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Arqueologia e gigantismo: contributos para a história da medicina

Vários casos de gigantismo são descritos na literatura. O Golias do Antigo Testamento foi morto por David. Jonathan Swift imaginou no seu livro As viagens de Gulliver, a terra de Brobdingnag, cujos habitantes eram gigantes. O gigantismo, enfermidade mais rara que o nanismo, atinge três pessoas num milhão e tem como causa uma alteração hormonal na infância, nomeadamente um mau funcionamento da hipófise, ou glândula pituitária, situada no cérebro e que causa um crescimento fora do vulgar.

A raridade desta enfermidade faz com que se desconheçam casos de ossadas antigas que dela padeceram. À excepção do esqueleto do império Romano, datando do terceiro século antes de Cristo. O esqueleto, pertencente a um indivíduo do sexo masculino, mede 2,02 metros, numa época em que a altura média rondaria os 1,67 metros. Actualmente, o homem mais alto do mundo mede 2,51 metros.

Os outros dois esqueletos parcialmente descobertos e suspeitos de terem pertencido a gigantes foram encontrados um na Polónia e outro no Egipto, mas apenas do esqueleto descoberto em 1991 numa necrópole em Fidenae, perto de Roma, há certezas de ter sofrido da enfermidade que lhe causou o crescimento desmesurado. A sepultura foi desde logo considerada demasiado grande pela equipa arqueológica que procedeu à escavação arqueológica e pelo estudo antropológico que se seguiu. O achado arqueológico foi em seguida enviado a Simona Minozzi, paleopatologista na Universidade Italiana de Pisa, para estudos mais detalhados. Para além da análise dos ossos, a deformação do crânio era consistente com a existência de um tumor pituitário, que alterou o normal funcionamento da glândula pituitária, causando uma super-produção da hormona de crescimento. Para além da extensão dos membros, verificou-se também que os ossos continuaram a crescer já no início da idade adulta, suportando por isso a tese do diagnóstico de gigantismo.

A morte prematura deste indivíduo, entre os 16 e 20 anos, provavelmente relacionada com doenças cardiovasculares e problemas respiratórios, estão de acordo com um quadro clínico que apresentasse esta enfermidade. A bio-arqueóloga Charlotte Roberts, da universidade inglesa de Durham, apesar da certeza de estar perante um caso de gigantismo, gostaria de saber mais, não só sobre a doenças, mas, sobretudo, sobre o seu impacto social e a forma como a enfermidade era encarada. Embora fosse comum o sepultamento com objectos que permitem aos arqueólogos perceber um pouco como o defunto era tratado na comunidade à qual pertencia, o esqueleto em questão foi encontrado sem quaisquer artefactos funerários, sugerindo, portanto, que estaria perfeitamente incluído na sociedade.

Pouco, ou nada se sabe sobre o papel, ou a presença de gigantes no mundo Romano antigo, à excepção da descrição do Imperador Maximinus Thrax, que viveu no século II A.C., e que a literatura contemporânea o descrevia como uma “montanha humana”. Outras malformações físicas, como corcundas e anões, usados muitas vezes como artistas pela alta sociedade romana, eram vistas com grande curiosidade, pelo que um gigante poderia ter exercido o mesmo interesse e fascínio.

Gigantismo_1

Porém, esta descoberta não ajuda apenas a compreender melhor a sociedade do império romano. De facto, lança um olhar novo sobre a história da doença, nomeadamente a dispersão geográfica das diferentes enfermidades e da sua frequência ao longo do tempo.

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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