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Ai que se partiu mais um copo

Como não fui despedido da vez passada, volto ao tema. Ciente que apenas 2% dos leitores fez a experiência dos copos, reafirmo a importância que têm na apreciação do vinho.

Os nerd dos vinhos têm copos para tudo e mais alguma coisa. Como sou pobrezinho e a minha vida tem mais interesses, tenho apenas três tipos, mas podiam ser só dois. Basicamente, tenho uns polivalentes e outros para vinhos generosos e licorosos.

Até há relativamente poucos anos, talvez nem 30, os copos que se punham na mesa eram um grande para a água, um médio para o vinho branco e um pequenino para o vinho tinto. Embora as águas não sejam todas iguais (também há provas de águas), hoje opta-se por copos maiores para os vinhos, sobretudo, para os tintos.

Não é nem moda, nem o penduricalho do boné. Os mais velhos lembrar-se-ão que os espumantes eram bebidos em taças e que com elas, nos casamentos, se faziam torres e que acabava tudo num mar de vidrinhos e vinho. Hoje servem-se os espumantes em flutes (o termo não existe em português com o mesmo significado), porque o desenho do copo prolonga os fios das bolinhas, além de que a forma do topo favorece a concentração de aromas.

Vou pôr de lado a nomenclatura da copociência e referir que um copo funcional deve deixar ver o vinho (cor, borras, cortiça…), permitir uma clara percepção dos aromas, o que tem implicações no saborear, pois cerca de 70% do paladar é, na realidade, olfacto e, por último, ter um pé.

É certo que muita gente gosta de segurar o copo pelo «balde», conforme se faz com algumas espirituosas. Mas o pé não é um adorno. O pé serve para que o vinho não aqueça com o calor da nossa mão – haverei de escrever sobre as temperaturas.

Há copos «bons» e «baratos» (bom e barato são conceitos discutíveis) à venda em casas de produtos para casa e cujo preço não deve ir acima dos 2,5 euros. É fundamental que o vaso seja em forma de tulipa, pois é a forma que concentra os aromas – ou melhor, é importante que a boca do copo seja mais estreita do que o restante corpo. Aqueles que fazem uma tulipa rematada com uma dobra para fora, por muito que gostem deles…

Para concluir conto um episódio que se passou comigo, numa reportagem televisiva sobre a empresa vitivinícola José Maria da Fonseca. Um minuto de televisão exige muitos minutos de material de imagem. «Tapar» um minuto implica, no mínimo, de oito minutos de diferentes planos-10, 20, 30, 40 segundos.Estava na sala de provas e laboratório e pedimos (eu e o repórter de imagem) para o enólogo fazer uns «truques» com os copos: olhar com ar muito atento, cheirar de diferentes modos, levar o copo à boca de 25 modos diferentes…O enólogo actor disse que para isso tinha de mostrar o seu «tira-teimas», um copo que só usava, quando tinha uma dúvida insarável acerca dum vinho. Abriu um armário e de lá tirou uma lata revestida com escuma para protecção. Disse-nos que só tinha um defeito: o preço. Isto passou-se em 2004, ou 2005 e custava então 55 euros.

A experiência foi extraordinária! Aquela coisa de cristal separava os aromas que se podiam encontrar no vinho, tornando-os claros. Como se separasse as cores do arco-íris. Experimentou-se depois o mesmo vinho num copo com igual patente de general, mas indicado para vinhos generosos, velhos e os aromas não davam sinal de vida.

Se não fizeram o teste dos copos…

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa. Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais. Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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