Tuesday, Jun 27, 2017
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Amor em dor maior

Há muitos anos, quando eu era uma gaiata, a vida era tão linear e simples que encantava. Era uma nómada e gostava. Conheci pessoas tão variadas que seria impossível não ter opções nem experiências quando decidisse o que fazer com a minha vida.

Sabia o que era a morte, porque nasci numa família de gente madura, também conhecia o divórcio e a viuvez e penso que essa paleta de situações teve um papel determinante em tudo o que fiz. Acima de tudo o que importava eram os afectos.

A casa era muito grande e a família alargada era uma presença constante. Grande parte das vezes permanecia durante temporadas, o que me permitia deliciar com as suas histórias e as suas pequenas tragédias. Como era revigorante.

A minha tia era costureira e conhecia imensas pessoas. Na altura nunca me interroguei sobre o modo como tal tinha acontecido, mas não tinha importância nenhuma. Eu gostava delas e aproveitava a sua companhia ao máximo.

A L. era um mulher muito interessante. Viúva há uma eternidade, tinha o filho criado. Era artista plástico e tudo o que ele fazia me pareciam obras de arte. Olhos ingénuos e incultos. Gostava. Não vivia sozinha. Tinha um cão, um pastor alemão enorme e muito meigo. O Ivan.

Morava numa zona curiosa, em frente a um mercado, de forma redonda, que fazia lembrar uma arena. O apartamento era virado para um só lado e possuía uma enorme varanda onde o fiel amigo passava grande parte do seu tempo. Eu não tinha medo dele, porque nos entendíamos.

O prédio seguia a traça de Le Corbousier e dispunha de um terraço onde a roupa era estendida, ao lado dos tanques e de umas coisas estranhas: máquinas de lavar. Era um ritual engraçado ver os lençóis e as camisas a dançarem ao vento como se estivessem num baile. Havia um emaranhado de cordame que fazia lembrar uma pauta musical e funcionava tudo na perfeição.

Eu passava longas temporadas com ela, ouvia os seus conselhos e aproveitava para ver passar toda aquela multidão de formiguinhas que se apressavam de um lado para o outro. A voz dela, calma e doce, proporcionava-me tanta alegria!

Gostava de música e tinha um gosto refinado. Do pop à música clássica, ouvia-se de tudo naquela casa onde imperava a paz e tranquilidade. Mais tarde é que percebi que afinal era dominada pelo amor, mas ainda não tinha estaleca para o entender.

A F. era parteira e trabalhava numa grande maternidade. Naquela época era uma profissão de grande gabarito e acabava por estabelecer laços pessoais entre as profissionais e as parturientes. Contudo, ainda havia quem tivesse os filhos em casa, sem as menores condições. Incongruências da vida.

Eram amigas. Grandes amigas. A F. estava muitas vezes na casa da L. e era uma festa enorme! Fazíamos lanches de bonecas, muito especiais. Eu colocava os meus melhores serviços na tábua de engomar, de brincar, e imaginava conversas com alguéns que eu inventava. Ela alinhava comigo e tinha sempre disponibilidade para mim.

Primeiro pensei que esta atitude estava ligada à sua profissão, depois calculei que seria, porque não era nem casada nem tinha filhos e só muito após estes raciocínios estúpidos é que percebi que o fazia, porque gostava de mim. Querida F. que saudades que ficaram!

Os anos foram passando e eu fui crescendo, inevitavelmente. Então entendi que não eram somente amigas, mas sim duas pessoas muito especiais. Eram um par que se completava. Não me causou espanto nem choque. O amor é o motor da vida e via-as felizes e bem resolvidas. Não sei se não teria alguma inveja delas.

O cão foi entregue à polícia e acabou por se reformar medalhado. A L., por quem eu tinha uma fixação especial, foi envelhecendo e a F., um dia, reformou-se. Nada impedia que continuassem juntas e felizes como até ali. Aliás, agora o tempo parecia crescer.

Entrei na fase complexa da vida e passei a dar mais importância aos novos amigos do que aos antigos. Elas não se importaram. As visitas tornaram-se mais raras. Elas entendiam. Agora arrependo-me tanto, mas as vidas são para ser vividas no momento. Foi o que fiz.

Sei que aproveitaram todo aquele tempo para viajar, para se divertirem e estarem juntas o máximo de tempo possível. Tinham sempre um sorriso tão fácil e sincero no rosto que, tenho a certeza, nunca esquecerei. Foram importantíssimas na minha formação emocional e fico a dever-lhes tanto!

Mais tarde, já no início da minha idade adulta, estando de viagem, liguei para casa. Disseram-me que a L. tinha morrido. Estava em Chaves. Houve uma chave da minha vida que deixou de ter préstimo. Chorei a bandeiras despregadas. E agora? Lembrei-me logo da F. que ficava viúva. Tinha que a visitar.

Nunca aconteceu. Primeiro, porque quis carpir a minha mágoa e entreguei-me à dor. Já não havia mais L. para me segredar que ainda iria aprender muitas coisas na vida. Depois estava envolvida com a minha profissão e tornei-me, de certa forma, viciada. Ensinamentos delas. Dedicação ao que se faz e com gosto.

Muito pouco tempo depois a F., aquele ser maravilhoso que alinhava comigo nas minhas histórias, foi ter com a namorada de tantos anos, com o amor da sua vida. Mais uma facada na minha vida emocional. Outro diploma para colocar ao lado dos restantes.

Naquele dia não chorei. Percebi que fui uma felizarda por as ter tido na minha vida, por ter sido orientada por duas pessoas tão especiais e fantásticas que me ofereceram uma liberdade emocional de que poucos se podem orgulhar. Serão sempre um exemplo para mim.

Imagino-as sempre de mão dada, a ouvirem o Cliff Richard, as sinfonias clássicas e a chorarem com a Madame Butterfly. Ainda choro com tanto sentimento tão profundo e tão intenso. Lá onde elas estiverem devem ser muito comentadas pela sua postura. Nada nem coisa nenhuma as demoveu de continuarem juntas. E foram tempos de sangue e dor.

A cultura e o conhecimento sempre fizeram parte da minha vida, mas estas duas mulheres maravilhosas fizeram-me entender como é fácil fazer tudo aquilo que gostamos. A conclusão a que chego é que os afectos são o melhor curso que se pode fazer e é a universidade da vida que o sabe ministrar.

De facto as mulheres são seres potentes e mágicos, carregados de surpresas que superam sempre as anteriores. Hoje lembrei-me delas e quis que soubessem como gostava destas minhas amigas tão especiais que deixaram um enorme vazio no meu coração. Adeus L. e F. e continuem a beber aquele copinho que tanto gostavam.

Love you!!!

Estás dependente da
Ladrões Com Muito E

margavale21@gmail.com

Licenciada em História e Estudos Portugueses. Sempre fascinada por Literatura e Jornalismo. A escrita é a minha paixão e as minhas crónicas podem ser lidas na plataforma Capazes e Quem conta um conto. Neste momento estão dois livros a acabar de ser escritos. Nunca parar é um bom mote de vida.

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