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Alice

Ela disse-me que se chamava Alice. Não sei como tinha entrado no meu quarto, mas calculei que tivesse sido ideia da minha mãe. “Sou a Alice”. A sua voz era doce e quente, lembrava-me a voz da minha avó, a avó Alice, as duas com o mesmo nome. A Alice disse que me levaria a sítios desconhecidos, que eu adoraria.

“Mas sou cega”, respondi-lhe.

“Oh, não vais precisar de ver para onde te vou levar”, ouvi-lhe o sorriso na cara.

Deu-me algo para a mão, algo que eu nunca tinha sentido. A minha mãe raramente me deixava sentir fosse o que fosse, ou conhecer algo mais do que palavras e música clássica. A minha avó, quando nos visitava na cidade, mostrava-me às escondidas outro mundo, diferente daquele onde a minha mãe me deixava viver.

“Tens de comer” disse-me ela, dando um toque na minha mão.

Comi. Não me soube nem bem, nem mal; era desconhecido. Mas não era algo que voltasse a comer. Tinha uma superfície estranha, macia, a uma forma diferente de tudo o que eu conhecia. Algo arredondado, e ao mesmo tempo com um talo, como uma flor. Devo ter feito um esgar, porque Alice segurou-me na mão como se quisesse acalmar o meu paladar. Depois, falámos. Sei que me ri, e que o mundo parecia mais leve. Não me lembro de quanto tempo passou, nem exactamente do que falámos, mas de repente comecei a vê-la. Primeiro, em preto, uma sombra, um desenho. Depois, a ela.

A vê-la.

Eu, a vê-la, eu que tinha nascido sem visão. A vê-la a ela, à misteriosa Alice que a minha mãe tinha desencantado para me fazer companhia, de cabelos loiros e sorriso gigante. Olhava para mim como se soubesse que eu já a via, que não estava cega. E eu soube imediatamente que o cabelo dela era loiro, e que aquela cor era o amarelo. Como se lesse o meu pensamento, explicou-me “esta é o azul”, mostrava-me “e esta o encarnado”. As cores. Para mim as cores sempre foram uma utopia, conhecia a palavra mas nunca poderia saber o seu significado.

Saímos do quarto. Na verdade, ela saiu e eu segui-a. Por medo, por medo que a minha mãe nos apanhasse fora do quarto, mas também por curiosidade. A casa. Eu tocava naquelas paredes que conhecia há anos, e que era iguais, mas eram diferentes. Não sabiam no que tinham mudado; nunca as tinha visto. Mas o toque era diferente, era jovem e quente, não era a casa fria e rugosa que eu conhecia. O cheiro. O cheiro era diferente, também, o cheiro a mofo, a producto de limpar madeira, a naftalina tinha fugido, substituídos por uma sensação de roupa limpa e de erva molhada. E à minha frente os tapetes, lençóis, cortinados, sofás, tudo parecia ter cores e cheiros e paladares. O que era aquilo? Ou melhor, o que era isto que eu sentia? Eu conhecia o significado da palavra droga, embora se dependesse da minha mãe eu não conhecesse nada. Mas nunca tinha ouvido falar de nada que fizesse um cego ver. Quer dizer… se calhar existia… e se existisse, porque é que a minha mãe não me tinha dado antes? Porque é que me tinha fechado naquele quarto, sozinha e esquecida?

Não havia ninguém. Nem na sala, nem no corredor, nem nos quartos. Passámos a correr por toda a casa, quase sem olhar. Conseguíamos flutuar. Voar. “Estás a voar!” disse-me a Alice, e eu acreditei. Os meus pés não pisavam o chão, não precisavam. Tudo era novo, e incrível, e colorido. Saímos de casa, e conheci as árvores do jardim, para onde só ia com a minha avó, tocando nas folhas caídas e secas, e no tronco áspero, rugoso e peganhento. Agora, conhecia-as, via-as, via o verde e o castanho, e tudo o que a Alice me explicava.

Ela aproximou-se de mim, e tocou-me na cara. Segurou-me na cara com as duas mãos, e olhou-me nos olhos. Sorriu misteriosamente “Tudo o que sempre quis foi que conhecesses tudo. O mundo pertence-te”.

“Clara!” ouvi a voz da minha mãe. Olhei para trás, mas não a via. A minha mãe não estava ali. A casa parecia livre, fresca e vazia.

“Clara! Oh, Clara!” ouvi de novo, um grito tão alto como se a minha mãe estivesse a gritar ao meu ouvido. Um grito de felicidade? Estaria ela a ver-me, a perceber que eu estava bem, que via, que o mundo agora era meu?

De novo outro grito, o meu nome. Desta vez triste, sufocante, de animal ferido, de zanga e de castigo. Tapei os ouvidos. Era a droga, a droga fazia-me ouvir mais alto, só podia.

Corri para a casa, de novo. Atrás de mim, ficava a Alice. Corri com medo, com medo que ela estivesse zangada. Queria mostrar-lhe que via, que tudo era perfeito, que a vida só podia correr bem.

Corri pelo corredor, e vi um quadro da Alice. Parei. Da Alice? Lembrava-me da minha avó me deixar sentir um quadro antigo, que ela dizia ser a imagem dela quando era nova. Eu tocava e só sentia a pintura, os picos de tinta a óleo que o pincel do pintor deixava, o cheiro a pó, a madeira polida da moldura. Alice? … Avó Alice?

Outro grito fez-me relembrar a agonia da minha mãe, e saí do meu transe. Voei escadas acima, com a mão no corrimão. Voei até ao meu quarto, tocando nas paredes só por tocar, mais por hábito do que por necessidade. Por querer, por me manter real.

Entrei no quarto, e o tempo parou. O tempo congelou, naquele pequeno segundo, naquele pequeno segundo em que o mundo perfeito – o mundo, o meu e único mundo – acabou.

A minha mãe ajoelhada no chão.

Os gritos de desespero.

O meu corpo nos braços da minha mãe.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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