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Apenas mais um dia na Multidão

Pensas que sabes tudo, mas as vezes cai te tudo aos pés e choras sobre o vazio. Bebes um café e lês uma revista velha, fumas tanto que até o tempo se queima nessas cinzas que caem no meio de embalagens de gelados.

Vemos novelas, fala-se do Euromilhões, cantamos as musicas parvas da rádio, sim e, às vezes, mas só as vezes é que falamos de sentimentos e etc.

Tantas contas para pagar, acordar cedo trabalhar e depois andar às voltas a olhar para o céu e a pensar em palavras ocas, para toda a gente engolir sem se queixar e dizer que estamos sempre a pôr o dedo na ferida desses hipócritas, os comentadores da vida dos outros.

Mais um café, dois… três, sim hoje vou comer fast food, não há tempo. Dormir um bocado até à hora de sair, porque a noite é uma lotaria de coincidências e peripécias. Acordar beber um copo de água e dormir outra vez, sonhar com cores vivas e facturas pagas.

Contar com a sorte ao amor e ao jogo de preferência no mesmo dia para poupar dores de cabeça.

Acordar com o barulho dos camiões do lixo, ler um jornal, adormecer por uns minutos, acordar, que amanhã é domingo. Pronto, uma desculpa para dizer que estou com Deus. Mas será que ele está comigo? Penso que não.

Desliga a televisão, só hoje quero escrever um bocado com uma caneta e papel, com silêncio e sem banalidades da tarde.

Hoje é domingo, vamos correr contra o tempo, porque hoje tenho tempo para correr contra ele.

Depois de uma tarde de passeio, vou dormir. Nos pés da cama, jaz o gato e o cão a dormirem confortavelmente e a sonharem com um campo verde. O gato a ronronar, em sinfonia o cão a mexer as patas, e eu acordo para mudar a almofada e eu acordo a pensar no dia de amanha e eles sonham com o nada e a felicidade pura de um animal a dormir acalma o espírito.

Hoje é segunda-feira. Afogo as ilusões com palavrões, a vida fuma-se sozinha como um cigarro esquecido num cinzeiro

Escravo de um olhar sonolento à espera do comboio a cheirar a café e a pasta de dentes, a fazer scroll no Facebook, uma vez que não dá para fazer scroll nas pessoas nem no tempo.

Entro no comboio. Porra, nunca mais é sexta-feira e, em tons de sépia, a melancolia semanal recomeça num ciclo medido por suspiros laborais e debates de escritório.

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