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O destino só acontece aos outros

Jack Miagger era uma estrela do Rock. Ou melhor, queria ser, mas quando lhe perguntavam o que ele fazia da vida, ele respondia sempre “sou uma estrela de Rock”, certo de que algum dia o destino encarregar-se-ia de fazer esta afirmação realidade.

Ao longo dos anos – que nele já contavam 40 – tinha tentado formar algumas bandas, mas os colegas acabavam por expulsá-lo, porque Jack Miagger não sabia tocar nenhum instrumento, nem cantar, nem compor. Mas era filho de pais americanos, tinha uma guitarra eléctrica partida que tinha comprado na Feira da Ladra, e uma namorada loira, jovem, espampanante e louca, por isso não precisava de mais nada. Além disso, com um nome tão parecido ao do vocalista dos Rolling Stones, sabia que a sua sina tinha de ser boa, demorasse o tempo que demorasse a chegar.

Nunca lhe passou pela cabeça que, talvez, o destino tivesse reservado tudo para Mick Jagger e para Jack Miagger só tivesse sobrado o karma.

Jack bebia uma cerveja e fumava um cigarro no seu café preferido, onde todos os dias parava antes de fazer alguns biscates – principalmente arrumar carros, substituindo o Zézinho da zona do Parque Mayer. Mas só tinha o turno da noite, quando Zézinho ia para um curso qualquer de mecânica tirado nas Novas Oportunidades. Apagou o cigarro, deu o último gole na cerveja e despediu-se do Sr. Ramiro. Ia a sair quando viu Jessica, a namorada loira de 27 anos.

“Olá” sorriu-lhe ela, com uns lábios muito vermelhos, que o beijaram.

Não queria admitir que estava apaixonado – as estrelas de Rock não se apaixonam, vivem o êxtase das groupies diariamente – mas Jessica tirava-o do sério. Aqueles lábios, aquele corpo…

“Olá, boneca”, brincou ele, puxando-a para ele pela cintura.

Aquela cintura… aquele rabo…

“Bom, só passei para te dar um beijinho. Vou pro trabalho” disse ela, beijando-o de novo.

“Também eu!”

Beijaram-se mais uma vez, e separaram-se. Jessica trabalhava num bar no Bairro Alto, onde se tinham conhecido há uns meses atrás, e naquele momento ele decidiu que iria lá dar um saltinho quando saísse do emprego.

Rendeu o Zézinho por volta das sete e meia da tarde, quando já não havia assim tanto trabalho. Desde que o Parque Mayer tinha perdido a fama de outros tempos que ele ganhava menos, por isso quando via que não havia muito movimento corria para o outro lado da estrada, ou rua acima e rua abaixo, encontrando lugares ao pé dos hotéis e restaurantes mais chiques, ou junto ao Tivoli. Não tinha muita despesa porque morava com os pais, por isso o dinheiro rendia-lhe para as suas cervejas, tabaco, preservativos e alguns caprichos da Jessica.

Deixou a rua por volta das 2h da manhã, hora a que sabia que Jessica já estaria praticamente despachada. Ia sugerir irem para casa dela nessa noite, passar a noite agarrados. Depois daqueles beijos à tarde não tinha conseguido tirar a miúda da cabeça, aquele namoro começava a aproximar-se perigosamente de uma relação séria.

Chegou ao bar onde ela trabalhava, e viu-a ao balcão. O bar ainda estava cheio. Ela não o viu. Ele saiu para fumar – maldita lei do tabaco – e esperar por ela à porta, fazer uma surpresa. Passado dez minutos, depois de ver a maioria das pessoas a sair, voltou a olhar para dentro do bar, para ver se ela demorava.

Não podia acreditar.

No meio do bar, Jessica beijava o patrão, ou lá quem era o engomadinho que trabalhava com ela. Não conseguiu desviar os olhos, observava como a namorada se agarrava ao outro homem, como o outro a apalpava, e sentiu o sangue a ferver-lhe. Não era uma relação séria, tudo bem, mas também não era preciso ela fazer-lhe isto, então?! Ainda calculou se poderia bater no gajo e ganhar, ou no mínimo fugir, mas decidiu que provavelmente o outro o venceria numa luta, e também numa corrida.

Virou as costas e acendeu outro cigarro. Encostou-se à parede, a pensar, escondido, como se estivesse a cometer um crime. Ele? Aquela gaja é que estava a traí-lo! Sabia que não era sério, mas achava que começava a gostar a sério daquela miúda, e agora isto? Quer dizer… não se fazia isto a um gajo!, pensava.

E muito menos a ele, que o destino só lhe podia reservar coisas boas, ele era o Jack Miagger, grande estrela do Rock, futura lenda da música! Como é que…?

Abanou a cabeça.

Não era nada. Naquele momento, quando a vida lhe mostrou que Jessica era uma mentirosa infiel, qualquer coisa nele se apercebeu que a vida dele não era nada do que ele dizia. Nada. E ele era um tolo por pensar que sim. Viu-se, no seu casaco de cabedal, com cabelos cheios de gel, e com 40 anos que eram 40 e não 20, como ele gostava de acreditar. Não se viu uma lenda; viu-se ridículo. Devia era ter seguido o plano dos pais; o irmão tinha ido para médico, como os pais queriam, e a irmã para advogada. Ele é que tinha decidido ser estrela de Rock, quando os pais tanto insistiram para ele ser Padre.

Deitou fora o cigarro e pisou-o. Caminhou pelo bairro alto, sem querer pensar em nada, sem querer ir para casa, sabendo que não ia dormir; ainda tinha os lábios de Jessica gravados na pele e na memória.

No dia a seguir acordou cedo, mal tinha dormido três horas. Levantou-se, deitou fora a guitarra, beijou os pais na testa, e, depois do pequeno-almoço decidiu, dirigiu-se à Igreja do bairro para saber onde era o Seminário mais próximo.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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