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António de Souza Magalhães

A estrada é ingrime, os carros ocupam mais de metade da via e os cães quase são atropelados pelas bicicletas. Cheira a lixo e a fome, respira-se humidade e velhice, ouvem-se latidos e choros naquela rua sem uma única flor. A porta é escura e velha, tem duas janelas tapadas por uma cortina e no chão vê-se a podridão da vida. Do balde de tinta Robbialac está um cão a beber mistura de água e pêlos e ao lado um saco de gelo com fiambre estragado. Está semeada a miséria sem um único rosto humano. Bate-se à porta, passa um carro, dois, três e ouve-se “Ele não ouve bem. Estou cansada de lhe dizer para comprar daquelas coisas para os ouvidos, mas diz que não tem dinheiro. Vamos lá nós entender os pobres.

Nasceu sob os resquícios da primeira Grande Guerra Mundial. Viveu o Salazarismo e o Franquismo à entrada da sua juventude. Estava na tropa, aquando da Segunda Grande Guerra, mas viveu esses loucos anos 40/50 na antiga colónia portuguesa, Moçambique. Cruzou pela expansão da World Wide Web, mas os animais sempre foram a sua ocupação. “Ocupam maior parte do meu tempo e são os meus maiores e melhores amigos”, confessa de olhar fortemente abatido pelas amarguras da vida.

António de Souza Magalhães, ou o carpinteiro da obra Sá Carneiro (Rua Francisco de Sá Carneiro, Setúbal), nasceu em Miragaia, no Porto, no dia 17 de Novembro do ano de 1921. Tinha três anos, quando o pai, Américo de Souza Magalhães, republicano obstinado, foi morto por monárquicos na fronteira de Espanha. Sua mãe, de nome Ermelinda de Souza Magalhães e de nacionalidade espanhola, permitiu a António, 4 anos depois de nascer, uma companhia por longos anos. Um irmão (Mário) inseparável. Uma afeição, pensava, para toda a vida.

O que inicialmente parecia ser um típico quadro familiar transformou-se num autêntico desastre. António teve de aprender a fazer, saber e ser. A mãe morreu aos 5 anos de António e um ano de idade do seu irmão. Órfãos muito cedo, António foi levado para o Colégio das Oficinas de S. José e o seu irmão para a Congregação dos Salesianos pertencente à Igreja Católica. Ambos os locais pertencem a uma rede que se rege pela acção humanitária e cristã de crianças em situação social debilitada. António tinha idade para iniciar o 1º ciclo e, por isso, foi obrigado a separar-se do irmão. Criada a distância e aumentando a saudade e ansiedade do reencontro, Mário foi transferido para o Colégio do irmão quatro anos depois.

Os obstáculos fizeram frente a esta dupla, que se viu obrigada, mais uma vez, à separação. António tinha um longo e feroz combate pela frente. Transportado para o Seminário (Porto), não resiste muito tempo. “Obrigaram-me a ser padre e eu não quis. Entendi que a humanidade é egoísta. Em nome de Deus, muitos matam outras pessoas. A natureza tudo cria e tudo come. Há um ser sobrenatural que nos domina. O que é? Não sei”, conta com ar desprezado.

Aos 17 anos, fugido do Seminário, era procurado pelas autoridades. “Quis alistar-me na tropa”, conta, “e fui à Póvoa do Varzim alistar-me como voluntário. Cheguei e perguntei se podia ser da tropa. Cortaram-me o cabelo, atribuíram-me um número e ordenaram a minha transferência para Tavira. Quiseram que eu me tornasse um homem e que estudasse na escola de sargentos e oficiais.” António permaneceu três meses na escola de instrução e, quando regressou, foi imediatamente destacado para Angola.

Decorria o ano de 1944, o penúltimo ano antes do findar da Segunda Guerra Mundial, e era já impossível ter fôlego para suportar aquele martírio. Chegou à conclusão de que a aptidão nem se direccionava para a religião, nem para a defesa do seu país. “Estava desorientado. Peguei num paquete de tabaco, pus num copo de água. Deixei dois dias de molho e bebi. Tive uma febre desmedida e fui à enfermaria. Vinte dias depois, fui enviado para o Hospital Militar (Lisboa) e considerado incapaz de prestar serviço. Nunca mais me chamaram.” O distanciamento aliava-se à forte conquista de ter junto de si o seu irmão, mas, ao contrário de António, Mário seguiu obstinadamente o serviço militar e, em defesa do país, morreu. Vinte anos era a idade do irmão de António.

Tragédia às costas, António iniciou a vida de trabalho na Mobil Oil (Matosinhos), fazendo as cargas e descargas de lubrificantes e trabalhando na soldadura. “Saí daí, porque era por contratos. Trabalhei depois no grupo C.U.F. na carga e descarga de açúcar, feijão e outros alimentos. Parti a clavícula com um saco de 100kg.” Foi um homem multifunções, tendo passado inclusivamente pela carpintaria e marcenaria, com apenas 25 anos. Por esta altura, regressa a Setúbal, onde “devia ter estado sempre” confessa. “Fazia móveis, mas precisei de ir à Alemanha, para promover o meu trabalho.

Volvidos alguns anos, casa em Matosinhos com Augusta de Jesus, “uma mulher desumana.” Desse casamento, resultaram duas filhas (Hermínia de Jesus Magalhães e Madalena de Jesus Magalhães), das quais, hoje em dia, António de Souza Magalhães não guarda rancor, mas garante que, “se for um copo de água que lhes salva a vida, não lhes darei.” Somava desgostos à sua vida: a morte do pai, da mãe, do irmão, a repulsa das filhas e o rancor que guarda da mulher. “Ela faltou-me ao respeito e meteu-se com um empregado meu. Disse-lhe para ficar com tudo. Vendi o que tinha e desapareci.” Foi para Alemanha, trabalhou uns meses, porque estava farto de ter um trabalho ingrato, onde não lhe pagavam. “Tinha de receber 300 e pagavam 30. Estava tudo nas mãos deles.

Carpinteiro por vocação, andou pela Europa, viajou para a Suíça, Bélgica, Espanha, Holanda e Itália. “Em 1966, atravessei a fronteira de França para Espanha. Meti-me num comboio, paguei um marco e saí em Valladolid e aí fiquei para não fazer a viagem de noite. Percorri alguns quilómetros entre Madrid e Valladolid, onde existiam 3 fábricas. Era lá que se fazia o fabrico de portas e foi lá também que arranjei colocação.” António de Souza Magalhães, com vontade e perspicácia, empenhou-se durante um ano naquilo que era o seu ganha-pão. Foi com toda a dedicação que acabaram por lhe tecer rasgados elogios transformados numa questão que o orgulhou – “Faz um trabalho incrível. Porque é que não funda a sua própria empresa?

António encetava uma nova etapa da sua vida e pediu a colegas, com os quais trabalhou em Portugal, para que, com ele, fundassem uma empresa própria. António viajou até Setúbal (com a carta de condução da tropa) e trouxe oito colegas de trabalho. Uma viagem um pouco atribulada, conta, mas com uma paragem em Salamanca para repor energias. No dia seguinte de manhã, mais recomposto, seguiu viagem para Valladolid e foi lá que formou a empresa. No entanto, “lá os patrões eram obrigados a dar maquinaria e como eu não tinha dinheiro tive de pedir um empréstimo. Arranjaram-me 2 milhões de pesetas a pagar em três anos.” António tinha um lema de trabalho muito rígido e ao mesmo tempo bem meditado. “O meu papel é vistoriar e o vosso é trabalhar. Se fizerem mal é da vossa responsabilidade.” E assim funcionou mais de vinte anos somando mais de 5000 pesetas (equivalente a trinta euros) por cada porta que fabricavam. Por esta altura, já a sua mulher tinha morrido (2002). “Ela veio pedir-me perdão e eu respondi: no dia em que morreres vai ser o dia mais feliz da minha vida. Morreu justamente no dia dos meus anos.

António regressou a Portugal, para visitar as filhas, e trouxe cerca de 1 milhão e 800 mil pesetas (cerca de trinta mil euros). Conseguiu todo esse dinheiro com o seu esforço e suor, mas as filhas fizeram questão de roubar tudo aquilo que juntou honestamente. Contou da existência desse dinheiro e as próprias “quiseram meter este dinheiro no nome delas, mas eu não deixei. Quando tentei abrir conta e depositar todo o meu dinheiro, não permitiam que alguém sem nacionalidade portuguesa pudesse ser cliente do banco.” Os olhos vertem lágrimas, enquanto António olha para o cair do dia. Resolveu guardar o dinheiro em sua casa, em Lisboa e acrescenta que “não havia ninguém que soubesse, ou que conseguisse de lá tirar o dinheiro. Mas o meu genro roubou.

António descobriu, quando fez uma participação no posto da judiciária, uma conta no Banco Santander Totta, aberta recentemente, em nome das suas filhas. “Só desejo que tenham sorte na vida, porque a mim destroçaram-me. Há gente que é má por instinto.” Por esta altura, já não tinha perdido a conta às lágrimas caídas. Fez-se silêncio e ouvia-se apenas o vaguear das últimas folhas de Outono.

Não voltou para Espanha, porque o dinheiro que lhe restava não chegava para o seu regresso. “Vim para Setúbal, porque fiquei sem trabalho e a idade já não permitia que me aceitassem.” Acabou por ficar a cinquenta quilómetros de Lisboa, perdido na miséria.

Setúbal, a terra prometida

Os dias felizes tornaram-se em verdadeiras vinte e quatro horas de martírio. Sem família e sem amigos, António teria de se desenvencilhar sozinho e de procurar alojamento o mais rápido possível. “A casa estava devoluta, mas eu pagava uma renda de 37 euros e 50 cêntimos à D. Palmira. Aluguei e fiz obras. A casa estava hipotecada, mas eu não sabia. O valor da hipoteca era de 700 euros e eu tive de pagar para poder ficar com ela.” A morar em Setúbal há quatro anos, António não se ia livrar dos seus contratempos tão facilmente. Um dia, eis que…

Bom dia, posso ver a casa? – Sim. – Quero comprá-la. – Mas não está à venda. – O senhor está aqui por esmola, não tem recibos que comprovem que a casa está alugada e eu quero que seja minha. – Eu aluguei à D. Palmira e embora não me passe recibos eu sempre paguei.” António estava numa encruzilhada da qual não se conseguia desenvencilhar facilmente. As pessoas que estavam ao seu redor eram aquelas em quem mais confiava. Teve de depositar a confiança que restava naqueles que não conhecia. Para poder não ficar desalojado, António quis comprar, por 10.000 euros, a casa. Iniciado o processo de negociação, António acabou por ser defraudado. A proprietária contratou um advogado que redigiu uma minuta, onde o pagamento mensal teria de ser no valor de quinhentos euros. Indicou a António, no entanto, que o pagamento seria muito inferior, uma vez que o próprio auferia uma reforma ligeiramente inferior a 200 euros. Ora, sem outro tipo de ajuda, o arrendatário não teve outra alternativa se não assinar a dita minuta, mas sem ler. “O advogado não me deixou ver o contrato, eu acreditei e assinei.” Inaugurava o sacrifício de, por mês, reunir meios suficientes para que os trezentos euros em falta surgissem de algum lado. “Cheguei a comer ração para os meus cães e bebia água fervida. Comprava uma lata de 0,66€ e comia.” Tirava do lixo e vendia para pagar o dinheiro que faltava. “Tive de procurar no caixote do lixo qualquer coisa que pudesse vender. O dinheiro tinha de chegar de algum lado.” Desses quase duzentos euros que auferia, António retirava pouco mais de 20 para poder comer o mesmo que os seus animais Maló e Poto (registados). Viveu nesta mortificação precisamente um ano e oito meses. “Nunca recorri a ajuda, porque não quero nada. Uma vez fui à assistência da segurança social para tomar banho e mudar de roupa. Disseram que podia ir à segunda, quarta e sexta. Não tinham roupa para me dar e ainda tomei de água fria”, palavras frias que ecoam na sala, que também é quarto, que também é cozinha e que também é casa de banho. António vive com a preocupação de ajudar o próximo e continuamente dá até o que precisa.

A sua estatura média e constituição física magra exibem a abdicação a que foi sujeito e que, sem necessitar, continua. “O que eu procuro no caixote do lixo é para dar às outras pessoas. Habituei-me.” Não se cansa do seu dia-a-dia. Considera ser mais feliz que muitos e aproveitar os momentos da vida sem estar rotinado. “Fui feliz. Sinto satisfação daquilo que tenho que é mais do que alguns têm. A minha satisfação é aquilo que eu como e desejo aos meus inimigos que tenham melhor que eu.” É apaixonado pela vida, mas também pela escrita e pela arte de rimar. “O pão que sobra à nobreza repartida pela razão matava a fome à pobreza e ainda sobrava pão”, rima como quem conta o a,e,i,o,u.

Amante de Camilo Castelo Branco, Amália Rodrigues e Hermínia Silva, este poeta popular tem o sonho de acolher todos os animais de rua. “Nós temos de aprender muito com os animais. Não são egoístas, não são maus. Ensinei os meus a não roer os sapatos, a não roer os móveis, a não urinar a casa. E, se foi isso que ensinei, é isso que fazem. São como os filhos – se lhes dermos uma boa educação, são guerreiros toda a vida.” Quer educar o mundo e fazer o bem. Fazer casas para os pobres e amparar os velhos, porque considera que hoje em dia olham para a classe idosa como “tudo tens tudo vales, nada tens nada vales. Com a idade que tenho, é para ir para o asilo, mas, com 91 anos, ainda tenho os cinco sentidos e esses ninguém mos tira.

A praceta é alegre, as pessoas cumprimentam-se e as crianças desenham, no chão, a giz, o jogo da macaca. Cheira a vida e a esperança, respira-se bondade e simpatia, ouvem-se risos e cantares naquela praceta cheia de flores.

Curiosidade

-> Um sábado: “Acordo entre as 6 horas e 30 e as 7. Sou obrigado a acordar com o Maló e o Poto para eles fazerem as necessidades. Depois vou ao Pingo Doce beber um galão e comer um pão. Custa-me 1 euro. Incluído no pequeno-almoço está um queque, ou um bolo de arroz que eu dou aos meus cães. Compro um litro de leite e dou-lhes também. Compro uma sopa para o meu almoço e entretenho-me à tarde a ver as notícias. Ao final do dia compro dois sacos de comida e levo a mais ou menos cinquenta cães que estão na variante da Várzea, em Setúbal.”

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Rita Nunes Ferreira

Licenciada em Comunicação Social e pós-graduada em Estudos Europeus nasci neste mundo onde tudo/quase tudo se traduz em formas de comunicar. Tenho uma paixão nata pela escrita e um soberbo gosto pelo jornalismo em áreas diversas – lifestyle, sociedade, direitos humanos, política, assuntos europeus. Tendo sido ou não talhada para esta azáfama constante não existe o que possa demover. Todos os dias se justifica acordar e escrever mais um “bocado”.

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