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Amar sem ser amado: ilusão ou verdade?

Dizem que o amor só é amor quando é correspondido. Discordo totalmente. O amor só é amor quando o é no seu estado mais puro e não carece de reciprocidade para ser fidedigno. Aliás, posso, até, afirmar que o amor mais puro e mais forte é o não correspondido. As razões são várias, mas há uma que sobressai: o amor não correspondido não sofre o desgaste típico de uma relação, do conhecimento mútuo, da rotina. O amor não correspondido será sempre um amor ingénuo, na medida em que os defeitos do outro serão sempre pintados com lápis coloridos e as suas qualidades brilharão de forma tão intensa que ofuscam tudo o resto.

Amar sem ser correspondido é ter uma faca espetada no peito, mas não sentir o sangue escorrer. É saber que, com o mais pequeno movimento, a faca pode deslocar-se e fazer rebentar uma artéria – e, mesmo assim, deixarmos lá estar a faca, porque a dor nos faz sentir vivos. Amar sem ser correspondido é, sobretudo, saber que, se nos atirarmos de cabeça, vamos cair e fazer um traumatismo craniano, mas, mesmo assim, achamos que a decisão mais acertada é atirarmo-nos – porque amamos, porque queremos tentar uma e outra vez, porque não aceitamos a impossibilidade de a outra pessoa não nos amar da mesma forma ou, pior ainda, não nos amar de todo.

Quando amamos e temos a sorte de sermos correspondidos, passamos por todas as fases boas e menos boas do amor: as borboletas iniciais, a descoberta que vivemos com o outro, as aventuras, as mudanças, os passos importantes. E, depois, o desgaste, a rotina, os problemas, os defeitos que se tornam mais claros a cada dia que passa. É claro que, se soubermos lidar bem com estes problemas, conseguimos que o amor não morra e que se torne, inclusive, mais forte. Mas poucos são aqueles que decidem ultrapassar as tempestades debaixo do mesmo guarda-chuva. Na maioria dos casos, as pessoas decidem dançar à chuva sozinhas, porque é mais fácil, porque dá menos trabalho, porque dá menos dores de cabeça.

A incapacidade que as pessoas têm de limar arestas e de reconstruir o que se foi desmoronando é que me faz acreditar que o amor mais forte é o não correspondido. Quando não há amor dos dois lados, não há necessidade de lutar para ultrapassar barreiras, porque as barreiras simplesmente não existem. Existe dor, saudade do que nunca se teve, ilusão e uma sensação horrível de impotência. Existe um sofrimento enorme por não podermos ter nos nossos braços a pessoa que mais queremos fazer feliz nesta vida. Existe tudo isso. Mas existe, também, a esperança. E é essa esperança que, embora nos mate mais um bocadinho todos os dias, nos permite continuar a alimentar um amor que, sem qualquer perspectiva de futuro, só quer continuar a crescer.

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Joana Veríssimo

Licenciada em Jornalismo e Comunicação e com uma paixão enorme pela escrita.

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