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As autárquicas e a Democracia ferida

Dia 1 de Outubro de 2017. Um dia cheio. Um dia inesquecível para milhões de pessoas.

No dia em que a Catalunha votou no Referendo convocado sobre a Independência, Portugal votou para os órgãos de poder local. As Eleições autárquicas podiam ter sido mais um cumprimento de calendário político, não fora o facto de poderem ter constituído um marco, mais importante pelo que de negativo trouxeram, a mais de uma força partidária, do que pela incontestável vitória dos socialistas.

Da vitória do Partido Socialista, talvez não haja muito a comentar. Era expectável, era quase uma fatalidade.  O PS aproveitou bem, com toda a máquina partidária a funcionar, o momento baixo do PSD e as suas políticas pseudo-populares e pseudo pró-sociais.

Da mudança que aconteceu em algumas Câmaras, a favor do PS, haverá sempre que esperar e sempre que respeitar a vontade democraticamente expressa. Já sobre as razões de tal mudança, que começou quatro anos antes, em 2013, muitos irão ou deverão reflectir e, se alguém do ainda principal Partido com representado na Assembleia da República, PSD, imagina que não há qualquer necessidade de repensar políticas e atitudes, mais profunda será a ferida e mais o país sentirá a perda. Se uns imaginam que uma Democracia saudável prospera, social, mas também economicamente, sem um equilíbrio mínimo entre forças elegíveis alternativas, o equívoco poderá surpreender.

O PSD, com razão, tem apontado como chaga nacional a orientação política e de política económica e financeira do PS. Mas ocupar todo o tempo a lembrá-lo, foi um erro estratégico maior. Esse tipo de argumentação, pode sempre estar presente em conversas em círculos reservados, de famílias e amigos, mas não se devia, o PSD, deixar ter conduzido para tal forma de estar, tal saudosismo fútil. De um político que quer persistir como alternativa de Governo, espera-se uma atitude proactiva, a demonstração de possuir argumentos políticos distintos, como reserva para a alternância.

Passos Coelho cumpriu um mandato difícil, tendo exagerado em medidas de austeridade e se concentrado nos que não tinham fuga possível. Tentou proteger empresas e sectores investidores, numa lógica pro-liberal que a generalidade dos portugueses nunca aceitou. Quando ganhou as últimas legislativas, tinha com ele a descrença no Partido das bancarrotas, o PS, e a desconfiança num recém-eleito líder socialista sem provas dadas e algumas manchas na honestidade e lealdade, a par com atitudes de arrogância conhecidas em meios mais activos da política portuguesa, mas não universalmente conhecidas. Não teria sido assim tão difícil, se bem preparado, um líder como Passos Coelho fazer capitalizar em si alguma esperança, mesmo após ter sido injustamente substituído pela permissão constitucional, como Primeiro-Ministro, eleito por escolha dos portugueses e naturalmente indigitado. Contudo, um Partido como o PSD devia ter-se preparado para tudo o que de seguida se passou, antecipando-se, até pelo conhecimento adquirido do estado das Contas Nacionais. O PSD devia ter antecipado a tradicional demagogia socialista e há muito que devia saber como governa o PS, na base de contentar funcionários do Estado e todos os que do Estado vivem, ou dele precisam. Era tão fácil reverter tudo, após um duro programa de austeridade… e por uns tempos ainda continuará a sê-lo.

As eleições autárquicas parecem ter sido o somatório de erros acumulados de todos, menos dos que sabem sempre aproveitar momentos de melhoria das contas do país, como sempre, se excepção aconteceu. A impopularidade de Passos, não totalmente corroída durante a sua governação, não mais poderá ser recuperada. O seu Partido, de dentro, deixou de sentir segurança nele, confiança para recuperar um passado que já teve e capacidade política para lidar com a experiência de demagogia de António Costa. Todos devemos conhecer simpatizantes do PSD que se afastaram ou deixaram de acreditar nas potencialidades do seu Partido.

E, por uma comunhão de circunstâncias e qualidades intrínsecas, o CDS de Assunção Cristas beneficiou do momento depressivo e de falta de imaginação e inteligência do PSD. Se o CDS for gradualmente ocupando o lugar dos Social-democratas (que precisam provavelmente de o voltar genuinamente a ser, abandonando o liberalismo a quem o quiser assumir, mas fora do PSD, ou o risco de ser o PS a encarnação da social-democracia é bem real e preocupante, pois estarão os dois a perverter as suas bases e a iludir eleitores), ainda poderemos ter algum contraditório democrático que nos dê alternativas. Caso contrário, ficaremos totalmente nas mãos de políticas estatizantes, em que uma minoria, o Estado e o Funcionalismo Público, continuarão a senda da desconfiança do Privado, com a previsível estagnação económica, os negócios pouco transparentes de grandes empresas com o Estado, um regresso a oligopólios e um crescendo de regulamentação sobre a Economia que, um dia, voltará a paralisar o país.

Portugal precisa de um PSD e CDS modernos, livres de antigos negócios entre Estado e agentes económicos, e de um PS bem mais transparente e menos arrogante. A renovação, se se vier a dar, talvez venha pelo lado do CDS actual, já que não se vislumbra, no momento, uma personalidade e uma equipa bem distinta e reformadora num PSD doente e a sangrar.

Várias personalidades do PSD têm vindo a alertar o seu Partido para o caminho, divergente das suas origens, que tem vindo a tomar. Será este o momento de reflectir sobre tais alertas e observar como o PS tem vindo a ocupar o lugar político, e social, que antes lhes pertenceu. Se julgarem ainda ser importante o seu papel na alternativa de poder democrático.

Talvez bem distintamente do que disse António Costa no final do dia das eleições, estas não foram exemplo de um grande momento democrático, embora isto nada tenha a ver com o acto eleitoral em si, mas antes foram mais um dia de recidiva de um momento de doença da Democracia. Mas talvez, também, o dia 1 de Outubro, possa vir a constituir uma oportunidade nova, para a nossa política e o regime democrático.

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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