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Aquele fim de semana

A casa está sozinha. As portas dos quartos estão abertas e as janelas têm os estores corridos. No entanto entra uma claridade, coberta de pó, que obriga a olhar em volta. Um silêncio tão grande que incomoda. Na sala a mesa grande repousa, como de costume, à espera de visitas para poder ser o centro das atenções. Ainda vai demorar.

O quarto da menina está conforme ela o deixou: cama por fazer, a arejar, livros por arrumar e sapatos espalhados. As roupas estão todas juntas numa amena cavaqueira que soa a cumplicidade. Arruma quando voltar. Há uma caixa de lápis de cor, com alguns espalhados, na secretária, ao lado dos livros da escola. Está no fim e só falta a última ficha. Finalmente.

O do rapaz tem brinquedos espalhados por todo o lado. A idade não é de responsabilidade, mas sim de brincadeira e é exercida a tempo inteiro. Um carro ao lado do boneco que o supermercado divulga, está encostado a um dos cantos. Bolas, de todos os tamanhos, dificultam a passagem. Em cima da cama calções e camisolas aguardam o caminho para as gavetas. No regresso.

O quarto dos pais está como sempre. Cama meia feita (ou desfeita), cortinas afastadas, porta do roupeiro aberta, para não se concentrarem os cheiros mais intensos e uma rosa que o pai ofereceu à mãe no seu dia. Ainda resiste. Vai secando, com tempo e com calma, para a posteridade. Já não deita o seu particular aroma, mas fica a recordação do gesto e do dia.

A avó tem sempre o quarto imaculado como se fosse um anjo que não tem peso nem presença física. Tudo nos seus locais, certinho, nem mais para um lado nem mais para o outro. Ali. Aquela cama nem parece ser usada. Duas mesas de cabeceira, uma de cada lado da cama, apesar do avô ter partido há muitos anos. Uma moldura com a foto do casamento olha para a janela, desafiando-a a ver.

A sala está arrumada. Não a tinham usado na véspera, porque estavam de partida. Os sofás conversavam entre eles, a televisão estava desligada e o tapete, enorme, estava aspirado. Nem um vestígio de actividade suspeita naquele local. Vidas atarefadas que não permitem grandes repousos.

Na cozinha a loiça, alinhada como se fosse um batalhão de soldados, aguardava a próxima utilização. Na mesa, oval, ainda estava o jornal do dia e a revista do social onde aparecia a actriz da moda em fato de banho. Vingava-se nas férias de uma relação mal-sucedida. Cores bonitas e apelativas, de propósito para causarem inveja.

Tinham saído para ver a casa que tinham comprado na terra que estava em fim de obras. Seria o primeiro Verão ali, todos juntos, como se tivessem sempre ali vivido. Uma união com a natureza e com o passado que se pretendia perpetuar. O mais pequeno não conhecia e a miúda já tinha ouvido falar. A alegria era geral.

A casa estava perfeita. Era toda de pedra e tudo estava conforme pretendido. Só faltavam uns detalhes, mas nada que impedisse a família de passar o fim de semana com o conforto necessário. O tempo estava estranho e um calor demoníaco pairava no ar. A praia convidava e foram ficando.

Subitamente as forças da natureza conjugaram-se numa relação negativa e um fogo gigantesco avançou, descontrolado, levando tudo à sua frente. Gera-se o pânico e todos tentam sair do local, o mais rápido possível. O braseiro é de tal ordem que o fumo não permite visualizar a estrada. Era sábado, dia de descanso, onde muitos procuravam sossego.

O impensável aconteceu. A estrada fica rodeada pelas chamas e pelo fumo criando uma prisão fatal. Carros que chocam, outros que se despistam e ainda outros que explodem. Vidas ceifadas, inocentemente, injustamente, desnecessariamente. Uma imensidão de dor que se planta naquele local e que vai deixar raízes perpétuas. Famílias inteiras, amigos, vizinhos, conhecidos, pessoas.

A sala não vai receber os que a decoraram, nunca mais. A rosa vai murchar para sempre e não tem mais valor, as roupas da menina não vão ser arrumadas, a última ficha não foi feita, os brinquedos não têm quem os movimente e a foto do casamento dos avós não terá quem a olhe. Os pratos continuam em batalhão e até podem voltar a ser usados, mas não por eles, por quem os escolheu.

A casa da terra estava a ser arranjada e tinha telhado novo. Não ardeu. Resistiu. Tinha um tanque à volta que a protegeu, mas não a quem dela queria usufruir. Tanta alegria que não se viveu naquele local, tanta dor que se semeou. Planos de umas férias que nunca aconteceram. A vida a decidir como entende. Eles partiram de fim de semana, mas nunca mais voltaram.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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