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Ancinhos, pás e RSI’s

O Governo assinou um protocolo que vai colocar os beneficiários do RSI (Rendimento Social de Inserção, para os mais desatentos) e desempregados a limpar e a vigiar as matas, auxiliando os bombeiros no seu trabalho sempre duro de combate aos incêndios. O conceito não é novo e, na verdade, já anda a ser falado desde 2004, mas só agora, parece, vai realmente ser aplicado.

Claro que, vivendo nós em Portugal, não se poderia esperar um verdadeiro consenso sobre o assunto, até porque em cada português existe um defensor da ética e da moral acérrimo, qual beata de igreja, e rapidamente começaram a surgir as críticas. Para uns, sem dúvida que é uma excelente medida, para outros, é mais uma forma de exploração das pessoas, uma humilhação, e cheguei a encontrar alguns comentários reforçando que deveriam ser os presidiários a fazê-lo e não os pobres beneficiários do RSI e os desempregados.

Quem contacta com zonas menos ricas, ou que tenham nos seus habitantes pessoas mais carenciadas conhece, certamente, a realidade do RSI. Não menosprezando que existem muitas situações reais em que esse rendimento é absolutamente necessário para a sobrevivência, também é certo que existem muitos casos que são profundas injustiças. Eu nunca tomo o pequeno-almoço fora de casa, mas vejo muitos beneficiários de RSI e de subsídio de desemprego, todos os dias, gastarem em pequeno-almoço num café o que daria para dois, ou três pequenos-almoços em casa. Nada contra as pessoas irem aos cafés, os senhores comerciantes também precisam, mas trata-se de definição de prioridades.

Fala-se em humilhação e falta de ética, quase escravidão, mas ninguém pensa que um beneficiário de subsídio de desemprego, muitas vezes, recebe mais no período de desemprego do que descontou, ninguém pensa que para um beneficiário de RSI esta realidade ainda é mais gritante. São mecanismos de apoio social que partem da solidariedade de todos nós, contribuintes, que ajudam quem não pode, ou quem não consegue ter mais, mas isto não significa que têm os contribuintes de ficar a pagar para outros, muitos deles, mal se mexerem.

Trata-se de dar e receber, trata-se de comunidade. Não é humilhação nenhuma ir vigiar, ou limpar matas, muito menos escravidão, é também uma forma de contribuição que simboliza o agradecimento à sociedade por ter mecanismos de protecção social. A floresta não é só responsabilidade do governo, é de todos nós, e é muito triste ver a quantidade de lixo que todos nós deixamos constantemente nas matas, nas florestas, ou nas praias, mas que demonstram também a indiferença que temos para com os nossos próprios recursos.

As pessoas que estão presas, estão-no porque cometeram crimes e o facto de não terem a sua liberdade física já é um grande castigo. No entanto, muitos esquecem-se que os presidiários têm actividades, trabalham, contribuem também para a sua própria reintegração na sociedade. Nenhum beneficiário de RSI, ou de subsídio de desemprego o faz. Os presidiários não devem, nem podem ser os bodes expiatórios da sociedade, como muita opinião pública quis colocar. Podem e devem contribuir, assim como os militares, os bombeiros e até mesmo a sociedade civil. Não há humilhação em contribuir para o bem-estar da sociedade, não há humilhação em poder auxiliar aqueles que todos os anos dão o seu suor e muitos a vida, por causa, muitas vezes, de outros que por mão criminosa, ou por manterem hábitos do século passado (o atirar as beatas pela janela do carro, quando não são copos, ou outras coisas), criam gigantescos e destruidores incêndios.

Na realidade, digo-o muitas vezes, a maior mudança que precisamos de fazer é na nossa própria mentalidade, nos nossos próprios hábitos e na nossa, tantas vezes, soberba perante coisas tão simples como a vivência em sociedade. Rapidamente levantamos a mão para apontar defeitos e problemas, mas raramente pomos a mão na massa (ou agarramos no ancinho e na pá) para resolver os problemas.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d’Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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