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As delícias da gravidez

Estou grávida e estou em pânico. Não propriamente por esta ordem, mas é a minha situação. Gerar uma vida não é fácil, não me lembro de ter ouvido que o era, mas saber que tenho esse poder, essa capacidade, eleva-me a um patamar que desconhecia. Sinto-me uma super mulher, alguém que pode realizar uma tarefa que os outros não conseguem. Claro que há mais mães, muitas mesmo, mas agora interessa é o meu papel e o desempenho que se avizinha longo e profícuo.

Percebi que havia algo de diferente em mim, uma sensação complicada e difícil de descrever. Não estava nem maldisposta nem indisposta. Era assim como que uma sensaçãozita que dizia que estava lá. Incomodava e vinha de baixo para cima. Não chegava a vomitar, mas tudo me enjoava e, para ser verdadeira, até me custava a aturar a mim mesma.

Acho que bati o recorde de corrida para a casa de banho e depois, falso alarme. Aquela forte sensação de desconforto não me abandonava. Como era normal, pensava que devia ter sido alguma coisa que tinha comido. Não foi exactamente o que comi, mas mais o que introduzi, por outra via, como rapidamente entendi. Quando acalmava, o arranque do vómito, sentia-me calma e depois, sem mais nem menos, voltava e dominava-me duma forma tão irracional que até chorava. Que raiva!

Um dia ele saiu, sem aviso prévio, rápido e violento. Estava sentada à secretária, com umas terríveis olheiras que me enchiam toda a cara e o meu colega gozava comigo. Perguntava-me se eu tinha feito figuração num filme de zombies. Era pouco mais ou menos como eu me sentia. Nem o Triller do Michael Jackson me fazia rir. Tinha que saber o que se estava a passar com o meu corpo, que escapava ao meu domínio e vontade. Foi então que, num passo doble da garganta, a mesa ficou cheia de uma grande substância pastosa, mal cheirosa e repleta de não sei o quê.

Primeiro senti-me mal, depois envergonhada por ter acontecido no estúdio, em frente a toda a gente e não o ter podido evitar e finalmente saltou-me um sorriso para a cara, que fez encolher aquelas olheiras doentias. Estava grávida! Devia estar linda, sim! Toda babada do vómito manhoso que se tinha libertado, as olheiras a fazerem sinais de luzes para todos e a mesa toda nojenta. Porém, sentia-me tão feliz!

Era um Kinder surpresa que se estava a formar, aquilo que eu tanto desejava, que fantasiava desde miúda, estava finalmente a acontecer. Devo ter feito uma cara tão idiota que todos olharam para mim com ar de condescendência. Voei! Atingi uma altura que pensava impossível de conseguir, ao lado dos anjos, onde a reunião semanal era feita. Naquele concílio tinha saído a minha senha e eu ia receber o prémio.

Se já estava que nem podia com qualquer vulgaridade então passei a ficar incomodada com qualquer pintelhice. Até o respirar do meu colega incomodava a minha concentração e os olhares de cada um, davam-me dores de cabeça. Claro que não era nada disso, mas, naquela altura, vivi o momento que ouvia sempre comentar. Estar grávida é um outro nível!

Levantei-me, fui buscar um rolo de papel e limpei a secretária. Trouxe o detergente, que largava um odor tão forte e prolongado que parecia ter ali um estádio de futebol e deixei tudo como devia ficar. Olhei para todos. Estavam em estado de choque. Ninguém falava e pareciam peixes, a abrir e fechar a boca,. O que vale é que não se afogavam com o ar. Olha se fosse…

Soltei um “Qué que foi? Nunca viram uma gaja grávida? Aguentem-se que ainda vai durar.” Lembrei-me logo que a mãe que vomita nos primeiros meses de gravidez está a libertar as toxinas prejudiciais ao bebé. Já estava a trabalhar no assunto. Só esperava que não fosse tão complicado como ouvia falar. Isto de vomitar todos os dias, de andar enjoada e de difícil trato não é para mim.

Foi então que tomei a total consciência do que estava a dizer: grávida. Ai que medo! E agora? Tinha que me acalmar. Fácil de dizer, mas muito difícil de conseguir. Estava em estado de nem sei o quê. Tinha que lhe dizer, mas queria que fosse duma maneira muito suave para ele não se assustar. Não é que ele não quisesse ser pai, nada disso, era um desejo comum, mas a realidade supera sempre aquilo que se deseja ou planifica.

Como é que lhe havia de dizer? Tocou na barriga. Sentiu alguma coisa. Disparate! Era só da sua cabeça. Ainda a ervilha não dava sinais de nada, era só a sua imaginação a funcionar. Sentiu uma sensação diferente, não sabia explicar o que era. Ia ser mãe e esse estado mudava muita coisa. Mudava tudo! De dois passavam a três e a vida mudava.

Os colegas olharam para ela. Sorriu para eles. Grande doideira que ia ser. Ela já não era muito certa, como lhe diziam sempre, com uns parafusos sempre a saltarem, então agora é que a coisa ia ficar num manicómio completo, total e absoluto. Já imaginava a mesa cheia de peluches e coisas fofinhas para se ir preparando para a chegada do seu rebento. Livros sobre o assunto e depois debates acessos com todos os que se cruzassem no seu caminho. Ia ser lindo ia.

Saiu da sala. Precisava de apanhar ar. Tem piada que o ar puro ajuda tanto! Puro é uma forma de dizer, porque as cidades estão tão poluídas que a expressão ar puro é uma perfeita contradição. Era um ar não tão viciado como dentro do estúdio até onde as luzes poluíam a sombra. Respirou, respirou outra vez e à terceira vez, não respirou, vomitou. Mau! A coisa estava a ficar complicada. No chão estava um monte de porcaria que ela não sabia de onde vinha. Já tinha vomitado tanto e ainda havia alguma coisa para sair? Se ia ser assim seria um suplício.

Voltou para dentro. Lavou a cara. Olhou para o espelho. Que cara! Que horror! Ela que tinha tanto trabalho a fazer a caracterização das personagens, tinha-o conseguido sem nenhum esforço. Ali estava uma tipa, com um péssimo aspecto, a olhar para ela, nos olhos e a ler o seu mais profundo. Que porra! Muita base teria de ser aplicada, então não? Contudo, tudo valia o contratempo, porque o ovo estava numa casa muito especial.

E, de repente, assolou-lhe a ideia da próxima etapa, a seguir aos enjoos e vómitos, que já estava a viver em pleno, vinham os desejos. Aquela coisa que é apetecer comer sei lá o quê, como carne de corvo ( pobre do bicho ), às 3h da manhã ou esfregão da loiça com coco. Este, pelo menos seria mais fácil de contentar, independentemente do nojo que possa causar. E doces? Ela nem gostava de doces, mas diziam que era um tema corrente. Ai, ai…

Ao baixar os olhos reparou no peito. Estava tão grande! Como é que ainda não tinha percebido? Andava a dormir na forma, pois claro! Pareciam umas vasilhas gigantes que apontavam para o céu. Ó céus! Que vocativo tão apropriado para o momento. E se isto era o início como seria para o fim? A barriga ia crescer até ficar impossível ver os pés e a mobilidade ficaria afectada. Pois, pois, agora é que vai ser lindo. Ia ficar enorme, não caberia em nenhuma das suas roupas e teria de ter sempre uma casa de banho perto para as olimpíadas da bexiga.

Bateram à porta. Estás bem? Precisas de alguma coisa? Ela precisava de voltar atrás no tempo e ter tido mais capacidade de preparação. Agora estava feito e não havia volta a dar. O tempo de espera incomodava-a. Serve para as alterações serem feitas, gradualmente, para toda a casa ser arrumada e haver espaço para o que é importante. O lixo desaparece dando lugar ao essencial que vai sendo preenchido com tudo o que lhe faz falta. Estaria preparada?

Olha que eu abro a porta, ouviste? Que disparate é esse? Saio já. Abriu a porta. Estava a rir. Que bom! Chegou a vez de me perpetuar, de prolongar aquilo que penso ser importante. É a dois, metade de cada parte, uma esfera cuja tampa se torna estanque, um coração que se encosta e fica completo. Tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo e a cabeça a andar mais rápido que a realidade.

Decidi ir embora para casa. Estava tão desconcentrada e aluada que não valia a pena continuar por lá. Estava um fim de tarde espectacular. Sentei-me na esplanada. Ia beber um chá para aliviar a minha criança. O chá bebe-se em pequeno, não é? Ia começar naquele dia mais intensamente. Ainda bem que gostava daquela bebida, que considerava reconfortante e culta. Uma bebida quente sabe sempre bem e acalma os nervos.

Deu voltas e mais voltas à cabeça. Como é que lhe iria dar a notícia? Claro que tinha que ir ao médico, ver se estava tudo bem, mas ela sentia-o e sabia qual era a origem de todas aquelas hormonas malucas, aos pulos e aos pontapés. Tinham de ser educadas, o que implicava um esforço acrescido. Elas mandavam, ela mandava, elas não obedeciam, ela obedecia.

Dali a uns tempos, que seriam curtos, porque o tempo voa a alta velocidade, num TGV especial, ouviria o som de pézinhos no chão, a andarem de um lado para o outro. Já sonhava. São os efeitos secundários. Fechou os olhos. Já sabia como se sentiam as grávidas, naquele estado de graça sem explicação aparente. Ela era uma delas.

Descobriu como lhe iria contar a notícia. Queria que fosse perfeito, não falhasse nenhum detalhe, porque ia ser uma bomba que rebentaria, cheia de cores luminosas, sonoras e cornucopiantes. Ia ser uma sensação maravilhosa olhar para ele e ver a sua reacção, o seu espanto e a sua alegria. Ocorreram-lhe tantas coisas, tantas parvoíces e disparates, mas, no momento, seria capaz de contornar o que acontecesse.

E lá voltou ele, estupidamente rápido num raide estrategicamente planeado: pumba! Saltou outro vómito, a nadar no chá quentinho que tinha acabado de tomar. O corpo tremeu todo, obedecendo ao seu impulso. Era uma espécie de dança macabra que a forçava a participar. Tudo inundado de restos da sua alma que se desfazia aos poucos. Cheiro horripilante, lágrimas que saltam para temperar o guisado.

As pessoas aproximam-se dela. Perguntam se está tudo bem, se precisa de ajuda. Precisa pois, precisa de desaparecer dali. Sentia-se uma nulidade. Deixava um rasto de mau viver à sua volta, no seu caminho. Os olhares que a rodeiam eram preocupados. Acalmou-os. Explicou o que se passava. Ouviu conselhos  que lhe poderiam ser úteis. Tão queridos. É mesmo verdade: a gravidez anula os maus sentimentos das pessoas.

Ia aproveitar ao máximo essa etapa da sua vida que se tornará num turbilhão de sentimentos, de desejos, de indisposições, de sonhos, de planos, de companheirismo, de amor. Por enquanto é só meu, mais logo vai também ser dele e vai passar a ser nosso. Que maravilha! Se ao menos eu pudesse partilhar estas inconveniências com ele ficaria mais aliviada. Isto é só o começo, eu sei que tudo ficará mais elevado até ao limite imaginável ou não.

No entanto, agora estou a vivê-lo, com a bipolaridade que isto tudo implica, Apetece-me água, tenho muita sede. O estômago diz que não, que vai voltar a sair, como um repuxo esganiçado e descontrolado. Bebo. Sinto-me melhor. Não saiu… por enquanto.

E o parto, como vai ser? A minha cabeça anda a 200 à hora, mas os meus pés estão parados. O que me acompanha é o estômago e os seus amigos fiéis. Vou vomitar, eu sei que vou, mas aguento. Ai, ai. Estou grávida e em pânico. Já não sei por qual ordem é que sinto a desordem que se instalou no meu corpo.

Boa! Estou grávida e….. brum, brá, glu…. saiu outro…

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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