Novembro, no ano 1984, mas não gosta de meio termos. Desde que se lembra que quer ser escritora e mãe. Dizem que no canto do seu sorriso mora um arco-íris. Vive para as palavras e afectos. Não gosta de chocolate. É formada em jornalismo e fez teatro durante mais de uma década. Mãe de quatro filhos a quem chama de Soneto. É autora do livro Murmúrio Infinito. Chamam-lhe Sofes Marie.

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