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American Horror Story: Nunca o Horror foi tão Viciante

Disse a uma amiga que tinha pena dela por não ter visto American Horror Story na sua primeira temporada, enquanto decorria em simultâneo nos Estados Unidos da América. Nessa altura, ninguém sabia que esta série era na realidade uma mini-série e, à medida que as personagens principais iam sendo mortas (voltando depois como fantasmas cheios de ímpetos sexuais e excesso de mau feitio), os seus seguidores questionavam-se sobre a formula que os produtores iriam usar para continuar a história por mais uma temporada. O que se veio a descobrir mais tarde é que Ryan Murphy e Brad Falchuk nunca pretenderam dar continuidade a este perverso conto por mais uma temporada, preferindo construir uma série-antologia, em que a unidade de medida narrativa seria a temporada e não o episódio. Este golpe de génio permitiu aos criadores fazerem a dança das cadeiras entre os vários sub-géneros do terror e voltar a usar os actores de que mais gostavam para interpretarem personagens diferentes, quase construindo uma versão televisiva e ensopada em sangue de Mercury Theater, de Orson Welles.

Através de American Horror Story, os seus criadores desenvolveram uma série macabra e, simultaneamente, vigorante, revelando que não existe nenhum tópico que não possa ser abordado. No ano passado, no capítulo Asylum, a dupla criativa decidiu brincar com a insanidade mental, com freiras, aliens, casos de possessão demoníaca, experimentação médica em seres humanos, assassinos em série, o diabo e o aborto. Para complicar ainda mais esta mistura narrativa, decidiram dar uns passos de dança pelo Holocausto, num especial de dois episódios, que tinha uma prisioneira que acreditava ser Anne Frank. No entanto, nenhum dos riscos cometidos nas anteriores temporadas faria antever o primeiro segmento de American Horror Story: Coven. Esqueçam as serpentes que estão nas imagens promocionais, porque Coven começa com a principal história de horror americana: a escravatura.

Situada em Nova Orleans do século XIX e do século XXI, este capítulo desenvolve-se em torno da Academia para Jovens Senhoras Excepcionais, uma escola para bruxinhas que ainda estão a aprender a usar os seus poderes (perguntei-me onde estaria a Sabrina, a Aprendiz de Feiticeira), que aparenta ser Hogwarts de Harry Potter, mas caso esta fosse gerida pelo Professor Xavier, dos X-Men. Aqui é vivida, principalmente, a rivalidade entre a filosofia homogeneizadora da directora da escola (Sarah Paulson), que pretende ensinar às suas alunas as melhores formas para se integrarem na sociedade, e a filosofia da sua superiora (Jessica Lang), que prefere que se deixem as “bruxas serem bruxas”, já que, como refere, “quando as bruxas não lutam, ardem”. Paralelamente a esta acção, em 1834, acompanhamos Madame LaLaurie (Kathy Bates), uma aristocrata que se diverte a criar novas formas de torturar os seus escravos. O seu sótão encontra-se cheio de homens negros presos em gaiolas, que tortura das formas mais horrendas que consegue imaginar. Entre os vários casos, existe um homem cuja pele da cara foi arrancada, outro que ficou com a boca cosida à volta de um monte de excremento e, a situação mais marcante, um homem que foi transformado num Minotauro (o seu animal favorito, segundo os murmúrios de Bates).

O primeiro episódio de American Horror Soty: Coven é mais controlado, mais estruturado e mais competente do que as suas estreias anteriores. As duas temporadas anteriores construíram-se com base na insanidade das personagens e no caos da acção narrativa, como se a história fosse uma máquina que gera energia ao misturar matéria e anti-matéria (afinal de contas, ninguém exige lógica e consistência aos pesadelos que a mente humana consegue criar). Apesar disso, não se desliga das influências que sempre inspiraram e construíram uma série, orgulhosamente, melodramática e que nunca teme ser ambiciosa nos seus objectivos.

Em contrapartida, Coven está pontilhado de aspectos sobrenaturais que podem, normalmente, ser encontrados nas séries de televisão: jovens que descobrem ter poderes (The Vampires Diaries, ou quase todas as séries juvenis da actualidade), a filosofia homogeneizadora em oposição à luta pelo direito à diferença (True Blood), a magia como metáfora de uma maioridade e uma sexualidade incipiente (nem sei por onde começar). Claro que estes são apenas os primeiros traços que nos são apresentados e claro que os argumentistas estão a preparar mais ingredientes para juntar à salada russa conhecida como American Horror Story. É de se esperar que a mitologia do pecado original, um elemento transversal a todas as temporadas, que a trama de vingança que começou num passado distante e que, sendo esta uma série assinada por Bryan Murphy, uma dose generosa de sexo e sangue sejam elementos a serem desenvolvidos ao longo dos próximos episódios.

Acima de tudo, este capítulo tem uma casa cheia de poderosas personagens femininas, representadas por actrizes de gabarito (Angela Bassett, Patti LuPone e Frances Conroy, só para nomear algumas), numa história que, tal como no segundo capítulo, tem conotações com a demonização do poder da mulher na sociedade e da sua sexualidade. American Horror Story sempre alimentou as suas narrativas desta dicotomia filosófica, numa mistura entre excessos e tomada riscos, e, a ajuizar pelo primeiro episódio de Coven, esta temporada estará repleta destes elementos, mesmo tendo já perdido muito do seu factor surpresa com as suas duas temporadas anteriores.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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