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As cunhadas

O Sr. Farinha, dono da farmácia, tinha um casamento de longa duração com a D. Elvira. Muito simpáticos e atenciosos, viviam desafogadamente num apartamento cheio de coisas boas. Faziam inveja à vizinhança. Quando eles passavam na rua, eram cumprimentados, mas comentados. Tanta riqueza e nem um filho. A quem vão eles deixar a fortuna? Terão algum problema? Eles continuavam de cabeça erguida, como se não fosse nada.

A D. Elvira, pessoa pequenina e sempre trajada de modo discreto, era muito querida na mercearia, na retrosaria, no talho e nas outras lojas. Demorava-se sempre o tempo necessário para um dedo de conversa, mas nunca deixando entrar na sua intimidade. Um sorriso para um lado, um boa tarde para o outro e seguia a sua vida. Todas as manhãs seguia a sua rotina e nada a incomodava.

Cunhadas são unhadas e a D. Elvira e a irmã do marido pareciam dar-se bem. Sorriam uma para a outra, tratavam-se com gentileza e nunca se ouvia uma palavra rude ou menos correcta. Caso raro nestas situações. A D. Elvira colocava sempre água na fervura quando havia desacordo entre os irmãos e o assunto ficava arrumado.

Nunca tinham tido filhos e era motivo de falatório. Que se passará entre eles? Se por um lado falavam sem saber, actividade muito comum entre vizinhos, por outro nutriam uma certa pena de não terem sido bafejados com as alegrias que as crianças permitem. Coitados, devem sofrer muito com essa falta. Depois vinha o rol de hipóteses que estes especialistas costumam avançar.

Uns diziam que era a senhora que tinha uma aridez profunda e por isso era tão simpática com todos, outros aventavam que era ele que não cumpria a sua obrigação convenientemente. Gostavam de falar, mas eles viviam bem com esses comentários e continuavam a sorrir como se tudo fosse normal.

A cunhada era uma senhora com ar pouco feminino e era aquilo a que se chamava uma solteirona. O corpo pouco tinha de atraente, as roupas eram masculinas e o corte de cabelo muito curto. Encontravam a explicação para o seu estado. Visitava o irmão com regularidade e espalhava simpatia e delicadeza por todos. Depois comentavam que era bom para a D. Elvira que passava muito tempo sozinha.

O Sr. Farinha organizava lanches para crianças carenciadas e patrocinava vários eventos. Na verdade crianças era o que não faltava na vida deste casal que deliciava todos. Ofereciam lembranças e recebiam sempre tantas criaturinhas pequenas na sua casa que era uma alegria constante!

Nesses dias a cunhada ficava em casa deles para ajudar a organizar os eventos, para embrulhar as prendas e para arrumar os despojos do dia. Fazia parte da vida do prédio e do bairro. Por muito que se falasse, cada um ficava com a sua opinião e só muito raramente a libertavam.

A sorte é uma variável independente e um dia o Sr. Farinha não acordou. A seu lado dormia a D. Elvira, tranquila, como era seu hábito. Acordou e assustou-se. Ele não acordava! Levantou-se num sobressalto e chamou uma ambulância. Nada a fazer. O Sr. Farinha já não ia pagar mais nada. Essa responsabilidade ficava a cargo da sua mulher.

A cunhada mostrava-se impenetrável. Era do choque, diziam todos. Ainda tão novos e isto. Que horror! Que vai ser da senhora? Elvira chorava tanto que parecia não conseguir acalmar-se. O seu novo estado civil assustava-a, com toda a certeza. Habituada a que o marido tratasse de tudo, sentia-se inútil, triste e completamente desamparada.

O funeral foi grande, como se esperava. O Sr. Farinha era estimado por todos, respeitado pelos funcionários e amado pelas crianças que apadrinhava. Hoje perdemos um homem bom, uma alma grande e forte, um ser que nos vai fazer muita falta. Alguns fungavam e outros limpavam os olhos. Uma desgraça. Que seria agora da D. Elvira?

Nos primeiros dias todos se revezaram para acompanhar a viúva que carpia como ninguém. É triste quando alguém se vai sem aviso. A morte nunca foi agradável e ficar entregue a si própria seria um desafio tremendo. Depois a cunhada passou a ficar com ela mais tempo até que se mudou de vez. Os vizinhos, aquelas entidades sabedoras entendiam que era o melhor para a senhora.

Pouco tempo depois a D. Elvira abandonou o luto e saiu de casa. Tinham passado meses e a vida continuava. Esteve em recolhimento profundo durante demasiado tempo. Arejou-se e permitiu-se continuar a viver. Decidiu tomar conta do negócio. Inteirou-se do que acontecia e passou a ir às reuniões todas. Tornou-se uma excelente profissional em pouco tempo. O caminho era para ser seguido.

Em pouco tempo a viúva deu lugar à mulher bem resolvida e consciente da realidade. A cunhada não a abandonou. Sempre ao seu lado, dava-lhe dicas para o negócio, oferecia os seus préstimos para as decisões e apoiava-a em tudo. Foi uma peça fundamental no renascer de uma pessoa apagada e que passava despercebida.

Rapidamente a D. Elvira passou a Elvira e do mofo em que se tinha escondido, durante anos, surge uma nova personagem, assumida e pronta a enfrentar tudo e todos. Aquelas roupas características que usava desapareceram e as cores apoderaram-se daquele corpo ainda disposto a receber as alegrias que pudessem suscitar.

Um dia a Elvira mais a cunhada saíram do prédio. Arranjadas, produzidas, bonitas, cheirosas e atraentes. Chamaram a atenção de todos. As cabeças viraram-se e ficaram sem fala. Iam de mãos dadas, felizes e despreocupadas. Assumidas e determinadas. Caminhavam seguras e firmes. Entraram no carro e partiram.

Vejam bem! Agora é que se percebe porque não tinham filhos. Afinal o casamento era com ela e não com ele. Pobre Sr. Farinha que deve ter sofrido muito. Estou sem palavras. Não, nada disso. Se calhar era a três e foi assim que ele se finou. Aquela gente sempre me pareceu muito estranha. Não me diga… Acha mesmo? Como vai este mundo!

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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