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Amor porque sim

Eras criança quando te conheci, hoje és adulto e não me conheces.

Despertei para o exercício activo do voluntariado com dezoito anos indecisos e imaturos. O meu exterior algo distante, incapaz de tratar por tu as emoções, encontrava aqui uma forma de se reconciliar com o meu interior sensível e sedento de ternura.

Foi num dia de Inverno que me dirigi pela primeira vez ao Lar onde me falaram de ti. Lembro-me de uma mesa oval e de senhoras, não sei quantas, que me observavam e me mediam. Não sei o que disse, sequer me recordo de ter falado, mas escutei. Tinham um menino especial, mesmo à minha medida. Teríamos química, garantiram. Lembro-me de alguém ter utilizado a expressão “uma questão de pele”. Descreveram-te, “deficiências do foro cognitivo”.

Tinhas os olhos enormes e castanhos como nos livros coloridos da minha infância. A emoldura-los umas pestanas tão artisticamente curvadas que pareciam artificiais. Num primeiro momento senti alívio, “deficiências do foro cognitivo” a soprar em mim e antecipei cenários. Via-te babando, descoordenado no corpo e aflito com as palavras. Encontrei-te sereno, rostinho perfeito, andar típico de menino. Mas não falavas.

À minha chegada corrias para a porta, davas-me a mão e puxavas-me para a rua. Dias houve em que esse foi o melhor momento, a tua mão a puxar a minha, a confirmar que me reconhecias, que confiavas em mim. Os teus olhos a pedir que te levasse e eu toda a tremer por dentro, numa aparente solidez de mãezinha. Quantas vezes nos tomaram como mãe e filho. Um olhar de ternura se te tinha ao colo ou simplesmente caminhávamos de mão dada, a contrastar com um olhar de incómodo ou de compaixão se testemunhavam alguma das tuas crises acompanhada do meu desespero contido.

Lembro o teu grito, profundo e continuado, a minha aflição e simultaneamente uma espécie de conforto angustiado. Aquele grito era afinal a tua voz, a única que me sabias dar. Lembro as tentativas falhadas de te conter mesmo sem compreender, buscando uma qualquer orientação nos teus olhos quase sempre tão vazios, tão distantes, tão secos.

Mas recordo com mais nitidez da ternura e do aconchego. Houve amor. Houve o meu colo a tornar-se teu, lentamente. Houve as tuas mãos pequeninas dentro das minhas e eu enorme nesse momento. Às vezes ainda as sinto, sabes. A tua vida inteira nas minhas mãos. Lembro os teus olhos nos meus, verdadeiramente nos meus, raros. E nesses momentos a certeza de que me vias por dentro.

Queria tanto lembrar o teu sorriso, mas o que resgato da memória são apenas os teus dentinhos brancos e perfeitos num qualquer movimento involuntário, e eu à espreita. A verdade é que não me lembro do teu sorriso. Minto. A verdade é que não sorrias. O teu rosto era tristemente belo.  Mesmo nas fúrias, nas crises, a imensa fragilidade do teu rosto pequenino a revelar-se.

A dada altura perdemo-nos. É a única forma que tenho de o dizer. Foi ao redescobrir-te numa fotografia amarrotada na carteira com ares de relíquia que contei os anos. Tantos, depois de ti.  Cresci. Cresceste. Que rosto terás agora? Conservarás as pestanas artisticamente curvadas sobre as amêndoas que foram sempre os teus olhos? Disseram-me recentemente que não falas correctamente mas balbucias algumas palavras, que as educadoras te vão entendendo. Não soube mais.

Foi uma experiência tão enriquecedora quanto violenta, em que o caminho se fez de forma instintiva e muitas vezes às escuras. Mas foi a força desse tempo, avassalador, que me fez voltar ao voluntariado anos depois, de peito aberto, feita mulher. Desta vez, intuição e razão lado a lado, meninice e maturidade em doses iguais, o mesmo apelo interior, profundo, que explica esta urgência de dar, sabendo da pequenez dessa dádiva perante o tanto que se recebe. Deste-me asas e coragem para novo voo.

Conheci um novo Lar, novos meninos que abraço, novas vidas que toco, novos olhares que me fitam, que me medem, que se entregam. Voltei e bebo do melhor néctar: infância, inocência e verdade! Nos entretantos, uma vaga esperança de que algo de nós tenha ficado em ti. E se tiver sido essa a tua mensagem, anjo menino, se tiver sido esse o teu porquê, então já valeu   a   pena.

Nada   se   perdeu, ainda  que não  nos  reencontremos, ainda   que   não recomecemos de onde paramos. Tudo fica e nos fortifica, para que sejamos cada vez mais capazes de cumprir esse pacto silencioso, esse caminho sem retorno, do amor porque sim.

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação.
Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

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