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As aparências são um cliché

Viu aquela cara a olhar para ela, dentro do carro. A cara que estava dentro do carro tinha olhos tristes, de pena, enquanto olhava para ela, e ela odiava essa cara que nunca tinha visto e que esqueceria em momentos. Tal como a cara se esqueceria dela assim que virasse a esquina.

Vivia num bairro pobre e problemático, mas considerava-se feliz. Irritava-se com as pessoas que tinham o descaramento de olhar para ela com aqueles olhos de pena, para quem achava que ela sofria e tinha uma vida má, sem sequer a conhecerem.

Tinha um trabalho numa loja de que gostava, com pessoas excepcionais. Não ganhava muito, mas vivia e isso era o suficiente. E tinha-o a Ele. Nada lhe faltava.

Continuou a pendurar a roupa, sem olhar para os carros e para as pessoas que passavam. Queria esquecer, aquelas pessoas não mereciam que ela desperdiçasse um pensamento com elas.

Sentiu-se abraçada por trás, e fechou os olhos, arrepiada. Sentiu os beijos na nuca, e as mãos a tocarem-lhe a barriga, o peito, as coxas, a boca a respirar-lhe ao pescoço. Ele, o maravilhoso Ele que lhe fazia tão bem.

“Queres ajuda?” sussurrou-lhe ao ouvido.

Só ele para fazer que qualquer palavra ao seu ouvido a enlouquecesse. Falava como se fizesse amor.

“Não”, disse baixinho, porque quando ele lhe tocava ela às vezes não conseguia encontrar a sua voz. Até a própria voz ficava muda. Até a própria voz se retirava naquela intimidade.

Virou-se e deixou-se beijar. Não o beijou; não conseguia, às vezes com ele perdia a força, a noção, o equilíbrio. Deixava-se beijar. Ele pegou na mão dela e puxou-a para o quarto, a sorrir.

***

Teve pena daquela cara que a olhava naquele prédio degradado, com roupas velhas e molhadas. Não teria dinheiro para mais, talvez até faltasse dinheiro para comer. Maldita crise.

Crise? Que crise? Crise dos pobres, sabia ela.

Olhou para o marido, que conduzia. Um carro caro, dado pelo Estado; ser ministro tinha os seus benefícios, e um deles era não viver dentro da crise. E ela, infelizmente, tinha aprendido a dar demasiada importância ao dinheiro. Gostava da sua vida, embora já não amasse o seu marido.

Olhou para ele de novo, e viu todos os defeitos. O marido falava, mas ela só via os lábios a mexer, uns lábios que já a repugnavam. Adivinhava o mau hálito, via os olhos mortos sem sensibilidade, a falta de importância que ela tinha pare ele, os dentes falsamente brancos, e lembrou-se das mensagens das amantes que tinha lido no telemóvel dele, numa altura em que ainda se preocupava. Viu, naqueles segundos, todos os motivos para pedir o divórcio. E depois a sua mão roçou o banco de pele, tocou o anel de brilhantes e o vestido comprido de cetim, e soube que não seria capaz de viver sem aquele luxo que só ele lhe proporcionava. Odiava-se a si própria por aquela futilidade, mas conhecia-se bem e não a podia negar. Estava mal habituada, e numa idade em que já não se queria esforçar por desabituar e ser feliz. Importava-se com viver bem, mesmo no meio da infelicidade. Não podia ser hipócrita consigo própria.

Olhou para fora do carro. Aquele céu cinzento recordou-lhe de novo aquela cara na janela. Que triste vida deveria ter, num prédio degradado, que parecia nem ter canos, e na sua pobre solidão. Ainda mais solitária que ela própria, provavelmente. Não queria, mas sentiu-se um pouco mais consolada.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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