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Afinal, o que é que fazes?

Há sempre um dia!… Acontece a todos os que lidam com crianças. Sejam pais, avós, tios, “tios”, familiares, amigos, primos… Não há volta a dar! Quem anda nestas coisas do vinho acaba sempre por ouvir uma afirmação peremptória, que tanto dá para rir como pode afligir.

Enólogos, produtores, críticos de vinho, ou jornalistas de temas de vinho ficam a saber que o(s) serzinho(s) lá de casa pensa que a profissão é BEBER VINHO! Quanto a mim, já estou safo. O “Chiquemanel” – alcunha caseira do miúdo aqui de casa, que nem é Francisco, nem Manuel – já afirmou que não faço outra coisa que não beber vinho, sendo, por outras palavras, remunerado pela tarefa.

O “Chiquemanel” foi então informado que ganho a vida a escrever sobre variados assuntos e que o tema do vinho é apenas um deles – sou o que se pode definir por jornalista todo-o-terreno. Porém, mais divertidos são os casos em que a questão é colocada na escola:

– O Pedro, qual é a profissão do teu pai?

– É beber vinho.

Houve quem tivesse sido chamado propositadamente à escola para falar com a direcção – sei de um caso. Normalmente, a correcção é feita, via papelinho ao professor, pelo encarregado de educação atrapalhado. Ou calha na reunião de pais, ou numa daquelas aulas em que os encarregados de educação são chamados para falarem à turma.

JB_apergunta_2Há umas décadas, dizer que os pais bebem vinho nem espantaria. Com a diminuição do consumo de álcool e sanção do alcoolismo, andamos bem mais cordatos. Contou-me um vitivinicultor que, os seus empregados mais antigos, bebiam, pelo menos, um litro e meio ao almoço.

Não é brincadeira! Há uns anos, entrevistei uns camponeses que me contaram que para calarem os bebés embebiam a ponta duma fralda em bagaço e açúcar. Talvez mais triste seja a longa utilização do vinho como fonte de calorias. Portugal sempre foi pobre, em uma orografia nem sempre favorável à agricultura, muitos solos pobres, o gado era sobretudo para trabalho, pelo que o álcool era um alimento muito usado.

O que hoje buscam os produtores é o oposto dos agricultores de antigamente. Em vez de vinhas superprodutivas, buscam obter menor quantidade, mas maior qualidade. Isto implica – nomeadamente nas zonas onde a produção era muito abundante, como a Estremadura ou o Ribatejo – que as vinhas sejam instaladas em solos mais pobres. Sim, os mais férteis eram cultivados com vinha, para que alimento não faltasse. Voltarei, parcialmente aqui, na próxima crónica.

Quanto ao que faz a tua mãe – que não é BEBER VINHO – há um ponto a reter e que, normalmente, faz alguma confusão a quem não passa a vida no meio vitivinícola: cuspir.

Cuspir é uma coisa feia. Felizmente, hoje vê-se cada vez menos gente a cuspir para o chão. No século XIX – talvez antes –, havia um artefacto nas casas burguesas que eram as escarradeiras – era o nome. Em vez de ir para o chão, o cavalheiro mandava o muco para um recipiente, que depois “a Maria” haveria de despejar e lavar.

No entanto, cuspir ou despejar o conteúdo vínico é obrigatório a quem quer trabalhar com rigor – talvez até seriedade. A razão é simples: Não há super-homens! Se os vinhos em prova fossem engolidos, a dada altura eram todos fantásticos, ou todos péssimos, ou todos iguais de algum modo.

Sou um bocado desastrado e há umas cuspideiras muito estúpidas – a culpa é do material, pois claro – que consistem num balde e numa tampa com ralo. Ora eu, nada distraído nem desastrado, em vez de tirar a desnecessária cobertura, preferi insistir em salpicar-me. Podia ter levado um avental, mas bastava-me tirar a “coisa”.

JB_apergunta_1Para os enófilos, as feiras de vinhos – em que há bancas de produtores e vinhos em prova, não as dos supermercados – são uma óptima oportunidade de conhecer novidades, ou produtores. Há, normalmente, junto a cada banca, ou mesmo em cada balcão, recipientes para despejar o vinho.

No entanto, raros são os que optam pelo despejar, pois faz-lhes confusão. Por mim, tudo bem… mas se forem às compras, arriscam-se no acerto. De qualquer modo, divertem-se e isso é que importa, no final de contas.

Para que conste e fique bem expresso em acta: a minha profissão não é BEBER VINHO.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa.

Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais.

Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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