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CinemaCultura

American Sniper

American Sniper apresenta-nos um fenómeno que tem tido cada vez mais presença no cinema norte-americano – a utilização da Sétima Arte como um meio de expressão e como proliferação de uma mensagem. Tudo deve-se à gradual descredibilização do papel dos EUA no resto do Mundo e com a suspeita da forma como as suas políticas são tratadas no resto do Globo. Por isso, uma fita sobre um suposto “herói” norte-americano, Chris Kyle, aquele que é considerado pelo Pentágono como a mais mortífera arma de guerra criada pelos norte-americanos (com 160 mortes confirmadas em palco de guerra), tem mais razão de ser a nível de interesses geopolíticos que nomeadamente num seio cinematográfico.

Porém, o mais decepcionante de American Sniper é o facto de ser uma obra da autoria de Clint Eastwood, um herdeiro do classicismo de John Ford, que, durante a sua jornada cinematografia, havia incutido uma dualidade nos seus heróis, fascistas para alguns ou merecedores para outros, mas dignos dessa consciência. Um dos exemplos de tal tratamento foi a sua revisão do herói e cidadão norte-americano em Unforgiven (1992) e Gran Torino (2008), curiosamente ambos protagonizados pelo próprio Eastwood. O primeiro, um western profundo no seio da transição do moderno, que nos apresenta um homem redentor de um passado sangrento e munido de violência (“It’s a hell of a thing, killing a man. Take away all he’s got and all he’s ever gonna have.“). Contudo, este seu “primitivo” personagem, aprisionado pela sua época inglória, é psicanalisado neste galardoado filme. Eastwood municia o confronto pessoal, o gosto pela violência “versus” a culpa interiorizada. Em Gran Torino, por sua vez, encontramos a redenção de um dos personagens norte-americanos mais fascistas, desde que o próprio realizador vestiu a pele do seu imortalizado detective “Dirty Harry“.

Afinal a mira não é tão certeira assim!
Afinal a mira não é tão certeira assim!

No entanto, em American Sniper, nunca evidenciamos essa dualidade, apenas a subjugação com ideologias políticas norte-americanas, a soberania numa nação perante uma etnia. Sim, são ideias de foro republicano, o nosso herói nunca esconde essa faceta. Um texano de gema, amante de rodeos e de armas, que acredita piamente na justiça pelo meio da violência e um religioso incontestável, visto que a Bíblia é um acessório inseparável e o seu utensílio de consciência. Acrescentar a isto uma noção de família modelizada com o “sonho norte-americano” e um patriotismo cego e inquestionável, em que, segundo o filme, Kyle voluntariou-se para o exército, por causa de notícias de um ataque numa embaixada americana em África. Depois seguiu-se o 11 de Setembro e a sua ida para o Iraque, para,citando o próprio, matar “selvagens”. Comparando com outro filme que o acompanha nas nomeações aos Óscares, Boyhood, no qual, em certa cena, pergunta-se a um soldado a sua opinião quanto à presença dos americanos em tal território, a resposta é “certamente petróleo”. Agora, quanto à resposta de American Sniper, a luta pelos bons valores e esses bons valores se resumem a EUAé a única resposta. Ou seja, todo este patriotismo cego, evidenciado, mas nunca questionado, foi outrora analisado e dissecado numa das obras de Eastwood – Flags of our Fathers (2006).

Parece que Clint Eastwood se rendeu ao encanto do conservacionismo norte-americano e às suas políticas “sedutoras”. Resultado: temos um filme demasiado cego, vazio no seu conteúdo e ingénuo no seu idealismo. O realizador está confundível, vulgarizado e inexperiente, diríamos antes que já se fez muito melhor e sob o signo feminino – The Hurt Locker, de Kathryn Bigelow. Nunca experienciamos o dualismo do soldado, a perfeita arma de matar, vendida pela propaganda, quenunca é questionada, examinada, nem anexada a críticas. E é triste que, num tempo de Charlie Hebdo, tenhamos ao nosso dispor um filme que é comparado à ideologia dos nazistas, incendiário de ódio e sem noção de redenção, nem de credibilidade com o mundo que vivemos. A interpretação de Bradley Cooper funciona no meio disto tudo como o melhor de um filme isente de ousadia e coragem. Temos obra para americano ver, mais nada.

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Hugo Gomes

Jornalista freelancer e crítico de cinema registado na Online Film Critics Society, dos EUA. Começou o seu percurso ao escrever no blog "Cinematograficamente Falando", acabando por colaborar nos sites C7nema, Kerodicas e Repórter Sombra, e ainda na Nisimazine, a publicação oficial da NISI MASA - European Network of Young Cinema. Nesse âmbito ainda frequentou o workshop de crítica de cinema em San Sebastian, também cedido pela NISI Masa, e completou o curso livre de "Ensaio Audiovisual e a Crítica de Cinema como Prática Criativa" da Faculdade de Ciências Sociais e Humana das Universidade Nova de Lisboa. Foi um dos programadores da edição de 2015 do FEST: Festival de Novos Realizadores de Espinho, e actualmente cobre uma vasta gama de festivais, quer nacionais, quer internacionais (Cannes, San Sebastian).

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