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ArtesCultura

Afinal quem comeu a avózinha?

Nada melhor que contar e ouvir umas estórias, durante as noites de Inverno, quando o exterior não é uma opção. Todos sabemos que a tradição oral surge da repetição do mesmo conto, o qual vai tendo adequações, quando nos falha a memória, ou a fazemos falhar propositadamente. Ouvi incontáveis vezes a história de um canário e de um pente contada pela avó. Que, sabendo-a de trás para a frente, me fazia sorrir pelo que lá vinha e me divertia por ser um pouquinho diferente desde a última vez.

No entanto, todos esses contos, muito moralizadores, tinham sempre uma dúbia leitura, nada infantil, e esse é o seu grande fascínio também para os adultos. Muitas vezes lendo nas entrelinhas, o doce conto transformava-se numa estória de opressão e/ou moralização. Para a criança ser salva pelo herói, matava-se ou feria-se a besta ou monstro, muitas vezes animal ou de traços animalescos. Os contos eram uma forma de propaganda das normas, da conduta, de pertença na sociedade dos homens, que se debatiam contra a natureza e o sobrenatural.

Sempre que fosse preciso, reescrevia-se o conto. Isto acontece tanto com as estórias, como com a história. A história dos homens e a história das estórias está, claro, ligada. Havia que acreditar em maus e bons e todos queríamos estar do lado dos bons, mas muitas vezes não percebemos que o lobo apenas é mau, porque não tem outra opção. Não conseguimos parar um pouco para compreender por que age ele assim. Se realmente há no gesto da Capuchinho, ao escolher  o trajecto mais perigoso e mais curto, algo de provocador e calculista.

Dificilmente acredito hoje que a Capuchinho é tonta, que o Lobo é mau, ou que a Avó estava sozinha e fechada em casa. Deixo-vos aqui um interessante artigo sobre a evolução mundial deste conto. Resumindo-o, o autor refere que a sua proliferação por vários continentes se deu a partir de uma origem comum e que evoluiu de modo distinto, culminando em versões regionais autónomas, mas semelhantes. Curioso, não?

Na hora de contar, reinvente-se o conto, e selecionem-se bem os valores que queremos transmitir. Boas estórias e bons contos.

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Ricardo Jorge

Lisboa, 1978. Licenciado e mestre em Arquitectura pela Universidade de Lisboa, estudou também Design e Ensino das Artes. Paralelamente a estas áreas desenvolve trabalho em Ilustração e Desenho com exposições regulares em Portugal.

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