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Alice está terrivelmente velha

Da janela podre do seu segundo andar, Alice observa os gritos que se vão perdendo com o vento. Fuma um cigarro distraidamente. Consegue distinguir a voz de Dona Regina Reis, a senhoria, antes mesmo de a ver no meio do passeio a discutir com os vizinhos da loja do rés-do-chão.

“Não pode fazer isso ao meu marido!” grita-lhe Marco Lebre.

“O prédio é meu e eu é que decido! Tenho quem me pague mais, por isso quero-vos fora até amanhã!” Dona Regina aponta um dedo ameaçador para o fim da rua, como se os condenasse ao exílio.

O marido de Marco Lebre, o melhor chapeleiro da cidade, olha para a janela de Alice e encolhe os ombros. É o fim de uma era, dizem os seus olhos tristes. «Nunca devíamos ter salvo o tempo», pensa Alice. Faz sinal ao chapeleiro para subirem, para falarem com ela e beberem um chá. Ele abana a cabeça – não pode voltar a entrar no prédio. Sorri levemente como quem diz que sempre lhes resta o espelho.

Alice apaga o cigarro na calha da janela e corre os cortinados. Sente-se terrivelmente velha.

***

“Estou acabada”, lamenta. Alice tem na expressão o tom da fatalidade. Dá mais uma passa no seu cigarro. Desde que partiu o espelho que tem fumado como uma lagarta.

O Sr. Coelho assegura-lhe: “Estamos todos.” Bebe o resto do chá e os olhos mexem-se nervosamente. A ansiedade pede-lhe que olhe para o relógio de bolso, mas ele já não tem para onde ir. Muda de posição na cadeira. São quatro e cinquenta. Abre a caixa dos comprimidos e toma dois. Respira fundo.

“Lixei-nos a todos. O que fazemos agora?” Alice pergunta baixinho.

Olham os três para os cacos do espelho espalhados pela mesa. Alice tinha-o guardado cheia de esperanças infantis, mas ele nunca mais lhe tinha mostrado mistérios. Ela tocava nele e ele permanecia duro, impenetrável. Talvez estivesse amuado, ou talvez ela tivesse crescido. Agora, aquele espelho só sabia atirar-lhe com verdades cruéis: os cabelos brancos e finos, despenteados e indomáveis; a cara afiada típica das adversidades; os olhos azuis gigantes sem luz; a pele baça, estragada e cansada. O espelho tinha-se declarado seu inimigo e ela tinha-o partido com a fúria que os seus longos anos e movimentos toscos tinham permitido. Não se preocupara com azares – pelo peso que sentia nos ombros, sabia já tinha cumprido essa pena com aquela vida miserável. Mas doeu-lhe ver os pedaços de espelho partido que a acusavam de traição. Doeu-lhe ter de aceitar que nunca mais visitaria lugares mágicos. Doeu-lhe pensar que, mesmo depois de se ter vingado dele, continuava velha e nunca poderia alterar a verdade, nem partindo todos os espelhos do mundo.

“Poderíamos lá ter ficado…” lamenta Alice. Com a ponta de um cigarro acende outro.

“Tem cuidado com os cigarros, Alice, ainda pegas fogo à casa” avisa-a o Sr. Coelho.

Gato sorri. Os dentes impecáveis e a sabedoria afiada continuam intactos, como se não acompanhassem o passar do mundo. Serve mais chá a todos. Já está frio, mas há muito que eles não se importam com esses pormenores.

“Nunca soubemos seguir as regras, pois não? Sempre quisemos alterar aquilo que nos era oferecido”, diz.

Levanta-se e desaparece por entre tudo aquilo que Alice insiste em acumular pela casa. Caixas, plásticos, livros, lixo, ilusões e pesadelos, do chão até ao tecto, pendurados nas paredes, equilibrados nos móveis, preenchendo uma existência de espera, de espera, de espera. Sempre tivera problemas em conseguir deixar o tempo andar. Sempre tivera medo de que a magia estivesse escondida ali, em qualquer um daqueles objectos, e que ela não percebesse e, sem querer, se desfizesse dele. Mas agora está velha e o espelho está partido e a magia talvez nunca tenha existido. Os mais de cem relógios que ela tem pela casa anunciam todos ao mesmo tempo: cinco da tarde. O Sr. Coelho tapa os ouvidos, como se o som das horas e dos ponteiros o magoassem.

“Se não tivéssemos salvo o tempo!” insiste ela, de expressão exasperada, com o olhar demente à procura de quem a compreenda, de quem a contradiga, de quem a acorde e diga que não passou tudo de uma loucura. O Sr. Coelho olha à volta como quem deseja um buraco para se esconder.

A chaleira apita. Três golpes lentos na porta, golpes de quem tem mãos tristes. O passos seguros de Gato. A porta a abrir, uns segundos, e depois a fechar. O Sr. Coelho incómodo, nem sequer olha de lado para Alice, não sabe o que receia, mas receia. Procura entre as caixas na expectativa. Sorri e mexe-se na cadeira quando o chapeleiro, Marco Lebre e Gato aparecem, o último a trazer uma nova chaleira fumegante. O cabelo cinzento do chapeleiro está escondido debaixo de um chapéu verde alto, com plumas coloridas de lado, como uma fénix que procura renascer. Marco Lebre traz na mão outros chapéus. Oferece um a cada um deles.

 “Não! Não!” A voz do chapeleiro é de choro quando vê o espelho roto. “Os pássaros não poderão dançar mais ao sol! Não! Querido, meu querido, o que te fizeram?” Pega num dos pedaços e beija-o. Marco Lebre toca-lhe suavemente nas costas, consolando-o. “Como podemos voltar agora?”

“Nunca pudemos, pois não?” Marco Lebre encara o olhar de culpa de Alice. “Nunca mais poderemos correr com as árvores e navegar as nuvens, pois não?”

“Não,” assegura Gato. Serve chá a todos. Bebe o seu de um só gole, a ferver, no espaço do silêncio dos outros. “Não” repete. Nenhum deles sabe se Gato procura convencer-se ou convencê-los.

“Posso ficar com estes restos?” pede o chapeleiro. “Posso, Alice?”

Alice hesita. Repara nos olhos aguados do chapeleiro. Parece-lhe ser a encarnação do abandono. Anui. Gato assobia e depois volta a sorrir: é a primeira vez que Alice se desfaz de alguma coisa. Talvez algo de bom esteja para vir.

***

Dona Regina Reis sobe as escadas com estrondo. Atrás dela, os passos mais inseguros do seu marido, o Sr. Reis. Bate à porta com força e grita:

“Alice, o que pensa que está a fazer? Abra a porta! Abra já!”

O cigarro de Alice cai no chão de madeira e ela apaga-o com o pé empantufado. Atira mais uma caixa cheia de roupa e de jornais velhos pela janela, e mais outro saco cheio de chaves, de loiça, de pequenos frascos de vidro que ia guardando, e outro ainda com baralhos de cartas e relógios. Olha para o passeio e vê as suas memórias e os seus segredos todos espalhados pela rua. A cara admirada dos vizinhos. Algumas crianças correm para o meio da confusão e brincam com o que encontram – maquilhagens, sapatos, bonecas velhas. Os gritos da senhoria nas suas costas. Senta-se no sofá. Não sabe se sente medo ou alívio. Contempla as pilhas e pilhas de livros. Não se desfaz deles, não consegue. Nem dos livros, nem do tabuleiro de xadrez, nem do conjunto de chá. De resto, nada lhe serve. De resto, tudo eram mentiras e miragens. Acende mais um cigarro.

“Quero-a fora do meu prédio até amanhã! Fora, ouviu?” ouve a Dona Regina a descer as escadas.

Expele o fumo. Fecha os olhos. Com o fumo expira também quem ela achava que era e quem achava que tinha de ser. Permite-se as lágrimas. Permite-se perceber, depois de tantos anos longe, que aquilo é que é a sua vida, a sua realidade. Sente a coxa a arder e afasta o borrão do cigarro. Olha para a camisa de noite azul e branca e vê um buraco, a perna cor de porcelana com uma queimadura cor-de-rosa. Toca na sua pele enrugada. Pensa que não faz ideia como chegou até ali, até àquele momento, mas é a primeira vez que não sente o peso da desilusão.

***

O Sr. Coelho olha desconfiado. Gato bebe mais um gole do seu chá. Os olhos de Alice gigantes e iluminados.

“De certeza?” pergunta, a voz rouca do tabaco, frágil da idade.

Gato sorri. Olha em volta. Levanta-se e move o cavalo branco no tabuleiro de xadrez. Acaricia a lombada de alguns livros. “Que bela limpeza, Alice,” elogia.

Alice ignora-o e abana o braço de Marco Lebre. “Tens a certeza?”

Marco Lebre anui várias vezes com a cabeça. As suas duas mãos apertam com muita força as duas mãos do chapeleiro, os dois emocionados, sorridentes, a olhar para cada um deles, à procura do entusiasmo e da alegria que os faz tremer.

“Vê, vê, toca.”

Alice pousa o cigarro no cinzeiro e levanta-se devagar. Sente as pernas fracas. À sua frente, o espelho parece intacto. As cicatrizes de guerra mal se vêem, é como se Alice nunca o tivesse rachado, profanado, assassinado. Olha de novo para o chapeleiro e para Marco Lebre.

“Sozinho, mesmo, mesmo sozinho, disseste tu?”

O chapeleiro anui. Solta as mãos de Marco Lebre e levanta-se também.

“Juntámos os pedaços, queríamos colá-lo, guardá-lo como recordação. Mas ele… ele curou-se, Alice. Sozinho. E depois brilhou, brilhou e mexeu-se como o orvalho, como se uma gota de chuva caísse numa poça, sabes? Brilhou e mexeu-se.”

Alice olha o velho espelho, o seu maior fantasma, a sua maior fantasia, o seu maior inimigo. Intacto. E ali está ela, velha, terrivelmente velha, reflectida sem piedade, tão longe da menina que achava que ia viver para sempre no maravilhoso. E, no entanto, os olhos vêem de outra forma, e as rugas perfazem outros caminhos, e os seus sonhos recusam-se a ser quebrados. Receosa, toca no espelho. A superfície ondeia, como água.

“Vês? Vês?” Marco Lebre dá saltinhos de felicidade. “Está aberto! Está a autorizar-nos!”

Alice vê a emoção nos olhos de todos. Volta a olhar para o espelho. Dentro do reflexo está ela, está a sua sala. Dentro do reflexo, o relógio pendurado na parede – o único relógio com que ficou –, dá as horas ao contrário. Pode jurar que passou um minuto para trás. Tem a certeza. Do outro lado, está um vulto escuro, que corre e desaparece. Alice toca novamente, deixa a mão avançar lentamente, e vê a ponta dos dedos a desaparecer entre as ondas concêntricas, a reaparecer do outro lado do espelho. Com o mesmo vagar, volta a retirá-los. O sol parece brilhar na sua janela, mas do outro lado, está de noite. Tudo ao contrário. Sim, não há mais dúvidas: o espelho está aberto.

Começa a chorar. Os outros levantam-se todos. O Sr. Coelho deixa-se abraçar por Marco Lebre e pelo chapeleiro. O sorriso de Gato não é só afiado, é um sorriso de saudade, é um sorriso de reencontro. Depois de várias eternidades, o espelho permitia-lhes voltar – cinco idosos, rudes, exaustos e descrentes.

“Pensei que tivéssemos ficado presos na realidade para sempre!” sussurra Alice, entre soluços.

“Nunca fomos bons a seguir regras, pois não?” Gato olha para todos eles, para o seu encantamento, para a sua inquietação. Sente no corpo a comichão das possibilidades. Quase que consegue tocar no ar a magia, o desejo, a esperança de voltar a casa. Afinal já não são anciãos, afinal ainda são jovens, crianças com a fé e os segredos incólumes.

Alice seca as lágrimas às mangas da camisa de noite azul. “Não. Sempre quisemos fazer as nossas.”

Gato aponta com a mão para o espelho: “Vá, Alice. Faça favor. Tu primeiro.”

***

Os bombeiros conseguem extinguir o fogo e saem, satisfeitos com o resultado. O segundo andar tinha ardido por completo, mas tinham evitado que a situação ficasse pior. Dona Regina Reis olha preocupada para o seu prédio, ainda há minutos em chamas, a ser consumido, destruído. Só pode ter sido a maldita Alice e os seus cigarros, só pode! E ainda por cima devia ter morrido lá para dentro. Ninguém a tinha visto sair de casa, não saía há anos. Maldita! Era capaz de estragar sempre tudo!

“Então?” pergunta a um dos bombeiros. “Já me pode dizer o que aconteceu?”

“Ainda é cedo, teremos de investigar como começou o incêndio.” O Comandante limpa a testa e olha para o prédio escuro. “Mas a boa notícia é que ninguém morreu, pelo menos não encontrámos ninguém. Só um espelho.”

“Um espelho?” pergunta Dona Regina, admirada.

“Sim, um espelho.”

Dona Regina começa a correr em direcção ao prédio.

“Espere! É perigoso, não pode ir! Alguém a agarre”

Ela passa pelos bombeiros correndo como nunca tinha feito, algo nela a puxá-la, a chamá-la. É pesada, roliça, certamente que deveria ter menos resistência do que qualquer um deles, mas consegue ser mais rápida. Sobe as escadas num instante, até ao segundo andar, mal respirando, mal sentindo o esforço, as dores, a impossibilidade.

Entra na casa completamente escura, escura como breu, escura como se fosse uma noite eterna. O espelho, mesmo queimado, brilha. Ela aproxima-se. Pensa lembrar-se de alguma coisa, pensa que conhece aquele espelho de uma recordação antiga qualquer, de criança, de outra vida, lembra-lhe casa e lar. Quase que o toca. Uma voz impede-a.

“Minha senhora, tem de sair, por favor.” O Comandante alcançou-a.

Ela olha para o espelho. Não consegue perceber. Há qualquer coisa, ela sabe, ela tem uma memória qualquer… mas não consegue lembrar-se, não consegue. Provavelmente um sonho. Sim, é isso! É mesmo isso! Foi uma vez que sonhou com espelhos e com mundos maravilhosos, lembra-se agora! Provavelmente está a enlouquecer, como aquele demente do chapeleiro. Olha para o bombeiro. Olha à sua volta, para a casa da velha Alice, e sente uma raiva gigante no peito, uma raiva do tamanho do fogo que lhe queimou o prédio. Parte o espelho com o pé. Quebra-o, estilhaça-o, deixa espalhados mil pedaços chamuscados pelo chão. Depois, vira costas e sai daquele lugar. Nem pensa no azar; nunca saberá que azar foi confundir-se a si própria com um sonho.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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