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Ai que se partem os copos

Sou o repórter novato e já estou a levantar cabelo. Não tarda e ainda passo hoje pelo departamento de pessoal e pela tesouraria do Repórter Sombra. Isto porque vou dar um salto quântico na crónica do vinho. Prometi não ser um enochato e vou (tentar) cumprir.

Acredito que toda a gente gosta de vinho. É claro que é falso, mas há muita gente que ainda não gosta de vinho. Por várias razões, como a idade, oportunidade, experiência dum néctar que lhe preencha, momento, ou ferramenta ineficaz.Vou esquecer todos os motivos elencados e centrar-me nas ferramentas. Das várias que se usam, a principal é o copo. Agora está o editor já a tremer…

Qual é a importância do copo? Não é como o prato? Ou os talheres? É e não é. Tanto que estas coisas que temos como adquiridas estão a ser estudadas.

O chefe FerranAdrià, que liderou um dos mais importantes restaurantes do mundo (El Bulli, em Gerona),é apenas um dos investigadores. A sua cozinha é inspirada tanto nos alimentos como em reacções químicas, pelo que trabalhava também com engenheiros químicos.O professor Charles Spence, que gere o Laboratório de Pesquisa de Cromossomas da Universidade de Oxford, lançou um novo ramo científico, a que se tem dado a designação de Neurogastronomia.

Não aprofundando, os testes são feitos com diferentes alimentos e ferramentas. Por exemplo, foi servido um doce a comensais, uns em prato branco e outros em prato preto. A percepção do doce foi maior nos que comeram num prato branco.Quero dizer com este exemplo que a forma como bebemos (comemos) pode ser influenciada por diversos factores, uns mais óbvios do que outros. Assim, desafio os leitores a fazer uma experiência em casa.

Escolham um vinho e sirvam a mesma quantidade em copos de diferentes formas,diferentes grossuras, largos e baixos, altos e estreitos, balão para whisky… o que tiverem. Depois, cheirem cada um deles. Sem pressa, só atenção. Ninguém abre a boca até todos terem terminado. Depois conversem e divirtam-se com as conclusões. Atenção: cheirem os copos antes de lhe deitarem o vinho, pois podem ter sido contaminados com o odor do sítio em que foram guardados, basta passar por água e secar.

Trata-se de física e de química. Há o aspecto da grossura do copo e da sensação de requinte que um vaso fino e/ou de cristal transmite, mas o resto é física e química.

Voltarei ao tema dos copos. Prometo não abordar os melhores modos de lavar copos… fugi dum fórum do Facebook, quando a malta entrou nessa discussão (acalorada). Os ET existem!

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa. Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais. Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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