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António Ferro: senhor do regime, senhor das artes

Há quem diga que inventou o Salazarismo. Por essa razão, ficou “por amar”. António Ferro foi a figura forte do Secretariado da Propaganda Nacional, durante o Estado Novo. E ainda faz parte das nossas vidas. Enquanto ouvimos fado (sem o encarar como algo boémio), quando pegamos numa cerveja Sagres e sempre que nos deparamos com um Galo de Barcelos, o legado de Ferro está lá.

Foi um homem capaz de construir mitos que ainda perduram. Deu voz a artistas que ficaram para a história, como Manoel de Oliveira; e encaminhou o país para um novo estilo gráfico, gerando um paradigma artístico mais moderno. Fazendo uso da comunicação para servir os interesses do regime, criou a imagem do país em que vivemos. Que é como quem diz, um “Portugal pobrete e alegrete”.

No Congresso Internacional da Crítica, em 1931, deu visibilidade ao documentário “Douro, Faina Fluvial”. Foi nesse evento que o Galo de Barcelos foi oferecido, pela primeira vez, a congressistas estrangeiros. Um símbolo nacional ultrapassava, assim, fronteiras, debaixo do (e a favor do) fascismo.

Mas o Galo de Barcelos não foi a única marca a promover Portugal fora de portas: Ferro encontrou em Amália Rodrigues uma aliada para tirar o fado dos círculos marginais e levá-lo às adegas típicas; o passo seguinte foi internacionalizar o estilo de música.

Já durante a Segunda Grande Guerra, foi Ferro quem resolveu o problema da falta de cerveja que as tropas britânicas viviam: criou uma marca para exportação, que ostentava o escudo e as quinas portugueses. O nome “Sagres” aludia às aventuras marítimas do povo.

No fundo, o que António Ferro fez foi um trabalho de Relações Públicas exímio. Mas, como acontece com qualquer talento, o seu benefício geral depende da forma como é usado. E Ferro usou as suas capacidades para criar um misticismo paternalista à volta de Salazar, que os portugueses compraram. Ao mesmo tempo, negou as suas origens jornalísticas, instituindo o lápis azul. Através do cinema, louvou a PIDE e o colonialismo.

Em suma, censurou o que não convinha à ditadura, mas deu asas à cultura que convinha ao Estado. Estes elementos culturais, apesar de servirem o regime, também serviram as artes portuguesas. E muito daquilo que somos como nação devemos a Ferro.

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Florbela Caetano

Gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Gosto de pensar que os dois nos podem ajudar a viver num mundo melhor. Gosto de sentir que informar pode repor a serenidade no meio de caos. Deixo-me fascinar com a imagem e perco-me na escrita. Entre todas as alianças de universos ao nosso dispor, quero dizer as palavras e criar imagens com o som.

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