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Alzheimer com Amor

Dias de sol fazem-se alternar com os dias pintados a nevoeiro. Mais um Verão, mais um Inverno e os dias, em maratona, completam aquilo a que se chama Vida. Quase numa ornamentação barroca, o mundo dos dias que vivemos afirma-se repleto de acontecimentos cada vez mais frequentes e doenças cada vez mais presentes.

Alzheimer. Serão muito poucos, aqueles que não terão ouvido falar desta doença do foro neurológico. Esta doença, em sotaque alemão, faz (re)escrever a vida de pessoas jovens e mais velhas, afectando maioritariamente idosos. A quem é lido o diagnóstico da doença de Alzheimer vê os futuros dias da sua vida condicionados a muito provável esquecimento de tudo o que já se passou e viveu.

A Doença de Alzheimer é uma demência, um distúrbio neurodegenerativo que, ao longo do tempo, vai roubando capacidades cognitivas e comportamentais. De danos irreversíveis, todas as faculdades vão sendo progressivamente afectadas. Começa por aquilo que se pensam ser esquecimentos naturais e esporádicos, com todas as desculpas de stress, rotina, cansaço, avançando até à total dependência de terceiros. Dada a sua evolução, um indivíduo que padeça deste transtorno passa por vários estádios, identificando-se as fases mediante o grau de dependência que vai causando. Ligeira, moderada, ou severa, esta doença caracteriza-se pela perda de memória e raciocínio em que um número crescente de funções é comprometido.

É Alzheimer, meu amor.

O diagnóstico está feito. Os motivos dos lapsos de memória e esquecimentos descortinado. Os dias avançam uns ante os outros, porém, com a premissa de que com um novo raiar de sol, uma nova faculdade poderá acordar debilitada. À medida que os dias avançam, lida-se com o lento processo de aceitação da doença e uma necessidade se instala inevitavelmente: Reestruturar.

Um rol de emoções surge em catadupa, à mercê do que há-de vir, detendo a consciência daquilo que já se foi. Naqueles que se mantêm unidos enquanto casal, nesta etapa da vida, se até aqui tinham papéis distintos e bem definidos, deparam-se agora com a obrigatoriedade de repensar as suas tarefas, desempenhos, obrigações e responsabilidades. Até aqui existiu um casal, agora idosos, com tantas aventuras e desventuras em comum. E agora, o que resta? Que mais se poderá fazer? O Amor persiste? Se persistir, como será isso possível?

As respostas a questões sobre o amor são catalisadoras da postura a adoptar, influenciando todas as dinâmicas. As soluções serão tão mais simples e tranquilas, quanto mais sólida e harmoniosa tenha sido a vida em comum antes do diagnóstico da doença. A qualidade da relação do casal torna-se o fulcral nas respostas a dar, nos vários inesperados desafios da Doença de Alzheimer.

Como disse A. Saint- Exupéry, “amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direcção.” Se assim é e sabendo que a “necessidade aguça o engenho”, tudo se equaciona no sentido de apoiar e reunir ferramentas capazes de responder às mais variadas necessidades. Em muitos testemunhos se ouve “já não sabe quem eu sou, mas eu sei quem ele/a é”, como explicação de que todos os esforços compensam e valem a pena. Se “quem ama cuida” é uma frase que corre tantas conversas, perante a doença de Alzheimer, esta afirmar-se-à sob a forma de incondicional dedicação.

Na Saúde e na Doença…

Tentando ganhar tempo ao tempo que não volta e querendo agarrar esforçadamente a corda das memórias que ameaça a partir, nestes casais desenvolve-se as estratégias mais mirabolantes e astutas, no intuito de manter viva a mensagem do “eu estou aqui para ti como sempre estive”, pela magnitude da vigência de “o nosso amor continua” mesmo com Alzheimer pelo meio. Desde lembretes espalhados pela casa, colocar em determinada disposição aquele objecto com tanto valor emocional, ou alterar a estrutura da casa. Todas as formas de manter vivo o elo são permitidas.

Coloca-se à prova a paciência e a tolerância, num ambiente que muitas vezes se torna hostil e agressivo, contrastando com momentos de uma breve e emocionada lucidez. Muitos casais afirmam que, embora tão esporádicos e escassos sejam esses momentos de lucidez, as emoções que exultam dão forças, quando se desespera com a realidade daquilo que já se foi e não mais voltará. Entregues a instituições, ou com, ou sem o apoio de um outro cuidador, estes casais primam por uma postura transversal e tão assídua quanto possível. Marcam os dias com a sua presença, como a maior das graças e dos gestos. Dias de felicidade, momentos de alegria, mesmo aqueles que um dia se afirmaram os melhores de uma vida, esquecem-se para sempre. Os rostos já não se reconhecem. Nomes não são mais lembrados. Conversas deixam de ser travadas. A dependência chega a ser total.

Tolerância, paciência, complacência, calma, perdão, cumplicidade são o gerador de energia do segundo que passa e, assim, se permite viver o Alzheimer com Amor. Se para quem tem Alzheimer a novidade não existe, para quem cuida em Amor cria as suas próprias memórias numa entrega total, a um Amor que, um dia, se prometeu para sempre.

“Prometo Amar-te”

O cuidar de alguém com Alzheimer e que tenha sido a companhia de uma vida, é motivo de abordagens ao nível cinematográfico. Representa-se esta doença numa mistura de ternura com um turbilhão de emoções frustradas.

Mais de uma dezena de filmes retratam esta realidade. Realidades análogas na progressão da doença, no que toca à perda de aptidões. Em contextos diferentes e ambos apaixonantes na abordagem, destaco dois filmes premiados pela forma distinta de abordar esta temática.

Amour

Um filme do cinema francês, aplaudido e premiado em 2012. Dramático, onde se explora as disfunções que estas doenças causam na vida de uma família e em especial de um casal de idosos. O respeito e a entrega contrastam com a nudez da realidade.

Diário de uma Paixão

Um filme romântico, capaz de acelerar o coração dos apaixonados e deixar os mais cépticos a sonhar com o Amor. Relata os obstáculos vencidos por um Amor que se afirmou no primeiro olhar. Os últimos dias do casal são vividos numa instituição que permite dar apoio a Allie, que padece de Alzheimer. O seu companheiro de romance e de vida em perseverança marca a sua presença na vida ‘esquecida’ da mulher, lendo-lhe todos os dias o diário do amor vivido entre os dois.

 Terá o Universo criado a Doença de Alzheimer para pôr à prova o Amor Incondicional?

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Ana Cláudia Domingos

Talvez por ter nascido na Guarda, a cidade mais alta de Portugal, vivo com a cabeça nas nuvens (quase) a tempo inteiro. Para quem vive na cabeça nas nuvens, só isso, não chega. Falta o charme de exprimir emoções e sensações. Enquanto escolha, foi na saúde a minha aposta de vida. Na escrita e outras artes, como na música, encontro aconchego e pó mágico para esta vida. Longe de ser perfeita, enfim.... sou eu!

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