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ContosCultura

Amar deserto – parte I

A solidão revelava-se perversa para ele e para ela.

Janel tinha por hábito mergulhar na cadeira por detrás do balcão do pequeno motel e deixava-se ficar deitada na laje fresca durante horas surreais. Pareciam lentas, mais lentas do que os 60 minutos que aprendera e sofria por sentir o tempo parado. Olhava o relógio de parede e não via os ponteiros a mexerem-se. Via-os em outros lugares sempre que olhava mas nunca naqueles em que seria suposto estarem. Tentava deixar de sentir o tempo, mas por algum motivo que desconhecia, sentia ser perigoso esquecê-lo. Assim contava-o ainda que não soubesse para quê. Afinal que importância tinha o tempo? Ali, nenhuma.

Estava num pequeno edifício com uma parede de vidro diante de si. Cerrava os olhos com força para descansar a vista das dezenas de quilómetros áridos que se estendiam lá para os lados do horizonte. A terra queimava e emanava pequenos remoinhos de ar quente. Precisava de a pisar quando tinha que levar os clientes aos quartos do motel. Eram seis, seis barracas de madeira restauradas com o amor e afinco de recentes tempo idos. Brancas, todas elas de madeira distando alguns metros entre si. Eram um pequeno refúgio de frescura de viajantes que ali se protegiam da inclemência do deserto. Entre a recepção onde estava e os seis quartos havia quase tudo do que sonhara um dia. Agora faltavam os clientes. E a solidão imperava. Vivia triste a jovem Janel.

A cinquenta metros de si erguia-se o pequeno café adjacente à bomba de gasolina. Lá dentro Vino sonhava com a vida que já tinha mas que parecia escorrer-lhe por entre os dedos quando tentava agarrá-la com mais poder. Passava ali todo dia, sol a sol. Por vezes envolto em papéis, organizando meticulosamente as facturas e notas de encomendas. Nunca nada podia faltar já que apenas uma vez por mês via Tate chegar com um atrelado cheio de caixas preso à sua Pick-up. Ele trazia-lhe tudo, desde comida a jornais e revistas, nunca esquecendo os mais pequenos objectos que se usam no dia a dia e que nunca neles pensamos.

A 50 metros de Janel, nada dela ouvia e ela nada de Vino sentia. Viviam assim as manhas e as tardes na utópica espera por movimento no negócio que construíram juntos unidos pelo amor tórrido que os atirou para o meio do deserto. Conheceram-se ainda jovens e logo no primeiro olhar cruzado apaixonaram-se. Esconderam o amor das famílias, ele de sangue azul, ela hispânica. O primeiro descuido que tiveram levou a castigos e durante uma semana não se conseguiram ver. Choraram e sonharam um com outro. O amor falou mais alto e ao terceiro descuido, quando se viram de novo privados de se beijarem, prometeram fugir juntos. No dia em que Vino fez 18 anos, pegou em todo o dinheiro que conseguiu, resgatou Janel e fugiram.

Conduziram durante dois dias quase sem parar até chegarem a uma pequena terra perdida no deserto. Saíram do carro e viram alguns edifícios deixados a cargo das areias sopradas pelo vento. Um velhote dormitava sob um alpendre. Vino e Janel perguntaram se podiam comprar o local. O velhote riu-se, entregou-lhes um papel com um selo branco assinado por si e morreu nessa mesma noite. Eles enterraram-no sem precisarem de avisar ninguém. Ali só, a vida já se tinha esquecido do velhote guardião das paredes que o jovem casal encontrou no vazio.

Eles tinham encontrado o seu destino, um lugar onde ninguém podia voltar a separá-los. Era perfeito porque ali não havia mais ninguém e assim ninguém os poderia voltar a separar. Prometeram nunca se afastarem um do outro. Reuniram tudo o que precisavam. Conheceram Tate e deram-lhes o dinheiro que tinham em troca de tudo o que usaram para restaurar o café, a bomba de gasolina e por fim o motel. Amaram-se sob a terra quente quando o viram a obra feita. Nesse mesmo fim de tarde chegaram ao acaso os primeiros cliente e depois desses, outros depois de uns dias. Agora ao fim de uma década, cruzavam-se com a incógnita dos clientes que podiam aparecer ou não. E viviam na ilusão da promessa que um dia fizeram nos olhos um do outro.

Passavam o dia a cinquenta metros, quase a ouvirem-se respirar, ele no café, ela na recepção do motel, e essa distância era um refúgio para ambos. Despediam-se de manhã e só se voltavam a ver quando o sol fazia descansar o mundo dourado para onde eles fugiram um dia.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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