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Arte pintada no corpo

As tatuagens têm anos de história controversa, o que faz com que ainda hoje as opiniões se dividam. Desde os primórdios da humanidade que se decoram os corpos e muitos investigadores consideram que este terá sido o primeiro meio consciente do Homem se distinguir dos restantes animais. A própria palavra é originária da Polinésia, “tatu”, o que significa “marcar qualquer coisa” e este “marcar qualquer coisa” podia ser feito pelos mais diversos motivos e seguramente dependia da cultura e das crenças.

Infelizmente, a história conta com várias sociedades, que, durante séculos, utilizaram a tatuagem para as piores finalidades. Na Grécia Antiga, usavam-nas para marcar espiões e, em Roma, escravos e animais. Na Ásia ocidental, o povo Ainu assumia com elas um estatuto social, povo este que se crê responsável pela chegada das tatuagens ao Japão, onde viriam a assumir o significado de crença religiosa. Mais tarde, em 787, a igreja católica baniu as tatuagens na Europa e assim permaneceram até ao século XVI. Durante este período, os japoneses foram aperfeiçoando as suas técnicas e fizeram com que a tatuagem deixasse de ser associada a criminosos e que evoluísse para uma componente mais estéctica.

A partir do século XVII, é reintroduzida no ocidente e, em 1981, Samuel O’Reilly torna-a menos dolorosa, ao patentear a primeira máquina de tatuagens eléctrica. Contudo, se por um lado as tatuagens passavam a ser mais acessíveis a todos, por outro, tornavam-se vulgares aos olhos da classe alta, o que fez com que renascesse o preconceito. As pessoas tatuadas, que outrora eram alvo de admiração, começam a aparecer em circos e espectáculos de aberrações e passam a ser “socialmente inaceitáveis”, devolvendo, assim, a tatuagem à clandestinidade. Só nos finais do século XX até aos dias de hoje, é que a arte de tatuar o corpo começou a ser vista como uma prática normal, ganhou uma popularidade uniforme a todos os estractos sociais e os próprios tatuadores começaram, finalmente, a ser considerados artistas.

A história é extensa, mas necessária para que se compreenda o porquê do tema ser ainda tabu e motivo de discussão. Apesar do paradigma ter mudado nos últimos anos, de se verificar uma banalização e de ser melhor aceite na sociedade, ainda não se pode afirmar que é completamente aceite e que quem as usa não é alvo de estereótipos. Em Portugal, a tatuagem esteve associada a combatentes, a marinheiros e também a marginais. Na gíria da rua, a “pessoal esquisito”, a “drogados” e a pessoas que, bastante provavelmente, “andam a roubar”. Rótulos que parecem incapacitar as pessoas tatuadas, tirar-lhes educação, cultura ou conhecimento. A tatuagem é uma arte que tem um custo associado, que não é propriamente económico. Por isso, é bastante improvável que sejam toxicodependentes, que recorrem a furtos, que paguem para ser tatuados, quando como prioritária têm a sua adicção. As pessoas podem até não gostar das tatuagens, mas que ao menos as respeitem e não excluam quem as usa, ou lhe retirem os direitos, que são iguais para todos.

A tatuagem há muito que é moda. Uns começaram mais cedo e optaram por um desenho qualquer, outros esperaram até ter um projecto coerente e com significado. Tribais, estrelas, borboletas, braceletes são exemplos de símbolos que foram uma moda, que durante um período eram banais de se ver nos corpos. Hoje em dia, muitas pessoas apostam em trabalhos de continuidade, reservam espaços a determinados artistas de renome, o corpo transforma-se numa tela, mais cara do que muitos quadros. Qual é a história que virá a seguir? Não se sabe, mas há esperança que a tendência acompanhe a evolução da humanidade: mente aberta e respeito para uma técnica, que é uma verdadeira obra de arte.

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Sara Pereira

O que me define não é a formação académica ou estudos complementares.
Sou isto: nem mais nem menos que alguém, mas ninguém é igual a mim. Sou única, com os meus defeitos e virtudes.
Sou complexa e simples ao mesmo tempo. Por vezes complexa nas alturas em que deveria ser simples, nunca ocorre no tempo certo ou na medida exacta. Sou descomedida na medida do equilibrado. Sinto muito mas esqueço depressa. Apaixono-me constantemente pela paixão e sofro desilusões assolapadas. Cada dia, mais que em qualquer outro tempo, tento equacionar que não é nem será a ultima vez que as sofro e assim aprendo a senti-las menos.
Sou sonhadora e vivo a sonhar com um mundo que seja um lugar melhor para nós. Gosto de viver alienada desta dita realidade que me rodeia, para não sabotar quem sou. Sou uma alma em constante desconstrução para que me possa continuar a construir. Tenho eternas perguntas que nunca serão respondidas.
Gosto de escrever. O que me falta na comunicação verbal, compenso na escrita. Gosto da fluidez das palavras, do peso que podem adquirir, da maneira como podem tocar, do significado escondido que podem ter. Para além do que dizes ser óbvio há sempre mais, se escolheres ler-me. E quando verdadeiramente me lês, sou isto: nem mais nem menos, mas feliz por ser assim.

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