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Ao sinal de toque

O início de Setembro traz invariavelmente para todos os anúncios de promoções de material escolar. É prenúncio do regresso às aulas. Isso implica gastos elevados, contrariando o despacho n.º 6478/2017 emitido pelo Gabinete do Secretário de Estado da Educação, onde se lê que, entre outras coisas, cabe ao Estado “assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito”.

Ano lectivo após ano lectivo, a situação repete-se. Temos assistido a mais apoios financeiros ou materiais por parte do Estado. Há autarquias a oferecerem um pack para utilização durante o ano lectivo, este ano até há a gratuidade dos manuais escolares aos alunos de ensino público que frequentem o primeiro ciclo e, para as famílias mais carenciadas com crianças em idade escolar que se encontrem a receber o abono de família no 1.º escalão, o pagamento da prestação em apreço é feita em dobro em Setembro.

Todos os anos são divulgados dados de (in)sucesso escolar e de resultados de exames nacionais. Em Maio do corrente ano, de acordo com os dados do Eurostat, Portugal está à distância de um lugar para estar no pódio dos países com maior taxa de abandono escolar, situando-se no 4.º lugar. No ano transacto, assistiu-se à desistência de 14% dos alunos com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos. Verifica-se também que os métodos de ensino são os mesmos. Há estagnação nesse campo, de acordo com declarações de Paulo Almeida, director do Agrupamento Fernando Casimiro. Este chega a afirmar que “temos escolas do Século XIX com professores do Século XX para alunos do Século XXI.”

Assistimos a um retrocesso no tratamento dos alunos, quando o Estado permite que numa mesma sala de aula possam estar englobados vários anos escolares, com a criação das turmas mistas. É possível ver-se no mesmo livro de ponto, alunos de 1.º, 2.º, 3.º e 4.º ano. David Justino, presidente do Conselho Nacional de Educação, considerou que, em Maio do presente ano, este tipo de turmas é uma “chaga social” e “é um dos maiores factores do insucesso” escolar. Iniciou-se na passada semana o ano lectivo 2017/2018 e por todo o país proliferam turmas com estas características, sem que tenha havido qualquer aviso prévio aos encarregados de educação.

Em conversa com o Repórter Sombra, estes apontam a necessidade de melhorar vários pontos para incrementar o aproveitamento escolar e consequentemente a vontade de estudar, incentivando e motivando os alunos:

  • Alteração de matérias e planos curriculares;
  • Abolir os trabalhos de casa;
  • Dar aulas de modo a que haja maior interacção dos alunos sempre que possível;
  • Permitir exploração do meio ambiente;
  • Estreitar a relação de professor/aluno, de maneira a evitar a distância, fazendo assim com que o aluno se sinta devidamente amparado e acompanhado;
  • Respeitar o ritmo de aprendizagem de cada aluno;
  • Incrementar o ensino artístico desde o início do percurso escolar;
  • Valorizar a imaginação e criatividade dos alunos;
  • Aumentar o número de convívio social, não apenas baseado em épocas festivas;
  • Implementação de possibilidade dos encarregados de educação possam assistir a uma aula por trimestre, para ser feita avaliação do professor, apontando pontos negativos, positivos e sugestões de melhoria.

Ana Rita Dias, psicóloga de profissão, foi ainda mais longe e por acreditar ser possível mudar o ensino nacional, criou uma petição online intitulada “Transformar a educação em Portugal. De uma vez por todas”, onde enumera 14 pontos que considera essenciais para que exista uma mudança positiva para os alunos. A encarregada de educação é também a criadora do grupo “Escolas Alternativas, Comunidades de aprendizagem e Educação em Portugal”, cujos objectivos são:

  • “promover uma atitude de respeito pelas opiniões de cada um, havendo empatia pelas diferentes situações em debate, sem uso de calão ou ofensas;
  • partilhar informação útil, que se enquadre na temática do grupo (exº: acções de formação, situações do quotidiano, actividades para famílias e/ou para crianças e jovens);
  • defender uma disciplina positiva em contexto escolar, sem recurso a gritos, punições baseadas em autoritarismo inquestionável, rótulos, humilhações e abusos físicos e/ou emocionais;
  • defender pedagogias que coloquem os alunos no centro das suas próprias aprendizagens;
  • No mesmo local de internet, é-nos dada a possibilidade de aceder à listagem de escolas e espaços de ensino/aprendizagem não convencionais, devidamente identificados por nome e localidade.

Destacam-se os métodos Montessori, a pedagogia Waldorf e a Escola da Ponte.

Há cada vez mais e maior interesse por parte dos pais na necessidade de manterem os filhos motivados e interessados pela escola, não querendo robotizá-los. Como exemplo, um dos encarregados de educação adiantou que reconhece “maior interesse em que os alunos saibam plantar e colher legumes, em vez da raiz quadrada de que raramente irá ser aplicada na vida, após terminar o percurso escolar. Os alunos precisam de aprender algo que lhes venha a ser útil em qualquer idade.”

O caminho está ainda em pés de lã e a ser feito ao ritmo possível, neste país de brandos costumes muitas vezes avesso às mudanças.

Acreditemos que será feito sempre o que for melhor para as crianças. Até lá, vamos sendo brindados com, por exemplo, o conhecimento e cultura geral dos nossos universitários.

Ao sinal de toque começam as aulas, inicia o recreio ou termina o dia escolar.

Que seja um ano lectivo tão bom quanto possível para todos.

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Sofia Fonseca Costa

Nasceu numa quarta feira de Novembro, no ano 1984, mas não gosta de meio termos. Desde que se lembra que quer ser escritora e mãe. Dizem que no canto do seu sorriso mora um arco-íris. Vive para as palavras e afectos. Não gosta de chocolate. É formada em jornalismo e fez teatro durante mais de uma década. Mãe de quatro filhos a quem chama de Soneto. É autora do livro Murmúrio Infinito. Chamam-lhe Sofes Marie.

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